Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

5.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 6)

 

A gente saía. Clara e eu. Todas as noites pra balada.

Uma noite, deixamos o hyundai com o valet e fomos beber, felizes da vida, naquele boteco da Vila.

 

Mas na saída apareceram um malacas e puxaram uns berros e domaram o valet, a rua já tava vazia.

Eu disse calma, calma, não precisa disso.

 

Saltei sobre o primeiro, que nem Chuck Norris, que nem Jason Borne. Outro atirou. Não deu tempo de correr pro blindado. Eu tava sem arma. Mas só no armlock quebrei o pescoço do primeiro cara e sartei sobre o segundo, que disparava. O terceiro também, uma 765, na manha.

 

Nem senti os tiros.

 

Clara ali desmontada. Um rio de sangue. Um cara fugiu com o carro.

 
Corpos na calçada.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    22:19 — Arquivado em: Sem categoria

Pausa 3 - O terceiro dia

Ele comia a mulher de todo mundo. Eu apresentei minha mulher pra ele. Ele comeu minha mulher. Fez mais. Mandou minha mulher não dar mais pra mim. Eu fiquei muito apurado e fui pedir conselhos pra ele. Minha mulher não dá mais pra mim, você que come a mulher de todo mundo, você é o cara que pode me ajudar. Ele abriu um sorriso de santo e mudou de assunto. Aí eu percebi tudo. Foi só ligar os pontinhos. Mas eu não perguntei nada. Nem pra ele nem pra minha mulher. Passei a dormir no sofá da sala. Mudei meus horários no trabalho. Mal dava “Bom dia!”. Mal respondia um “Tudo bem?”. Comia meu prato quieto. Não repetia nem mistura. Troquei o ônibus pelo metrô. Tirei a foto dela da carteira. Quase não trocava de roupa. Só tomava café em padaria. Um dia não fui pro trabalho. Também não voltei pra casa. Pensei em ir num puteiro, mas nunca tinha ido na vida, nem ia saber o que fazer. Sentei num banco do metrô e rezei um pai nosso e uma avemaria. Sabia que estava morto. Não ressuscitei ao terceiro dia.

criado por ciadaobesidade    10:11 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 5)

 

Meu pai era um cachorro. Eu não gostava do meu pai. Não era por nada, não. Acho que pouca convivência. Eu não cresci com ele. Cresci com minha mãe. Eles separaram logo cedo. Minha mãe dizia que meu pai era um cachorro. Eu passava alguns fins de semana com meu pai. Ele me deu um cachorrinho. Na verdade foram dois. O primeiro morreu. A gente ia no Shopping e eu via o cachorrinho na Pet Shop, detrás da vitrine, com aqueles olhinhos. Eu sempre queria comprar cachorrinho. Eu queria mesmo um canil. Meu primeiro cachorrinho morreu de cinomose. Na verdade era uma cadela. Depois eu tive um cachorrinho. Meu pai que me deu. Meu pai trabalhava como cachorro. Meu pai não conseguia dormir. Eu ainda não consigo. Meu pai tomava remédios. Dizia que estava deprimido. Eu dizia que estava deprimida. Um dia ele me ofereceu. Antiansiolíticos. Antidepressivos. Um coquetel. Eu dei risada. Eu trabalhei numa ONG. ONG de bichos. De proteção aos bichos. A gente castrava os bichinhos. Tudo limpo, higiênico. A gente tirava dos abrigos e levava pra doação. Hoje eu não trabalho mais. Aquilo me deixava bolada. Os bichinhos abandonados. Eu disse. Eu estava deprimida. Hoje eu não estou mais. Eu aceitei o convite do meu pai. Eu tomava de noite. Pra dormir. Antes de dormir. Eu me olhava no espelho e não gostava. Eu parei de comer. Eu fiz regime com meu pai. Meu pai estava acima do peso. Eu nunca estive. Eu estou bem magrinha. Aí comecei a vomitar. Ou foi depois que eu li uns livros? Ou foi depois que entrei nos sites? Eu não paro com os remédios. Pra não dar rebote. Se dá rebote eu pareço uma zumbi. Hoje estou melhor. Muito melhor. Meu pai era um cachorro. Agora não é mais. Não, ele não morreu. Ele melhorou. Ele largou tudo. Foi morar num sítio. Hoje ele tem um canil.Eu penso um dia em morar com ele.

 

criado por ciadaobesidade    9:09 — Arquivado em: Sem categoria

4.12.08

Franciso de SP (Folhetim - Capítulo 4)

 

Gosto de bicho, disse Clara. Gosto de todo tipo. Mas eu gosto mesmo é de cães. Os cães são bonitos. Os cães são fiéis. O que são os olhinhos de um cão, quando você chega, de madrugada. O cão que se aninha no seu colo, e que até parece gato. O cão que lambe as suas mãos. O cão que lambe o seu rosto. O cão que se enrosca em suas pernas. O cão que brinca com você. O cão que pula na sua cama de manhã. O cão que de repente levanta o focinho e espreita sabe-se lá que espírito que passou por aí. O cão que levanta as orelhas. O cão que estende a patinha. O cão que te pede comida. O cão que abana o rabo. O cão que gane pra lua. O cão que late pra quem passa. O cão que gira que nem bobo. O cão que balança a língua. O cão devorando a ração. O cão bebendo água. O cão saltando no colo. O cão viralata. O cão rotweiller. O cão que mistura rotweiller com viralata. Eu tive um desses que amava uma cadela salsichinha. Eu não gosto muito de gente. Eu gosto mesmo é do cão. Disse Clara.

