20.1.09
Parte 8 : Mandala
Depois peguei outro. Eram diários. Agendas. Lá ela anotou, dia-a-dia, sua vida dos 18 aos 40 anos. Eu comecei a tremer. Eu. Eu não conseguia deixar de lado a leitura. Eu. Logo corri pra época em que a gente se conheceu. Estava lá: “ontem o amigo da Laurinha me ligou.” O amigo da Laurinha era eu. Aliás, eu continuo amigo da Laurinha. Depois: “Café. Chapado. Ele me deu um bombom.” Sonho de Valsa. “Festa na casa da Laurinha.” Aí, um símbolo estranho, uma espécie de pequena mandala. Dois dias depois, nova saída de noite, mais uma mandala. Nas noites seguintes, meu nome e outras mandalas, agora com riscos, como raios, rasgando-as. Eu parei um segundo a leitura. Voltei várias páginas, quando a gente não se conhecia. “Jantar com Rogério.” Mandala. “Cinema com Otávio”, Mandala. Mandala. Mandala riscada. “Isaísas”Mandala riscada. Sandoval, riscada. Meu Deus! Então entrei eu, acho que literalmente, riscando e rabiscando tudo. E aquilo durou, modéstia a parte, durou anos. Intermináveis mandalas, quase todas riscadas. E veio casamento, vieram os filhos, as mudanças, as nossas mudanças… E as mandalas começaram a rarear, os raios passaram a ser pra lá de esparsos. Mandala, José. O quê? Li de novo. Mandala. José. Almoço com marido e filhos, escola, inglês, José, Mandala. Mandala riscada. Meu… Deus! Uma terça-feira, meu Deus, ela tinha inglês terça e quinta… E estava lá, de novo, almoço, escola, inglês, José, Mandala, Mandala, Mandala, todas riscadas. Riscadas! O traço da caneta, vê se me entende, o traço foi ficando mais grosso, como se ela fizesse e refizesse o desenho, várias vezes. Na outra terça, mandala com José, mais jantar em casa, o filme da glogo, mandala riscada! Eu, eu, eu comecei a chorar. Eu chorei muito. Eu. Derramei uma lágrima gorda sobre uma mandala. Aquela era minha ou do José? Douglas? Uma mandala pro Douglas, numa quarta, depois de dar uma aula? Então comecei a correr as páginas e encontrei uma verdadeira espiral de amantes, se intercalando ou se sucedendo, como espirais, como ondas, e, no final da noite, depois da novela e do jornal da Globo, o ponto final de muitas noites era nossa própria mandala. É. Lembro bem que nessa época a gente tinha voltado mesmo a realizar mandalas. E me deu uma vontade louca de mandá-la pra puta qui pariu, mas acontece que ela já fora e, pelo jeito, fora tarde. Muito tarde. Talvez eu devesse ser mais moderninho. Talvez todo aquele meu esforço, naquela época, pra melhorar, fosse no fundo mesmo muito ridículo, mas naquela época, parecia fazer sentido, parecia preencher cada silêncio dela, pois naquela época eu fiz dieta, eu comprei cuecas novas, eu li a revista Nova, eu aparei as unhas e as sobrancelhas, eu mudei o corte do cabelo, eu me perdia nas preliminares, eu fiz juras de amor, eu comprei um pacote pra Buenos Aires, eu, eu, eu… Então as mandalas foram rareando, todas as mandalas foram rareando, assim como as notas foram ficando cada vez mais taquigráficas, até que encontrei duas agendas recheadas quase que inteiramente de silêncios, ou de anotações básicas como “levei crianças na escola”, “peguei crianças na escola”, “fui dar aulas na faculdade”, “peguei o metrô”… Claro que ainda havia a hipótese de que ela tivesse, nesse tempo, criado, digamos assim, a agenda da agenda, um caderno muito secreto para uma eventual nova vida também secreta, mas o mais provável é que a vida dela, sua vida interior, estivesse, naquele ponto, igualmente secreta pra ela, talvez até mesmo inacessível, até que as anotações cessam totalmente, os cadernos acabam com datas de dois anos atrás e… Bem, não aparece mais nada. Há seis meses, enfim, nos separamos. Desde então não me dedico mais à arte arquetípica das mandalas, se bem que minha última descoberta na matéria tenha sido justamente uma nova mandala anal, como a senhora doutora a pouco acabou de constatar. Talvez eu esteja alcançando meu self.
(Continua…)


criado por ciadaobesidade
10:47 — Arquivado em: