Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

2.12.08

Prison Break

 

Numa mão ela carregava o guia de lançamentos de um grande jornal. A outra ela apoiou na borda da banca. “Já chegou esse aqui?” O vendedor franzia os olhos sobre a página e tentava identificar o filme pela capa. “Ainda não. Amanhã. Hoje chegou esse outro.” Apontou para outra imagem no pé da página, também marcada por um círculo perfeito de bic preta. “Pode pegar. O crítico disse que é ótimo.” O vendedor acrescentou o título à pilha. “Quantos já têm?” Ele contou com dedos ágeis. “Oito. Leva mais dois, dou outros dois de presente.” Ela olhou para as várias fileiras de DVDs dispostas por gênero. Da esquerda para a direita, infantis, musicais, pornôs, lançamentos, uma miscelânea de clássicos, filmes antigos, brasileiros, religiosos, coleções e séries, uma última coluna com jogos para computador. Mirou mais uma vez o display, ao fundo do carrinho-banca, que exibia as pérolas daquela semana. Tropical Thunder. Batman. Os últimos do Nicolas Cage e do Van Damme, Agente 86, um pacote com a última temporada de Prison Break. Visitava pelos menos duas vezes por semana seu fornecedor, sempre com os mais recentes guias de jornais e revistas. Conseguia grandes descontos. E assim formou uma senhora filmoteca no seu apartamento na Saúde, DVDs que acondicionava em caixas de sapato, todos de pé, ficava fácil de consultar. Já tinha 10 caixas com todo tipo de filme. Uma, a dos mais queridos, jamais saía do lado do aparelho de DVD, dividindo espaço com a caixa dos filmes da semana. As outras, guardava no quartinho de empregada, numa parte do armário embutido. Todas as tardes tinha programa. Fazia pipoca no micro, acariciava sua gata, se sentava no canto esquerdo do sofá, como fazia desde, como costumava dizer, “priscas eras”, quando a seu lado sentavam-se o companheiro, os filhos ou os netos. Naquele fim de tarde, escolhendo DVDs, sorriu para o vendedor e aceitou a proposta. O rapaz já dividia o bolo de filmes em dois pequenos sacos plásticos amarelos quando ela, com dedos longos e leves e unhas perfeitas, acrescentou ao pacote um filme de Regininha Poltergeist e outro da Leila Lopes. O rapaz trocou os amarelos por sacos pretos e ainda acrescentou, como bônus, uma cópia excelente de Mamma Mia e outra de Chega de Saudade. Sua melhor cliente pagou e desapareceu na multidão que mergulhava na boca do metrô.

 

criado por ciadaobesidade    8:37 — Arquivado em: Sem categoria

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