30.1.09
cigarros&uísque&canções
Ela estendeu a mão direita com o cigarro aceso. Numa troca rápida, apresentou a esquerda com o copo de uísque. Pronto. Estava dada a resposta à pergunta matreira que seu filho lançara: “mãe, o que é que você faz pra estar tão bem assim?”.
Assim: desfiando a tarde leve e longamente, com voz rouca de arrepiar, lançando pérolas do cancioneiro, de Noel a Chico, um arco de sambas maravilhosos, acompanhada pelos amigos, violão e percussão, que as caixas acústicas lançavam pelos terraços do sítio.
As notas reverberavam nos caniços de bambu, ricocheteavam na superfície do rio, rodopiavam pela carcaça da velha ponte de metal, encantando os peixes que um pai e um filho aguardavam em vão, varas vazias, na margem, e subiam para todos os céus de Santa Branca.
O mundo acabava ali. Também começava. O mundo era uma ilha mapeada pela voz de Mirtes.
Difícil mesmo encontrar adjetivo para Mirtes. Elegante. Longilínea. Bela. Forte. Talentosa. Já disse o filósofo, aonde palavra não chega é melhor calar pra não se encalacrar. Mas quem é do ofício e vive desse vício deselegante teima e fica ali, ladeando a coisa.
Mirtes caminha para o microfone no fundo do caramanchão. É Mirtes quem está voltando? Não, é Isabela, sua filha. É Isabela quem vai? Pode ser Mirtes. E lá vem outra surra de palavras: jovens, leves, sinuosas…
É Isabela agora dançando no meio do salão com Jair, seu pai. O homem é pé de valsa e o sorriso que ele carrega na cara, a satisfação. Num canto, Mirtes admira.
Noutro, meu amigo, o filho da Mirtes, o dono da festa, o aniversariante, o Jairzinho, filho de seu Jair de dona Mirtes, está a menos de um passo do choro. Babar já nem consegue mais.
Os amigos (com um quê de corte, de fãs) espalham-se pelas cadeiras em variáveis níveis de êxtase e entusiasmo.
Os aniversários do Jair são antológicos como as canções da Mirtes. Clássicos de janeiro. As festas no sítio, que amadurece como as antigas árvores espalhadas pelo terreno, juntam uma liga respeitável em volta da piscina, do pebolim, das caipirinhas, do churrasco, do futebol, do vôlei e, sobretudo, de seu Jair e dona Mirtes.
Quando o violão lança os acordes de uma canção, Mirtes ergue o microfone e prepara o gesto, que vem sempre afiado, econômico, digno de diva de cabaré cinematográfico. A letra da canção vai se estendendo sobre a mesa, como confissão de amante, dessas de encerrar caso ou fechar conta pra começar tudo de novo.
A voz começa pequena, parece que vai ficar no sussurro, aí, de repente, sobe, encara um agudo, ou uma emoção mais descabelada, com elegância, comedimento e uma limpeza que, por misericórdia, apresenta suas bordas roucas que, então, derrotam qualquer resistência.
Sábado, entre uma e outra canção, Jairzinho completou 48 anos. Jair e Mirtes são casados há 50. Mirtes canta para Jair, olhos nos olhos, uma declaração de amor. Abraço de Jairzinho e Isabela. Ele, enfim, chora – ela fica ali, firmona.
A felicidade, sim, existe. Tem rosto e endereço. E, sim, tem o poder de alastrar, feito a voz de Mirtes que, hoje, sexta-feira, 30 de janeiro, seis dias depois do encontro que tento esboçar nesta tela, completa mais um ano de vida.
Começa nova canção.


criado por ciadaobesidade
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