Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

9.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 13 -Mergulho)

 

Aí eu mergulhei nas águas tuas,
Meu velho Chico,
Como se voltasse pra barriga da mãe,
Paz almejada.
Silêncio das águas.
A redenção me vara.
Eu, Francisco, no berço do velho Chico,
Com a alma clara.
Então fiquei aqui.
Moro nessa toca.
Escrevo em folha morta com caco de pedra
Enquanto a vidra medra.
Quanto tempo faz, velho Chico?
Espelho dessa dádiva.
Areia tisnada.
A vida é um leito, uma trajetória, um fluir entre as margens?
Depois o esquecimento
Do agora.

 

FIM

criado por ciadaobesidade    19:37 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 12-Cântico)

 

E cantava:

Louvado, senhor, louvado
Com todas tuas criaturas
Irmão sol que clareia o dia
Irmã lua no céu estrelado
Louvado, senhor, louvado
Irmão ar sereno ou irado
Irmã água nas grotas e grutas
Irmão fogo que alumia
Louvado, senhor, louvado
Irmã terra que nos sustenta
Com frutos, flores e ervas
Quando chove e quando venta
Louvado, senhor, louvado
Irmão que perdoa por amor
E aquele, por outro lado,
Que suporta tanta dor
O que mesmo aí tem paz
Será por ti coroado
Louvado, senhor, louvado
Irmã morte que nos parte
Conforme tua vontade
Sirvo a ti com humildade
Senhor, louvado senhor,
Esta é a tua arte:
Amar além do amor

 

(Continua…)

 

criado por ciadaobesidade    7:13 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP - Folhetim - Parte 11 (Carismas)

 

Irmã Clara.
Aí, numa manhã, veio a primeira chaga.
Um talho no peito de cada pé.
Aquilo sangrava.
Aí veio mais chaga.
No meio das mãos um chico jorrava.
Aí comecei a vomitar palavras em línguas de outrora.
E ao redor de minha testa, outros talhos, tiara.
Como se a coroa do rei ali houvesse estado.
Como se eu fosse um escravo crivado.
Então eu dancei.
Palhaço de Deus, enlevado.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    6:53 — Arquivado em: Sem categoria

8.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Cap. 10 - Irmãos)

 

Foi o que eu fiz.
Subi a Canastra.
Rocei nas rochas.
Nas brenhas.
Nos rachos.
E cheguei na beira.
Fui criando crosta.
Quase não comia.
Acompanhava o sono do lagarto.
Quase não dormia.
Virei irmão do pó e da pedra.
Do sol e da lua.
Como no DVD.
Irmã vida, irmã morte.

(Continua…)

 

criado por ciadaobesidade    15:36 — Arquivado em: Sem categoria

7.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Cap.9 - A Fuga)

 

Baixou polícia e me levou. Dá delegacia fui parar na clínica onde me internaram. Eu e um monte de drogado e maluco. Fui calando a boca, num canto, futucando reboco, na minha. Aí foram me largando e eu fui fazendo o jogo deles. E pra tudo sorria. Sorria. E fui ajudar na enfermaria. E tratei dos enfermos. E fiquei amigo dos amigos na mesma. E eu lavava ferimento. E eu conversava. Levava a palavra. Senhor, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado. Eu lambi ferida. Eu comi ramela. Eu sempre sorria. Eu também cantava. Senhor, fazei que eu procure mais. E um dia, um domingo, de festa, famílias, amigos, um dia, sem que percebessem, eu fugi. Eu roubei trocados e fugi. Fui pra rodoviária. Tomei um busão. Minas. Aqui eu sumi. Aqui mergulhei no esquecimento. Ninguém me achou. Jamais. Fui me imiscuindo. Trabalhei nas obras. Nas comunidades. Uma vida clara. Voltei a fazer festa. Fui do Moçambique e Congada. Capitão da festa, com a farda branca, imaculada. Conheci um Chico, vidente, cavalo. Recebia espírito e me disse, um dia, que eu me lavasse na nascente do rio São Francisco, ganhando a graça de Clara.

 

 

 

criado por ciadaobesidade    20:49 — Arquivado em: Sem categoria

Franciso de SP (Folhetim - Capítulo 8 - Acordei!)

 

Acordei em casa, na cama, com febre.
Alta.
Falta.
De ar.
Clara.
A dor não sara.
Não saía mais de casa, pouco da cama. Só tomava sopa rala. Mal chegava na sala. Eu fui perdendo tônus, musculatura.
Tomei tanto antidepressivo. Parei. Deu rebote. Cortei os pulsos. Parei de novo no hospital. Tentei um pico. Bobagem. Falaram dum templo no centro, duma Igreja de crente. Bobagem.
Veio um padre italiano, amigo da família.
Gostei do velho.
Contei pra ele minha história. A história de Francisco e de Clara.
E ri.
Ele voltou no dia seguinte com um livro grosso com a história, as rezas, os cantos de São Francisco.
Me confessei com o padre, que perdoou meus pecados.
Tomei metrô e desci na Paulista. Na esquina com a Augusta, no meio da rua, esperei abrir o farol e deitei na pista. Tudo parou. Aí me ergui e fui tirando a roupa. Minha calça diesel, minha camisa cara, meu sapato, a meia, a cueca, fui ficando nu.
Fiquei.
Peladão.
Lá.
Ria.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    8:13 — Arquivado em: Sem categoria

6.12.08

Francisco de SP (Folhteim - Capítulo 7 - Revolta)

 

Acordei, na UTI, três dias depois, e Clara… E Clara… já tinha sido enterrada.
Porra, puta qui o pariu, caralho!!!!
E os bandidos, porra, e os bandidos?
Você matou dois, na mão, na porrada.
E o terceiro?
Esse fugiu.
Fugiu.
Fugiu.
Fugir.
Fugi. Clara, Clara, Clara cadê você meu amor, tipo, assim, cadê, cadê?
Caralho, Clara.
Chorei ali na cama.
Você escapou por milagre.
Milagre um cu.
Tomou três tiros a queima-roupa. Um foi no peito. Outro na coxa. Outro no pé.
Foda-se.
De 765.
Caguei. Quero Clara.
Clara se foi.
Foda-se. Foda-se.
Apaguei.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    8:11 — Arquivado em: Sem categoria

5.12.08

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 6)

 

A gente saía. Clara e eu. Todas as noites pra balada.

Uma noite, deixamos o hyundai com o valet e fomos beber, felizes da vida, naquele boteco da Vila.

 

Mas na saída apareceram um malacas e puxaram uns berros e domaram o valet, a rua já tava vazia.

Eu disse calma, calma, não precisa disso.

 

Saltei sobre o primeiro, que nem Chuck Norris, que nem Jason Borne. Outro atirou. Não deu tempo de correr pro blindado. Eu tava sem arma. Mas só no armlock quebrei o pescoço do primeiro cara e sartei sobre o segundo, que disparava. O terceiro também, uma 765, na manha.

 

Nem senti os tiros.

 

Clara ali desmontada. Um rio de sangue. Um cara fugiu com o carro.

 
Corpos na calçada.

 

(Continua…)

criado por ciadaobesidade    22:19 — Arquivado em: Sem categoria

Pausa 3 - O terceiro dia

Ele comia a mulher de todo mundo. Eu apresentei minha mulher pra ele. Ele comeu minha mulher. Fez mais. Mandou minha mulher não dar mais pra mim. Eu fiquei muito apurado e fui pedir conselhos pra ele. Minha mulher não dá mais pra mim, você que come a mulher de todo mundo, você é o cara que pode me ajudar. Ele abriu um sorriso de santo e mudou de assunto. Aí eu percebi tudo. Foi só ligar os pontinhos. Mas eu não perguntei nada. Nem pra ele nem pra minha mulher. Passei a dormir no sofá da sala. Mudei meus horários no trabalho. Mal dava “Bom dia!”. Mal respondia um “Tudo bem?”. Comia meu prato quieto. Não repetia nem mistura. Troquei o ônibus pelo metrô. Tirei a foto dela da carteira. Quase não trocava de roupa. Só tomava café em padaria. Um dia não fui pro trabalho. Também não voltei pra casa. Pensei em ir num puteiro, mas nunca tinha ido na vida, nem ia saber o que fazer. Sentei num banco do metrô e rezei um pai nosso e uma avemaria. Sabia que estava morto. Não ressuscitei ao terceiro dia.

criado por ciadaobesidade    10:11 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco de SP (Folhetim - Capítulo 5)

 

Meu pai era um cachorro. Eu não gostava do meu pai. Não era por nada, não. Acho que pouca convivência. Eu não cresci com ele. Cresci com minha mãe. Eles separaram logo cedo. Minha mãe dizia que meu pai era um cachorro. Eu passava alguns fins de semana com meu pai. Ele me deu um cachorrinho. Na verdade foram dois. O primeiro morreu. A gente ia no Shopping e eu via o cachorrinho na Pet Shop, detrás da vitrine, com aqueles olhinhos. Eu sempre queria comprar cachorrinho. Eu queria mesmo um canil. Meu primeiro cachorrinho morreu de cinomose. Na verdade era uma cadela. Depois eu tive um cachorrinho. Meu pai que me deu. Meu pai trabalhava como cachorro. Meu pai não conseguia dormir. Eu ainda não consigo. Meu pai tomava remédios. Dizia que estava deprimido. Eu dizia que estava deprimida. Um dia ele me ofereceu. Antiansiolíticos. Antidepressivos. Um coquetel. Eu dei risada. Eu trabalhei numa ONG. ONG de bichos. De proteção aos bichos. A gente castrava os bichinhos. Tudo limpo, higiênico. A gente tirava dos abrigos e levava pra doação. Hoje eu não trabalho mais. Aquilo me deixava bolada. Os bichinhos abandonados. Eu disse. Eu estava deprimida. Hoje eu não estou mais. Eu aceitei o convite do meu pai. Eu tomava de noite. Pra dormir. Antes de dormir. Eu me olhava no espelho e não gostava. Eu parei de comer. Eu fiz regime com meu pai. Meu pai estava acima do peso. Eu nunca estive. Eu estou bem magrinha. Aí comecei a vomitar. Ou foi depois que eu li uns livros? Ou foi depois que entrei nos sites? Eu não paro com os remédios. Pra não dar rebote. Se dá rebote eu pareço uma zumbi. Hoje estou melhor. Muito melhor. Meu pai era um cachorro. Agora não é mais. Não, ele não morreu. Ele melhorou. Ele largou tudo. Foi morar num sítio. Hoje ele tem um canil.Eu penso um dia em morar com ele.

 

criado por ciadaobesidade    9:09 — Arquivado em: Sem categoria

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