Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

27.11.08

Vesúvio

Tudo foi muito rápido. Uma nuvem apareceu no horizonte. Começou uma chuva de cinza e brasa. No início da tarde veio o vômito de lava. Pompéia, Herculano e Stabia foram inundadas por uma manta incandescente de 2 m de espessura. Famílias que almoçavam. Gente indo e vindo do trabalho mal teve tempo de esboçar um gesto de defesa. Casais que se amavam nos lupanares. Grupos de fugitivos. Cães nos pátios das casas. Então, uma camada de rocha e cinza, com 15 m de espessura, sepultou as cidades. Até a meia-noite de 24 de agosto de 79 d.C. a devastação estava concluída, embora uma nuvem cinzenta vagasse por muito tempo sobre o sul da Europa. Não foi a primeira vez que o vulcão expeliu seu fluxo intenso, pois é certo que ele já se manifestara 1500 anos antes. Também não foi a última. Em 472, 512, 1036, 1631 (quando vestígios das cinzas chegaram a Contantinopla), 6 vezes no século XVIII, em 1906, em 1929 e em 1944 ele entrou novamente em erupção. Em 1968, mesmo em atividade, não chegou a expelir. Vulcanólogos italianos dizem que uma rocha enorme, macabra rolha de champanhe, obstrui a boca do vulcão de 1220 m de altura, o único que há 19 séculos mantém atividade regular no continente, e imaginam que, um dia, ele enfim libertará nova nuvem de cinzas e gazes venenosos – se, em 79 d.C., sua lava se espalhou por 4 km, matango 20 mil pessoas, agora ele talvez aniquilasse milhões em poucas horas. O povo da região de Nápolis vive sob essa sombra. Quanto a Pompéia, ela foi reencontrada em 1738, por obra do acaso, quando um agricultor encontrou um naco de muro semi-enterrado. De lá para cá, arqueólogos não páram de escavar. Casas, prédios públicos, aquedutos, teatros, termas, lojas, objetos, afrescos, o mais extraordinário – e estarrecedor - instantâneo de uma cidade do Império Romano emerge desse gesto, atraindo, todo ano, multidões de pesquisadores e turistas que perambulam pelo sítio. Cinza e lama também moldaram os corpos das vítimas minuciosamente, da maneira exata em que o jorro as atingiu. Esses seres petrificados comovem quem caminha pela região. Ruína e monumento. Prova colossal, e ainda assim precária, de que a vida é o cisco do instante, gozo que o tempo engole ao acaso e sem pena, talvez até que não reste quem dele mesmo dê ou faça conta.

 

Em memória de W.G.Sebald

 

criado por ciadaobesidade    12:43 — Arquivado em: Sem categoria

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