Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

3.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 2)

 

Vim de outra terra, de outro santo, São Paulo. Andava de carro. Morava em sobrado. Fazia escola. Tinha carteira, cartão, conta de banco. Eu era menino. Agora sou velho, meu velho, meu velho Chico?

Nasci em berço de ouro, como manda o figurino. Pai empresário, loja grã-fina, atendia gente endinheirada, que vinha de longe, buscar as calças, calcinhas, sutiãs e vestidos. Roupa estrangeira. Coisa de grife.

 
Eu era rico. Filho de rico. Portanto, rico. Tomei todinho. Tive babá. Cresci rapidinho. Era um atleta, bonito. Gostava de jiu-jitsu. Gostava mesmo é de porrada. E era bom nisso. De dia, de roupa da Diesel. De tarde, lance no tatame. Entrar no braço. E me cultivava. Malhava muito e além do ferro mandava umas bombas pra definir.

Eu batia forte. Eu também levava. Mas eu mais batia. Gostava de ver sofrimento no olho alheio. Batia feio. Bonito. Fui campeão. Colecionei medalha. Menino de ouro. Berço de ouro. Relógio de ouro. Corrente de ouro.

Ia pras baladas. Lá me esbaldava. Dançava a noite toda, movido a uísque e comprimido.

Eu fazia plano. Morar nos Estados Unidos, ir de tatame em tatame, me derramando. Meu velho Chico, eu, um jovem Chico, que meu nome é Chico, é Chico, nome que me deu meu pai, devoto de santo, lá de São Francisco, aquele santinho de Assis, aquele santinho magrinho, aquele santinho bonzinho, dele veio meu nome.

 
Entrei na faculdade. Adivinha? São Francisco. Fui fazer direito, lá em São Paulo. Centro de São Paulo. Perto da praça da Sé, aquela zona. Eu estudava paca. Mas tirava onda. Meu lance era balada. Depois, o pai descolava estágio em escritório de amigo e a coisa era dada. Aí, negócio era depois do diploma prestar concurso e virar juiz. O montar filial da loja do pai.

Falar das minas. Quantas eram elas. Elas eram muitas. De todos os tipos. De todos os cantos. Loiras, morenas, ruivinhas até nos pentelhos, de toda praia e de toda quadra.

 

E fui assim, de cama em cama.

 

Até cruzar com Clara.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    13:19 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP (Folhetim-Capítulo 1)

Velho Chico, diz há quanto tempo, há quanto tempo, há quanto tempo estou aqui. Foi numa manhã de verão que cheguei, céu um azul rasgado que se debruçava sobre a rocha e beijava lagarto? Foi numa tarde de outono, vento leve aqui no lombo? Foi numa noite de inverno, embrulhado nas estrelas, lua gorda, lá em cima, a pino? Ou foi bem no meio da madrugada duma primavera e eu cheguei com os brotos, esparsos, nas grotas?

Velho Chico, sou capitão de Moçambique? É o que me diz essa minha farda, esse terno branco? Onde andará meu Rei, Velho Chico, cadê minha rainha? Sou capitão de Moçambique, fui negro do Congo, de onde vim, meu Chico? Lusco-fusco aqui na mente, no meio da testa, aqui dentro, umas imagens. Uma senzala. Pelourinho. Chibata. Mas pode ser chiste, deveras. Mais nada. Pode ser nada. Ser nada.
Vai ver é o que é.

Velho Chico, daqui do topo da Canastra miro tua nascente. É nela que me banho, faço libação, bebo soro e pego molho da janta. Lá vou eu de novo mergulhar nas tuas águas. Mãos que me abraçam. Pés que me carinham. Boca que me beija. Teus olhos, rebrilho em que me miro, miração sagrada.

Velho Chico, nem lembro porque vim. Agora, talvez, talvez comece a lembrar de onde vim e nem sei se é o caso de voltar ao assunto que talvez já seja tema defunto e enterrado num canto do pedrario, cobri com terra, com as mãos, olha essas unhas lascadas.

Vamos ao caso.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    7:04 — Arquivado em: Sem categoria

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