 

 

criado por ciadaobesidade    23:08 — Arquivado em: Sem categoria

Pausa 2

 

Eu não consigo chorar.
(Mas eu conheço uma técnica respiratória que em menos de 30 segundos deixaria qualquer um chorando copiosamente, e se você,por exemplo, entrasse no quarto e visse a cena, eu encharcando a gola do pijama, o travesseiro e o cobertor, você compreenderia, creio eu, a extensão da agonia.)

 

criado por ciadaobesidade    22:56 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 3)

 

 

Clara.

É. Parece filme. Pura coincidência? Vida tem dessas coisas?

Eu era um cara assim, ó: Tipo, assim, então, cara, vamos aí, meu, naquela balada, tipo? Clara era uma cara tipo assim: então, tipo, vamos.

 

Ela gostava de Vodka. Vodka com gelo. Ela gostava de ecstasy. Ecstasy com vodka. Ela gostava de dança. De dança e balada.

Ela era miúda. Ela quase não comia. Ela vomitava. Ela era magrinha.

 

Clara. Na madrugada.

Eu me apaixonei.

Lembrei daquele filme, Irmão Sol, Irmão Lua, que vi no DVD na casa do meu pai, eu era um pivete, um filme água com açúcar, a história do santo e da santa. Francisco e Clara.

Contei pra Clara: Clara, você, tipo assim, sacou a coincidência? Ela: Então? Eu: Teu nome e o meu, Francisco e Clara. E aí?

 

Clara era filha de banqueiro, passava o verão na Itália. Conhece Assis? Interior de São Paulo, uma amiga tem um haras. Não, Itália. Milão, Roma. Assis, terra do santo. Francisco de Assis e Clara. Clara de Assis. Santa Clara.

Então. Não conheço. Disse-me Clara.

Não acredito.

Então.

Já reparou como aqui no Brasil tem tudo que é Chico. É Chico Buarque. É Chico César. É Rio São Francisco.

E ela: nossa… É mesmo. Tem Chico Bento.

Tem Chico Anísio. Tem Chico Xavier.

Eu tô de Chico, disse-me a Clara.

E quando vimos, assim no papo, é que começamos a namorar.

Clara era gata. Clara era tudo.

 

Gostava de mergulhar na paixão enquanto escutava a gargalhada irada de Clara.

 

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    10:48 — Arquivado em: Sem categoria

Pausa

 

 

Para a memória do corpo que pulsava sobre o teu.

Para alargar o silêncio da abstinência.

Para o olhar que só o cão compreende, acorrentado no fundo do quintal.

 

 

 

 

 

criado por ciadaobesidade    6:46 — Arquivado em: Sem categoria

3.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 2)

 

Vim de outra terra, de outro santo, São Paulo. Andava de carro. Morava em sobrado. Fazia escola. Tinha carteira, cartão, conta de banco. Eu era menino. Agora sou velho, meu velho, meu velho Chico?

Nasci em berço de ouro, como manda o figurino. Pai empresário, loja grã-fina, atendia gente endinheirada, que vinha de longe, buscar as calças, calcinhas, sutiãs e vestidos. Roupa estrangeira. Coisa de grife.

 
Eu era rico. Filho de rico. Portanto, rico. Tomei todinho. Tive babá. Cresci rapidinho. Era um atleta, bonito. Gostava de jiu-jitsu. Gostava mesmo é de porrada. E era bom nisso. De dia, de roupa da Diesel. De tarde, lance no tatame. Entrar no braço. E me cultivava. Malhava muito e além do ferro mandava umas bombas pra definir.

Eu batia forte. Eu também levava. Mas eu mais batia. Gostava de ver sofrimento no olho alheio. Batia feio. Bonito. Fui campeão. Colecionei medalha. Menino de ouro. Berço de ouro. Relógio de ouro. Corrente de ouro.

Ia pras baladas. Lá me esbaldava. Dançava a noite toda, movido a uísque e comprimido.

Eu fazia plano. Morar nos Estados Unidos, ir de tatame em tatame, me derramando. Meu velho Chico, eu, um jovem Chico, que meu nome é Chico, é Chico, nome que me deu meu pai, devoto de santo, lá de São Francisco, aquele santinho de Assis, aquele santinho magrinho, aquele santinho bonzinho, dele veio meu nome.

