15.1.09
Os cadernos… Parte 4: Kama Sutra
Fez-se o silêncio. Eu tentei a conciliação: acho que fechamos o ciclo. É. Que cu. Você diz isso porque não viu o seu. É. Preferia ver o da doutora. Você é um cafajeste. Infame, vil, canalha – sou tudo isso, de acordo com algumas mulheres. À propósito, mulheres têm, sim, hemorróidas. Eu mesma já tive. Teve? Tive. Aí passou. Passou. Tudo passa – e se não passa a gente corta fora. Não quero cortar fora um pedaço do meu cu. Ninguém quer. Tem gente que quer cortar pedaços de tantas coisas. Eu não. Acho que já cortei pedaço demais ao longo dessa existência, acho que já tomei demais… No cu. É. Literalmente. Um dia, dá hemorróidas. A vida é um cu. Um amigo meu diz que adora chupar um cu bem limpinho. Um amigo seu? Um amigo meu – e não que eu adore, ou faça questão, mas reconheço que até que é gostoso. Credo. Comer um cu já é outra coisa. Nunca comi um cu. Já deu? Eu tenho outros pacientes pra atender. Já deu. Então sabe. Dói. A sodomia é uma tradiçã milenar. Não sou muito tradicional. Gostaria de almoçar comigo, pode escolher, tirando comida baiana e mexicana, por causa da pimenta. A sua atitude é completamente incompatível. E quem aqui pretende ser compatível? Eu pretendo ser compatível, completamente compatível. Lebre com corça, touro com égua, cavalo com elefanta - isso é que é compatibilidade. Agora você vai entrar na seara da zoofilia. Não: são os textos sagrados, lá do Kama Sutra, indicam que há três tipos de pênis, Lebre, Touro e Cavalo; e três tipos de yonis. Yonis? Vaginas: corça, égua e elefanta – os pares ideais são corça com lebre, égua com touro, elefanta com cavalo – isso é que ser compatível, se é que você me entende – o auge da compatibilidade, digamos assim, ou preciso ser mais claro? Como a maioria dos homens, você está sendo óbvio. Segundo os textos medievais, lebre e corça medem seis dedos; touro e égua, nove; cavalo e elefanta, 12. Mas dedos seus ou dedos meus? Os seus, doce doutora, são finos e alongados, dedos de cirurgiã, de especialista – mas segundo os textos medievais cada dedo tem largura correspondente a dois centímetros – é só fazer as contas. Caralho! Exatamente. A vagina é elástica. As conjunções extremas raramente satisfazem, segundo os textos medievais. Elefanta? Com lebre. Corça… E cavalo! Para os pares restantes, num total de seis graus de relativa adequação, a compatibilidade depende de temperamento e perícia. Homens são peritos em abrir potes de palmito, para o resto existem os vibradores. Três são os temperamentos sexuais: ardoroso, moderado, frio. Um homem de natureza fria pouco desejo tem – o sêmem – e não sou eu quem diz, mas os textos medievais – esguicha sem vigor, e ele evita unhas e dentes da amada. Homens ardentes não escondem o desejo. E os moderados? Mantem o desejo sob controle. Aliás, para cada homem há o equivalente feminino, acrescentando às conjunções físicas nove possíveis relações de temperamento, sacou? Ô. A doutora, por exemplo, em qual categoria se enquadra? Acho esses textos medievais muito duros, foram certamente escritos por homens. A perícia do amante, diga-se de passagem, se avalia na medida em que sabe proooooolongar o prazer do amor. Entendo. Amantes podem ser peritos, adequados e inábeis – o que aumenta em mais nove as possíveis relações. Homens e mulheres são muito diferentes. Vatsyayana, suposto autor do Kama Sutra, concorda com a doutora – e também aceita que, por costume, homens dominam e mulheres são dominadas, embora não tarde em emendar: a natureza do homem é apregoar “estou fazendo amor!”, enquanto a mulher arrulha: “este homem me faz amor!”, mas o prazer, quando chega, não sabe mais quem é quem, quem é homem, quem é mulher. Traduzindo: ele pode dizer “vou te foder todinha” enquanto ela geme “me fode”, mas na hora do vamos ver o que importa mesmo é a foda – o resto que se foda! Carneiros se chocam, galos se agridem, lutadores se engalfinham – e o choque entre eles se distribui – e assim também é quando homem e mulher se amam. Não adianta alegar que carneiros são carneiros – e lutadores, lutadores – mas homens não são mulherees. Homem e mulher são o mesmo nervo, o mesmo sangue, o mesmo músculo, tudo osso, tendão e alma. O mesmo ramerrão. A mesma lama. Lingam e shakti – pênis e vagina – são feitos um para o outro, se unem pelo ardor do desejo. E para que você decline de vez de pensar que nosso autor lá da Índia é um chauvinista ocidental contemporâneo como eu, ele ainda arremata: toda mulher a alegria do orgasmo deve conhecer – assim como todo homem deve aprender as artes do amor. O beijo. A carícia. As posições. Os jogos dos dentes e das unhas. O prazer da amante antes do seu. Ufa! Viva o BRIC!
(Continua…)


criado por ciadaobesidade
9:07 — Arquivado em: