5.12.08
A gente saía. Clara e eu. Todas as noites pra balada.
Uma noite, deixamos o hyundai com o valet e fomos beber, felizes da vida, naquele boteco da Vila.
Mas na saída apareceram um malacas e puxaram uns berros e domaram o valet, a rua já tava vazia.
Eu disse calma, calma, não precisa disso.
Saltei sobre o primeiro, que nem Chuck Norris, que nem Jason Borne. Outro atirou. Não deu tempo de correr pro blindado. Eu tava sem arma. Mas só no armlock quebrei o pescoço do primeiro cara e sartei sobre o segundo, que disparava. O terceiro também, uma 765, na manha.
Nem senti os tiros.
Clara ali desmontada. Um rio de sangue. Um cara fugiu com o carro.
Corpos na calçada.
(Continua…)
Ele comia a mulher de todo mundo. Eu apresentei minha mulher pra ele. Ele comeu minha mulher. Fez mais. Mandou minha mulher não dar mais pra mim. Eu fiquei muito apurado e fui pedir conselhos pra ele. Minha mulher não dá mais pra mim, você que come a mulher de todo mundo, você é o cara que pode me ajudar. Ele abriu um sorriso de santo e mudou de assunto. Aí eu percebi tudo. Foi só ligar os pontinhos. Mas eu não perguntei nada. Nem pra ele nem pra minha mulher. Passei a dormir no sofá da sala. Mudei meus horários no trabalho. Mal dava “Bom dia!”. Mal respondia um “Tudo bem?”. Comia meu prato quieto. Não repetia nem mistura. Troquei o ônibus pelo metrô. Tirei a foto dela da carteira. Quase não trocava de roupa. Só tomava café em padaria. Um dia não fui pro trabalho. Também não voltei pra casa. Pensei em ir num puteiro, mas nunca tinha ido na vida, nem ia saber o que fazer. Sentei num banco do metrô e rezei um pai nosso e uma avemaria. Sabia que estava morto. Não ressuscitei ao terceiro dia.
Meu pai era um cachorro. Eu não gostava do meu pai. Não era por nada, não. Acho que pouca convivência. Eu não cresci com ele. Cresci com minha mãe. Eles separaram logo cedo. Minha mãe dizia que meu pai era um cachorro. Eu passava alguns fins de semana com meu pai. Ele me deu um cachorrinho. Na verdade foram dois. O primeiro morreu. A gente ia no Shopping e eu via o cachorrinho na Pet Shop, detrás da vitrine, com aqueles olhinhos. Eu sempre queria comprar cachorrinho. Eu queria mesmo um canil. Meu primeiro cachorrinho morreu de cinomose. Na verdade era uma cadela. Depois eu tive um cachorrinho. Meu pai que me deu. Meu pai trabalhava como cachorro. Meu pai não conseguia dormir. Eu ainda não consigo. Meu pai tomava remédios. Dizia que estava deprimido. Eu dizia que estava deprimida. Um dia ele me ofereceu. Antiansiolíticos. Antidepressivos. Um coquetel. Eu dei risada. Eu trabalhei numa ONG. ONG de bichos. De proteção aos bichos. A gente castrava os bichinhos. Tudo limpo, higiênico. A gente tirava dos abrigos e levava pra doação. Hoje eu não trabalho mais. Aquilo me deixava bolada. Os bichinhos abandonados. Eu disse. Eu estava deprimida. Hoje eu não estou mais. Eu aceitei o convite do meu pai. Eu tomava de noite. Pra dormir. Antes de dormir. Eu me olhava no espelho e não gostava. Eu parei de comer. Eu fiz regime com meu pai. Meu pai estava acima do peso. Eu nunca estive. Eu estou bem magrinha. Aí comecei a vomitar. Ou foi depois que eu li uns livros? Ou foi depois que entrei nos sites? Eu não paro com os remédios. Pra não dar rebote. Se dá rebote eu pareço uma zumbi. Hoje estou melhor. Muito melhor. Meu pai era um cachorro. Agora não é mais. Não, ele não morreu. Ele melhorou. Ele largou tudo. Foi morar num sítio. Hoje ele tem um canil.Eu penso um dia em morar com ele.