Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

25.11.08

Geminados

Acordou com o barulho da obra. Calçou as pantufas e desceu a escada estreita do sobrado geminado, o segundo de um conjunto de três casas. As das pontas têm um também estreito corredor que as separa do resto do casario. Quanto a esta, a do meio, desde que foi projetada não lhe restava respiro que não os dos quintais do fundo e da entrada, onde, embora apertado, caberia um carro popular. Os fundos logo foram ocupados por diminutas edículas, sobrando rasgo de sol para as roupas do varal. No sobrado da esquerda - de quem vê da rua - foi instalado um portão com grades altas e, assim como no do meio, construiu-se uma cobertura para proteger a entrada. No da direita, assim como no do meio, mantiveram-se os portões baixos, também de ferro, originais, e não foram colocadas coberturas, o que garantia a luminosidade das frentes. Muros baixos separavam as casas. As reformas sutis foram feitas ao longo dos anos e dos moradores que pelos sobrados passavam. O da esquerda, nessas cinco décadas, foi ocupado por três famílias. O do centro, por três gerações de uma mesma família. O da direita, até semana passada, por uma família só. O atual proprietário do sobrado do meio, filho do primeiro dono, tem um garoto que completa agora quinze anos. No sobrado da esquerda, vive um casal de idosos que se mudou pra lá há uns oito anos, na época em que nasceu o primeiro neto que, na companhia do irmão, agora vem jogar futebol na entrada da casa aos domingos. O sobrado da direita era habitado por um casal que lá criou os filhos, que se mudaram após seus respectivos casamentos, tiveram também seus filhos, e costumavam freqüentar com assiduidade os pais, que, com a idade, enfrentando vários problemas de saúde – o senhor teve de pressão alta a aneurisma, e a senhora, depois de dedicar tantos cuidados ao companheiro, já mal conseguia levantar da cama, muito menos descer para a cozinha – resolveram vender seu lar e empatar o dinheiro em apartamento funcional perto dos filhos, do outro lado da cidade. Pelo que se viu, chegando num carro zero, um jovem casal com filho pequeno comprou a casa. Hoje, logo cedo, começou a barulheira. O pedreiro ergue sobre o antigo muro baixo que separava as casas da direita e do centro uma parede alta de tijolo. Um portão de ferro acaba de chegar e substituirá o atual, vedando a fachada. Descalçando as pantufas, o morador do sobrado do meio pisa o ladrilho frio e tira apressadamente a samambaia, a avenca e a costela de adão da entrada, tomando cuidado para não despertar a mulher e o filho que, sabe-se lá como, ainda não acordaram. Seu sobrado ficará no escuro para sempre.

criado por ciadaobesidade    17:51 — Arquivado em: Sem categoria

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