Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

12.1.09

Diários secretos de um sedutor - parte 2

 

(Gostei da sugestão do Guilherme (não sei se foi por acaso, mas saiu em e-mail dele) de mudar o título do texto para Diários Secretos de um sedutor.  Agora, segue a segunda parte…)

 

Diários - parte 2

 

Você come pimenta? Não, não como. Pelo menos nos próximos dias você não vai comer pimenta. Acabei de ganhar de um cliente um pote de pimenta de bico! Nem vai chegar perto. É, tá certo, quem tá fazendo bico é meu ânus. É por aí. Mas me disseram uma vez que pimenta faz bem pra hemorróidas, principalmente a dedo de moça. Por enquanto, nada de dedo de moça - nenhum dedo de moça. Certo, certo. Tome cuidado com gorduras e evite frituras. Estou mesmo precisando. Eu posso jogar bola com os amigos, tem jogo hoje… (eu precisava enfatizar minha virilidade). Não, durante uns dias, não. Qualquer esforço, contrações excessivas, força demais, entende, vão piorar o quadro e, aí, você pode até precisar operar. Operar? Detesto hospitais e procedimentos médicos – excluindo você e seus procedimentos, certamente -  e pensar em. Calma. Tome o antiinflamatório. Cinco dias. Mesmo se melhorar. E passe a pomada. Tem corticóide. Ah… E faça banhos de assento. Banhos de… Assento. Você pega uma banheirinha (onde eu vou arranjar uma banheirinha), põe água morna e fica sentadinho nela uns dez minutos, umas duas ou três vezes por dia, alivia que é uma beleza. Evidentemente. E, se não melhorar, volte. Em que dias você  dá plantão? Ela soltou uma gargalhada rouca que atenuou meu estado de plena humilhação. Adoro mulheres que riem. Quando consigo fazer uma mulher rir, me considero um homem feliz. Trepar com uma mulher é muito fácil. Fazer uma mulher rir… Uma vez, na terapia, eu estava muito mal, muito mal, comecei a contar lá uns dramas da minha vida,  tudo num tom de blague, afinal ela, a terapeuta, ela era linda, e, então, de repente, ela riu, ela soltou uma tremenda gargalhada. Eu, na poltrona em frente, soltei um sorriso enigmático e experimentei a cura. Claro que o sentimento pouco depois me abandonou, mas, durante aqueles segundos, ele esteve lá, sim senhor, como estava agora, no consultório do hospital da zona sul, onde o destino me conduzira após uma noite de suplícios vendo tudo quanto é droga na tv porque o sono desaparecera, eu cheguei cedo no hospital, peguei a senha eletrônica, esperei lendo uma revista mulambenta, fui chamado ao guichê três, onde a mocinha, após conferir a carteirinha do convênio e minha identidade, perguntou o que eu sentia e eu, entre os pacientes do guichê dois e quatro, num tom audível, embora baixo, disse, em tom doutoral e blasé, com palavras cuidadosamente escolhidas, “acho que é uma crise de hemorróidas”, e a mocinha, sem tirar os olhos da tela do computador, repetiu em alto e bom tom,“hemorróidas”, “o senhor pode sentar e esperar o chamado pela mesma senha”. Sentei como pude. Alguns minutos depois meu número apareceu numa tela pregada na parede e as portas do abulatório se abriram. Levantei e vi, naquele vão, segurando certamente minha ficha, vi a deusa. Com passos evidentemente lentos, avancei.

criado por ciadaobesidade    9:37 — Arquivado em: Sem categoria

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