Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

21.1.09

Cadernos - Última Parte - Pantera Negra

 

Querido paciente, para usar o seu simbolismo, posso afirmar que sempre fui extraordinária com mandalas e, em matéria de raios, sou uma verdadeira deusa da tempestade. Uma Ororo, disse eu, uma das heroínas dos X-men, codinome Tempestade. Digamos assim. A Ororo casou com o Pantera Negra, rei de Wakanda, reino que une o que há de mais arcaico e ancestral com tecnologia pra lá de avançada. Fica lá na África. Quer dizer, na África dos quadrinhos. Eu sempre fui uma deusa. Aí é que está o problema… Parece que pra ficar com uma deusa como qualquer uma de vocês a gente precisa ser um tipo de um Pantera Negra. Parece não: é, é mesmo – se você não for um Pantera Negra, jamais vai chegar no coração da tempestade. Como eu dizia, eu sou uma deusa e, como Panteras Negras sempre estão em falta e é fácil demais, sem querer ofender, topar com uns Adões meia-boca, eu estou, enfim, sozinha. Não, doutora, você não está. Doutora, minha deusa, eu sou o fiel da tua igreja, você não sabe como toda manhã e toda noite oro pra cruzar, se possível no sentido veterinário do termo, com alguém como você. Não, doutora, você jamais estará só pois toda a natureza festeja tua beleza. Mesmo você sendo loira, ainda que loira tingida. O homem precisa desistir de tentar entender a mulher. O homem precisa venerar a mulher. O homem tem o privilégio de amar a mulher como se deve, em cada detalhe, com fúria, paixão, volúpia – e com sossego – e com proteção – e com força. Mas, doutora, demora pra gente percerber isso, às vezes jamais a gente percebe, ou percebe tarde demais, graças a pistas cuidadosamente abandonadas pelo caminho. Eu não sei dizer se fui amada algum dia, embora tenha tido 30 amantes – confesso, esse é o número, exato – e um marido, um advogado, e apesar de advogado até que um bom marido, apesar de eu ser médica um bom marido. Qual sua especialidade, doutora, pois sei que além do PS você deve ter seu consultório, atender particular, fazer uma grana pra manter toda essa harmonia? Meu buraco é mais encima: ginecologista. Eu, que não sou especialista nessas coisas, embora já tenha caído de boca no assunto, garanto pra você que não há nada mais belo do que o sexo de uma mulher, a parte pelo todo – o todo nas partes. Doutora, eu também tenho consultório, doutora, sou psicólgo, psicólogo barato, doutora, talvez essa hemorróida seja de ficar tanto tempo sentado ouvindo a desgraça alheia com o cu na mão. Doutora, eu sou um analista junguiano, eu passei a vida estudando mandalas, pra um dia encontrar um tipo muito especial de mandalas nas agendas da minha esposa! Doutora, o Jung era um mulherengo muito do filho da puta. E você, como seu mentor, também não teve amantes? Mas não deixei traço em caderneta alguma! O típico sedutor! Doutora, será que um dia eu serei capaz de amar uma mulher, doutora, como já disse, eu acredito no amor e, se a doença pode ser mesmo uma metáfora, doutora, esse cu em brasa, doutora, o que retrata? Os homens entra e saem da nossa vida sem a menor cerimônia, geralmente após uma foda, seja ela das boas ou não. Os que permanecem não sabem muito bem porque ficaram lá, a não ser os românticos, os idealistas, os crentes e, pelo visto, os psicólogos junguianos – mas eu sou uma médica e você há de convir que médicos entendem muito pouco de psicologia. Doutora, nós já somos íntimos, você conhece certos ângulos meus que nem com anos de análise eu vislumbrei, acho, portanto, que nós temos futuro. Talvez. Uma amiga, se é que você me entende, quando era quase criança, ela passava mel na xoxota e dava pro cachorro lamber; uma amiga, na infância, se é que você me entende, um tio vinha e, enquanto ela assistia Silvio Santos, o tio vinha e se masturbava; uma amiga, uma amiga, na primeira transa, quando perdeu a virgindade com o namoradinho de anos, pegou um tremendo condiloma; uma amiga, se é que você me entende, sempre foi muito  resolvida, tinha ondas de amantes, cujos encontros registrava em garatujas quase místicas em carradas de cadernos; uma amiga namorava um cara maravilhoso mas que só engatava depois de dois tecos; uma amiga ficava com dois caras no mesmo dia; uma só teve um carinha na vida e casou com ele e nunca se queixou, enquanto outra ficou 20 anos nessa vida pra enfim largar tudo e, depois de meia dúzia de trepadas, fechar definitivamente pra balançao; uma amiga foi casada 50 anos e, mesmo muito doente, nunca deixou de ter seu homem do seu lado. Sei lá. Tudo isso não forma o menor sentido. Eu queria amar de uma maneira livre, como um Don Juan, como Casanova, como um hippie dos anos 60. Mas eu queria amar sem virar pedra, sem ficar broxa, sem estacionar no tempo. Eu estou aqui, doutora, abrindo minha alma como, agora pouco, você abriu a minha bunda! Depois que minha ex foi embora passei a comer e a beber demais e engordei um pouco e, cerejinha no bolo, agora me vem essa chaga no cu. Tudo isso, na melhor das hipóteses, com generosidade, forma uma estranha mandala suspensa no meio do abismo. Como um tapete mágico. Como uma pausa entre duas notas agudas. Como a expectativa do beijo. Como, segundos antes do gozo, como a vibração de um cu. Ou de dois. Dois suculentos cus na beira do gozo, enquanto pau e buça se engalfinham. Sem sombra de dúvidas, Deus é um grande gozador. O maior deles. Somos todos personagens dessa comédia erótica universal. A gente devia agradecer todo dia por isso? A gente devia gozar cada segundo com tesão, em brasa? Vida é amor à primeira vista. Essa é a derradeira confissão, rabiscada no miolo do caderno secreto de um ex-sedutor. Eu te amo. Eu te amo. Até o fim dessa e de todas as outras vidas e, principalmente, depois que acabar o seu plantão, você despir o jaleco e a gente levar transferência e contratransferência até os píncaros do absurdo. Amém.

 

FIM

 

criado por ciadaobesidade    8:08 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por guilherme — 22.1.09 @ 23:20

    Belo texto,que 2009 as distancias entre Brasil e Portugal fiquem próximas rs
    bjs
    gui

  2. Comentário por Ju — 29.1.09 @ 19:21

    Sensual, cômico e bem articulado. O texto está ótimo!

    bjs
    Julia

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