Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

7.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Cap.9 - A Fuga)

 

Baixou polícia e me levou. Dá delegacia fui parar na clínica onde me internaram. Eu e um monte de drogado e maluco. Fui calando a boca, num canto, futucando reboco, na minha. Aí foram me largando e eu fui fazendo o jogo deles. E pra tudo sorria. Sorria. E fui ajudar na enfermaria. E tratei dos enfermos. E fiquei amigo dos amigos na mesma. E eu lavava ferimento. E eu conversava. Levava a palavra. Senhor, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado. Eu lambi ferida. Eu comi ramela. Eu sempre sorria. Eu também cantava. Senhor, fazei que eu procure mais. E um dia, um domingo, de festa, famílias, amigos, um dia, sem que percebessem, eu fugi. Eu roubei trocados e fugi. Fui pra rodoviária. Tomei um busão. Minas. Aqui eu sumi. Aqui mergulhei no esquecimento. Ninguém me achou. Jamais. Fui me imiscuindo. Trabalhei nas obras. Nas comunidades. Uma vida clara. Voltei a fazer festa. Fui do Moçambique e Congada. Capitão da festa, com a farda branca, imaculada. Conheci um Chico, vidente, cavalo. Recebia espírito e me disse, um dia, que eu me lavasse na nascente do rio São Francisco, ganhando a graça de Clara.

 

 

 

criado por ciadaobesidade    20:49 — Arquivado em: Sem categoria

Franciso de SP (Folhetim - Capítulo 8 - Acordei!)

 

Acordei em casa, na cama, com febre.
Alta.
Falta.
De ar.
Clara.
A dor não sara.
Não saía mais de casa, pouco da cama. Só tomava sopa rala. Mal chegava na sala. Eu fui perdendo tônus, musculatura.
Tomei tanto antidepressivo. Parei. Deu rebote. Cortei os pulsos. Parei de novo no hospital. Tentei um pico. Bobagem. Falaram dum templo no centro, duma Igreja de crente. Bobagem.
Veio um padre italiano, amigo da família.
Gostei do velho.
Contei pra ele minha história. A história de Francisco e de Clara.
E ri.
Ele voltou no dia seguinte com um livro grosso com a história, as rezas, os cantos de São Francisco.
Me confessei com o padre, que perdoou meus pecados.
Tomei metrô e desci na Paulista. Na esquina com a Augusta, no meio da rua, esperei abrir o farol e deitei na pista. Tudo parou. Aí me ergui e fui tirando a roupa. Minha calça diesel, minha camisa cara, meu sapato, a meia, a cueca, fui ficando nu.
Fiquei.
Peladão.
Lá.
Ria.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    8:13 — Arquivado em: Sem categoria

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