9.12.08
Aí eu mergulhei nas águas tuas,
Meu velho Chico,
Como se voltasse pra barriga da mãe,
Paz almejada.
Silêncio das águas.
A redenção me vara.
Eu, Francisco, no berço do velho Chico,
Com a alma clara.
Então fiquei aqui.
Moro nessa toca.
Escrevo em folha morta com caco de pedra
Enquanto a vidra medra.
Quanto tempo faz, velho Chico?
Espelho dessa dádiva.
Areia tisnada.
A vida é um leito, uma trajetória, um fluir entre as margens?
Depois o esquecimento
Do agora.
FIM
E cantava:
Louvado, senhor, louvado
Com todas tuas criaturas
Irmão sol que clareia o dia
Irmã lua no céu estrelado
Louvado, senhor, louvado
Irmão ar sereno ou irado
Irmã água nas grotas e grutas
Irmão fogo que alumia
Louvado, senhor, louvado
Irmã terra que nos sustenta
Com frutos, flores e ervas
Quando chove e quando venta
Louvado, senhor, louvado
Irmão que perdoa por amor
E aquele, por outro lado,
Que suporta tanta dor
O que mesmo aí tem paz
Será por ti coroado
Louvado, senhor, louvado
Irmã morte que nos parte
Conforme tua vontade
Sirvo a ti com humildade
Senhor, louvado senhor,
Esta é a tua arte:
Amar além do amor
(Continua…)
Irmã Clara.
Aí, numa manhã, veio a primeira chaga.
Um talho no peito de cada pé.
Aquilo sangrava.
Aí veio mais chaga.
No meio das mãos um chico jorrava.
Aí comecei a vomitar palavras em línguas de outrora.
E ao redor de minha testa, outros talhos, tiara.
Como se a coroa do rei ali houvesse estado.
Como se eu fosse um escravo crivado.
Então eu dancei.
Palhaço de Deus, enlevado.
(Continua…)