4.1.09
Olá, 2009!
Olá.
Bom voltar a escrever.
Esses 20 e poucos dias fora não estavam programados. Primeiro o Terra andou mexendo no blog e eu nem conseguia entrar na página. Aà deu um bode. Juntou com fim de ano e fiquei desplugado.
Aos poucos, com moderação, os posts voltarão.
Agradeço a todos que pediram novas mensagens. Em especial, minha tia Célia.
Que 2009 seja um ano maravilhoso para todos nós.
Lembro que, de 20 a 23 de janeiro, darei curso de férias na ESPM (SP), SOLTE O VERBO, sobre escrita e oratória. Quem quiser brincar com palavras é benvindo.
Em dezembro, além do texto Francisco de SP, que quem aparece por aqui acompanhou, desenvolvi, a pedido do meu querido irmão Guilherme Freitas, texto que será plataforma para sua primeira montagem solo portuguesa. O tÃtulo de trabalho é CADERNOS SECRETOS DE UM SEDUTOR.
Começo publicando um trecho pra vocês. Aos poucos, como em nova novelinha, vou colocando outras partes (se bem que esse negócio de colocar partes nunca dá muito certo).
Bem.
Felicidades.
Beijos.
Fiquem com as primeiras páginas dos cadernos.
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Cadernos Secretos de Um Sedutor
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Linda. Loira de cinema. Caracóis caindo nos ombros. Olhos verdes, levemente delineados. O batom de um vermelho opaco, sutil, por onde, em flashes, passava um sorriso de dentes irritantemente perfeitos. Argolas douradas nas orelhinhas. Rosto de quem dorme bastante, ou de quem prefere dormir a se acabar nas baladas, ou perder as noites emendando filmes na TV, de sorte que a pele era puro pêssego, embora, comentendo uma indiscrição, apenas aqui entre nós, na intimidade, possa revelar que ela já passara dos 30. Não passara demais, nem mesmo muito, digamos que cruzara aquela esquina há pouco, e a cruzara sem percalços, fazendo muita ginástica, puxando um pouco de peso, temperando com ioga, o que lhe conferia curvas delicadas, magnéticas, daquelas de MonteCarlo, que James Bond percorre virilmente com seus Astons extraordinários, sempre pronto para enfrentar qualquer catástrofe. Essa era ela, com o barulhinho dos scapins sobre o piso frio. Um jeans de griffe, um decote meticuloso balançando na blusa, e a graça mÃtica do jaleco. Sim, o jaleco. O jaleco branco até o meio da coxa. A manga que se estendia justa para deixar passar a mão firme, desenhada por um Michelangelo, com unhas igualmente vermelhas foscas e alguns anéis igualmente de ouro. Uma mulher de ouro, que merece ouro, tiaras e colares e pulseiras de ouro, faiscando sobre almofadas vermelhas enquanto praticássemos as sessenta e poucas posições do kama sutra, adiando o êxtase definitivo. E quando ela dizia o meu nome, entreabrindo a carne dos lábios, batendo a lÃngua no palato e nos tais dentes perfeitos, e aquela voz rouca, melhor dizendo, levemente rouca, quase sussurrava meu nome. Meu deus. Minha deusa. Minha deusa de jaleco, para fantasias da adolescência à melhor idade, para filmes pornôs e enfermarias da mais tenra infância, para tratar de amidalites. E então ela, por exemplo, soltava um suspiro e franzia, de modo quase indelével, a testa e sob a camada fina de maquiagem não havia como negar a ruguinha, que tornava o conjunto verossÃmel – dado impacto de tamanha beleza. Pois bem. Disse ela. Então disse meu nome. Eu. Você. Disse ela. Como você se sente. Bem. Eu me sinto bem. No geral, muito bem. Agora, especialmente, muito bem. Tirando um detalhe. Um detalhe? Eu adoro detalhes, mesmo os que, como o detalhe do qual falamos, me incomoda, porque os detalhes propiciam encontros e, enfim, sempre fazem a diferença. Então. Começou com uma dor assim, uma dor, e então uma ardência e, então, bem, então. Ela me cortou: hemorróidas. É. Acho que hemorróidas, uma crise, digamos. O senhor. Pode continuar me chamando de você. Você tem hemorróidas. Nunca tive, acho que agora tenho, estou com, talvez. Vamos dar uma olhada. Vamos, quer dizer, a senhora… Pode continuar chamando de você. Você vai. Vou pegar umas luvas e já volto. Você me orienta, por favor, eu. Você vai até a cama e deita. Deito. Isso. De bruços? Como no ginecologista? De lado. Você deita de lado, olhando pra parede. Entendo. Não precisa tirar a calça. Não? Abaixe as calças até o joelho. Certo. Já volto. Tá bom. Enquanto a deusa saiu eu me aproximei da maca encostada na parede, soltei o botão da calça, o cinto, baixei a cueca – nova, limpinha, escolhida a dedo, e preta – e deitei-me como ela mandara. A porta se abriu. Eu olhava a parede. Imagine só o que é que ela olhava. Gentilmente, ela se aproximou e tocou minhas nádegas com aqueles dedos enluvados. Então, separou-as gentilmente e olhou. Realmente, você tem hemorróidas. A região está com um edema, por isso incomoda. Você tem dificuldades para defecar? Não. Esse problema à s vezes causa esse tipo de dificuldade e quem já é ressecado. Nunca fui ressecado. Às vezes pode ocorrer sangramento. Entendo. Vou passar um antiinflamatório e uma pomada para uso local, depois você marca um proctologista. Foi uma emergência, por isso procurei o PS, eu quase já não conseguia andar, não ia marcar um procto pra daqui um mês. Sem condições. Posso vestir a calça? Por favor. Ela tirou as mãos da minha cintura, onde estavam pousadas durante os últimos minutos da conversa tão Ãntima, eu dei um giro rápido na cama e, enquanto ela dava dois passos para trás, subi as calças. Sente-se, ela disse. Fazer o quê? Sentei como pude, disfarçando o desconforto e cruzando as pernas. Com delicadeza e uma letra infantil, ela escreveu a receita. Enquanto isso, eu pensava em alguma coisa inteligente pra dizer, alguma confissão estúpida, tipo: nossa, um encontro com uma médica como você é a fantasia de dez entre dez marmanjos do universo e, quando o bilhete da loteria é premiado, olha só o que tenho pra mostrar pra você… Não. Péssimo. Pavoroso. O que será que pode ter causado as tais hemorróidas? DifÃcil dizer – ela lançou um olhar de soslaio, levantando uma das sobrancelhas desenhadas. Aqui só sai, pensei eu, o que será que ela está insinuando. Ou, pensando melhor, aqui quase só sai, porque, de vez em quando, muito de vez em quando, aceito um fio terra se a parceira assim o exigir, aliás ela tinha cara de que gostava de um fio terra, gostava de fazer e de levar, provavelmente, eu, ao menos, gostaria de fazer um fio terra com ela, não agora, não nos próximos dias, nas próximas semanas, meses ou anos, mas enquanto isso poderÃamos estudar os estatutos do kama sutra. Como disse, vários podem ser os motivos, disse ela. Meu pai tinha hemorróidas. Não, não é genético. Pode ser a idade? Jovens também têm. Confesso que o comentário acabou comigo, que mal entrei na meia idade. Estou cansada de ver no consultório. E eu que pensei que fosse o único.


criado por ciadaobesidade
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