 
Entrei na faculdade. Adivinha? São Francisco. Fui fazer direito, lá em São Paulo. Centro de São Paulo. Perto da praça da Sé, aquela zona. Eu estudava paca. Mas tirava onda. Meu lance era balada. Depois, o pai descolava estágio em escritório de amigo e a coisa era dada. Aí, negócio era depois do diploma prestar concurso e virar juiz. O montar filial da loja do pai.

Falar das minas. Quantas eram elas. Elas eram muitas. De todos os tipos. De todos os cantos. Loiras, morenas, ruivinhas até nos pentelhos, de toda praia e de toda quadra.

 

E fui assim, de cama em cama.

 

Até cruzar com Clara.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    13:19 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP (Folhetim-Capítulo 1)

Velho Chico, diz há quanto tempo, há quanto tempo, há quanto tempo estou aqui. Foi numa manhã de verão que cheguei, céu um azul rasgado que se debruçava sobre a rocha e beijava lagarto? Foi numa tarde de outono, vento leve aqui no lombo? Foi numa noite de inverno, embrulhado nas estrelas, lua gorda, lá em cima, a pino? Ou foi bem no meio da madrugada duma primavera e eu cheguei com os brotos, esparsos, nas grotas?

Velho Chico, sou capitão de Moçambique? É o que me diz essa minha farda, esse terno branco? Onde andará meu Rei, Velho Chico, cadê minha rainha? Sou capitão de Moçambique, fui negro do Congo, de onde vim, meu Chico? Lusco-fusco aqui na mente, no meio da testa, aqui dentro, umas imagens. Uma senzala. Pelourinho. Chibata. Mas pode ser chiste, deveras. Mais nada. Pode ser nada. Ser nada.
Vai ver é o que é.

Velho Chico, daqui do topo da Canastra miro tua nascente. É nela que me banho, faço libação, bebo soro e pego molho da janta. Lá vou eu de novo mergulhar nas tuas águas. Mãos que me abraçam. Pés que me carinham. Boca que me beija. Teus olhos, rebrilho em que me miro, miração sagrada.

Velho Chico, nem lembro porque vim. Agora, talvez, talvez comece a lembrar de onde vim e nem sei se é o caso de voltar ao assunto que talvez já seja tema defunto e enterrado num canto do pedrario, cobri com terra, com as mãos, olha essas unhas lascadas.

Vamos ao caso.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    7:04 — Arquivado em: Sem categoria

2.12.08

Prison Break

 

Numa mão ela carregava o guia de lançamentos de um grande jornal. A outra ela apoiou na borda da banca. “Já chegou esse aqui?” O vendedor franzia os olhos sobre a página e tentava identificar o filme pela capa. “Ainda não. Amanhã. Hoje chegou esse outro.” Apontou para outra imagem no pé da página, também marcada por um círculo perfeito de bic preta. “Pode pegar. O crítico disse que é ótimo.” O vendedor acrescentou o título à pilha. “Quantos já têm?” Ele contou com dedos ágeis. “Oito. Leva mais dois, dou outros dois de presente.” Ela olhou para as várias fileiras de DVDs dispostas por gênero. Da esquerda para a direita, infantis, musicais, pornôs, lançamentos, uma miscelânea de clássicos, filmes antigos, brasileiros, religiosos, coleções e séries, uma última coluna com jogos para computador. Mirou mais uma vez o display, ao fundo do carrinho-banca, que exibia as pérolas daquela semana. Tropical Thunder. Batman. Os últimos do Nicolas Cage e do Van Damme, Agente 86, um pacote com a última temporada de Prison Break. Visitava pelos menos duas vezes por semana seu fornecedor, sempre com os mais recentes guias de jornais e revistas. Conseguia grandes descontos. E assim formou uma senhora filmoteca no seu apartamento na Saúde, DVDs que acondicionava em caixas de sapato, todos de pé, ficava fácil de consultar. Já tinha 10 caixas com todo tipo de filme. Uma, a dos mais queridos, jamais saía do lado do aparelho de DVD, dividindo espaço com a caixa dos filmes da semana. As outras, guardava no quartinho de empregada, numa parte do armário embutido. Todas as tardes tinha programa. Fazia pipoca no micro, acariciava sua gata, se sentava no canto esquerdo do sofá, como fazia desde, como costumava dizer, “priscas eras”, quando a seu lado sentavam-se o companheiro, os filhos ou os netos. Naquele fim de tarde, escolhendo DVDs, sorriu para o vendedor e aceitou a proposta. O rapaz já dividia o bolo de filmes em dois pequenos sacos plásticos amarelos quando ela, com dedos longos e leves e unhas perfeitas, acrescentou ao pacote um filme de Regininha Poltergeist e outro da Leila Lopes. O rapaz trocou os amarelos por sacos pretos e ainda acrescentou, como bônus, uma cópia excelente de Mamma Mia e outra de Chega de Saudade. Sua melhor cliente pagou e desapareceu na multidão que mergulhava na boca do metrô.

 

criado por ciadaobesidade    8:37 — Arquivado em: Sem categoria

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