Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

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24.06.08

o número da besta

 

Não sou dos piores, mas estou longe de não ser um sujeito supersticioso. Noto as conexões e, dentro do possível, seguro as pontas. Exemplo: quer coisa mais desagradável que viajar num vôo meia-meia-meia? The number of the beast, como ainda brada o Iron Maiden.

 

Pois é. Meu vôo pra Recife tinha a honra de terminar com esse número. Notei que já no saguão a moça da voz do aeroporto já tomava cuidado ao pronunicar a identificação. Fazia uma pausa caulada: "Atenção, senhores passageiros do vôo um-seis... Pausa... Seis, seis, com destino..."

 

Então, por que raios os sujeitos que organizam os vôos já não simplesmente pulam o tal número? Vôo 1665, vôo 1667...

 

Não dá pra embarcar sossegado. Qualquer turbulência, então, só com reza brava. E, nessa minha viagem pra Recife, foi o caso!

 

Se a ida não foi nada memorável, o que dizer da volta.

 

Tudo começou bem. Embarque na hora certa - o que é coisa rara. Avião para São Paulo, com escala no Rio.

 

Três horas depois, estávamos no Galeão. "Senhores passageiros com destino a São Paulo, queiram permanecer na aeronave." Saíram os poucos com destino carioca e ficamos nós, lotação quase esgotada.

 

Quinze minutos. "Senhores passageiros com destino a São Paulo, queiram desembarcar. Por motivos operacionais, vamos trocar de aeronave."

 

Lá fomos nós. Saímos de um avião e imediatamente entramos em outro. "Queiram conservar os mesmos lugares." Mais quinze minutos. Vem o comandante: "Tripulação, preparar para decolar."

 

Todos afivelamos cintos. Aquele silêncio habitual. O avião faz taxeamento, vai pra cabeceira da pista, pronto pra acelerar. Tempo. Vem nosso comandante. "Senhores passageiros, por motivos de segurança, a aeronave retornará a sua base."

 

Estacionamos de novo. Entra equipe de mecânicos de desenho animado, com macacões, "manutenção" escrito nas costas em letras garrafais. Pelo menos quatro caras entram na cabine do avião. Ficam lá belo tempo. Um sai. Volta. Movimento. Cochilo na cadeira. Tempo.

 

"Senhores passageiros, vamos partir em quinze minutos." Mais quinze? Tudo bem. Homens entram e saem. Meia hora depois: "Senhores passageiros, em nome da sua e da nossa segurança, vamos trocar novamente de aeronave."

 

Saimos como carneios. Lotamos alguns ônibus. Mães com crianças de colo. O vôo chegara no Rio às 22h30. Devia estar em SP à meia-noite. Fizemos esse traslado para a nova aeronave à meia-noite! "Senhores passageiros, queiram conservar seus lugares."

 

Conservamos.

 

Talvez tenhamos voltado  para a primeira nave. Não tenho certeza. Os aviões são todos iguais. Apertados.  A cada mudança, a cara de nossas comissárias murchava mais um pouquinho.  Haja maquiagem. Todas cansadíssimas, como nós. E sem argumentos...

 

Nos acomodamos rapidamente, o avião taxiou, nada de papo do comandante, pronto, estamos no ar!

Passa meia hora. "Senhores passageiros, aqui é seu comandante. Venho esclarecer os acontecimentos. Nossa primeria mudança de aeronave deveu-se a estratégia da empresa na malha aeroviária." (Ou coisa assim.) "Nossa segunda mudança aconteceu por problemas na aeronave e para garantir a sua e a nossa segurança." (Ainda bem.) "Infelizmente, ainda tenho uma má notícia." (Me senti num daqueles Disaster Movies dos anos 70: Aeroporto 74...) "A visibilidade em Guarulhos está piorando. Talvez tenhamos que voar para Campinas. Daqui a pouco confirmo a situação. Muito obrigado."

 

Foi aquele "ÓÓÓ..." no avião. Fazer o quê? Meia hora depois, ele confirma. "Senhores passageiros, realmente a visibilidade em Guarulhos está zero... E piorando.... Vamos para Campinas! Chegaremos lá em cerca de 15 minutos."

 

Desembarcamos no meio do nada em Viracopos lá pelas 3h15. Táxi para SP a 285 reais. "É o mercado", diz o rapaz da cooperativa de taxis. Vamos de ônibus da empresa aérea. "Não adianta ir para Congonhas. O aeroporto fechou às 23h."

 

Durmo bem no ônibus. Chegamos às 4h e 20 em Guarulhos. Peguei um táxi. Pensei que, depois de tanto rolo, fosse morrer na Marginal, tal a velocidade que o carinha desenvolveu. Chegamos na Vila Madalena 4h40.

Beijei minha mulher e meus filhos, tomei uma sopinha e fui dormir. Sete horas estava de pé para ir trabalhar.

 

 

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