Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.
<  Agosto 2008  >
S T Q Q S S D
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31
Buscar
Blogs Favoritos
Receba os posts
Terra Blog

25.06.08

O Representante

 

Esta história eu ouvi de um grande sujeito, representante comercial do nordeste, atuando entre Recife e Maceió. Registro como carinhosa homenagem ao Seu Ricardo e ao Seu Zé do Bode.


Seu Zé da Silva, mais conhecido como Zé do Bode, é o homem rico da cidade. Analfabeto, com ele é no fio do bigode. Quando confia, confia. Me liga na segunda. “Seu Ricardo, o senhor me apareça aqui amanhã de manhã que quero comprar um camião e quero que o senhor me acompanhe. Pode ser?”. Mas seu Zé, precisa não comprar caminhão, bobagem. “Mas se eu quero comprar camião é porque eu quero. Posso ou não posso?” Apareço lá na manhã seguinte. “Vamo na minha Rangi comprar o bruto.” Ele pega uma sacola de feira, entra no carro, pede que eu guie. Vamos. Chegamos na concessionária. Ele olha os autos no pátio. “Quero aquele.” Qual? “O encarnado.” Aquele? “O encarnado!” O vermelho. “Seu Ricardo, o senhor me pergunta quanto é. Custa 150, Seu Zé. “150? Pergunta quanto é à vista.” É 150. “Pergunta se faz 140.” O vendedor me diz que chega em 145. 145, Seu Zé. Damos uma chegada na mesa do vendedor. Seu Zé nem olha pra ele. Despeja o saco de supermercado na mesa. 140 mil em dinheiro. Eu suo inteiro – viajar pelo sertão com 140 mil no carro, se a notícia se espalha a gente não chega vivo em lugar nenhum. Seu Zé olha pra mim. “Pergunta se ele faz 140 no arame.” Faz? Ele faz, faz. “Então, feito.” O homem pede que a gente vá ao caixa. Daqui a pouco, entrega a nota. “Cadê meu camião?” Ô, Seu Zé, a gente não leva o caminhão hoje, não. Tem que fazer uns acertos. A gente pega amanhã. “Então nada feito. Devolve meu dinheiro. Como é que eu dou 140 mil e levo de volta um papel? No senhor eu confio, seu Ricardo, mas não confio assim em qualquer um. Dou meu dinheiro, levo o encarnado.” Mas não é possível, Seu Zé, pode confiar. “Eu lá vou trocar meu dinheiro por papel?” A nota é garantia. “Sei não. O senhor garante?” Garanto. Além disso, se a gente sai dali com o dinheiro, a notícia corre e a gente não chega em casa. “A gente volta amanhã na Rangi.” No dia seguinte, voltamos. Seu Zé vai guiando o encarnado. “O senhor vai na Rangi.” E como é que eu devolvo? “Leva ela pra casa.” Vou passar a semana na estrada. “Vai de Rangi. Depois mando buscar.”


comentário
Comente este post:




Seu e-mail não será mostrado neste site.




tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, a, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
URLs, e-mail's, AIM e ICQs serão convertidos automaticamente.