Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

25.11.08

Coração

 

 

- Pense em Jesus.

O sagrado coração pendurado na parede da sala de jantar da casa de minha vó. Ela vem da cozinha, com seu vestido negro. A mesa no centro. A cristaleira. A porta que dá para o exíguo corredor. A luz que entra pela porta. Tarde. Outono. Agora minha vó me abraça, eu deito a cabeça em suas pernas. Ela enfia os dedos entre os cachos dos meus cabelos. Eu sinto sua presença, ela me ampara, aqui, agora, embora tenha morrido do coração em 1971. Começo a chorar e nem tento me conter. A moça termina o passe. Tento disfarçar as lágrimas e saio apressado daquele Centro Espírita.

criado por ciadaobesidade    21:16 — Arquivado em: Sem categoria

Suinocultura

 

Ele fedia como um porco. Eu evitava me deitar com ele. Eu deitava mais cedo. Acordava antes. Ele fedia como um porco. Eu inventava desculpas. Eu desviava o assunto. Fingia cansaço. Ele fedia. Às vezes não tinha jeito. Eu me deitava com ele. Eu inventava fantasias. Desviava seu rosto. Fingia que gostava. Ele. Ele eu acho que gostava. Como um porco. Eu não gostava dele. Eu não gostava mais dele. Acho que um dia eu gostava. Eu não lembrava mais dele. Dele no tempo em que eu gostava. Ele fedia como um porco. Eu fazia tudo muito rápido. Depois me lavava no banheiro. Eu escovava bem os dentes. Tudo depois que ele dormia. Ele dormia como um porco. Ontem ele chegou pro meu lado. Esboçou um tipo de abraço, com aquele corpo de porco. Eu disse você fede como um porco. Ele apertou os olhinhos, exatamente como um porco. E grunhiu longamente, como se eu espetasse um facão no seu sovaco de porco, como meu pai fazia na chácara, quando eu era criança, com os porcos do nosso chiqueiro.

criado por ciadaobesidade    20:47 — Arquivado em: Sem categoria

Atos

-Socorro!

Foi o que a mulher gritou quando o marido, deslizando do sofá como uma cobra, ameaçou deitar-se de corpo inteiro sobre o corpo inteiro da esposa, jogado em ângulos sensuais sobre o carpete da sala.

 
Queria um carinho. A brincadeira. Roçar o colo do desejo. Nem acabou de ouvir o grito, ficou paralisado, no meio de uma flexão de braços.

- Achei que você fosse me fazer cócegas!

Ela se justificava, percebendo tardiamente o sentido do movimento. Ele sorriu e, em atuação improvisada, esboçou cócegas breves no abdômen nu da esposa que a camiseta denunciava. Deslizou, em fim, para o carpete, girou até encostar no rack e, num salto ágil, ligou a TV.

criado por ciadaobesidade    18:33 — Arquivado em: Sem categoria

Geminados

Acordou com o barulho da obra. Calçou as pantufas e desceu a escada estreita do sobrado geminado, o segundo de um conjunto de três casas. As das pontas têm um também estreito corredor que as separa do resto do casario. Quanto a esta, a do meio, desde que foi projetada não lhe restava respiro que não os dos quintais do fundo e da entrada, onde, embora apertado, caberia um carro popular. Os fundos logo foram ocupados por diminutas edículas, sobrando rasgo de sol para as roupas do varal. No sobrado da esquerda - de quem vê da rua - foi instalado um portão com grades altas e, assim como no do meio, construiu-se uma cobertura para proteger a entrada. No da direita, assim como no do meio, mantiveram-se os portões baixos, também de ferro, originais, e não foram colocadas coberturas, o que garantia a luminosidade das frentes. Muros baixos separavam as casas. As reformas sutis foram feitas ao longo dos anos e dos moradores que pelos sobrados passavam. O da esquerda, nessas cinco décadas, foi ocupado por três famílias. O do centro, por três gerações de uma mesma família. O da direita, até semana passada, por uma família só. O atual proprietário do sobrado do meio, filho do primeiro dono, tem um garoto que completa agora quinze anos. No sobrado da esquerda, vive um casal de idosos que se mudou pra lá há uns oito anos, na época em que nasceu o primeiro neto que, na companhia do irmão, agora vem jogar futebol na entrada da casa aos domingos. O sobrado da direita era habitado por um casal que lá criou os filhos, que se mudaram após seus respectivos casamentos, tiveram também seus filhos, e costumavam freqüentar com assiduidade os pais, que, com a idade, enfrentando vários problemas de saúde – o senhor teve de pressão alta a aneurisma, e a senhora, depois de dedicar tantos cuidados ao companheiro, já mal conseguia levantar da cama, muito menos descer para a cozinha – resolveram vender seu lar e empatar o dinheiro em apartamento funcional perto dos filhos, do outro lado da cidade. Pelo que se viu, chegando num carro zero, um jovem casal com filho pequeno comprou a casa. Hoje, logo cedo, começou a barulheira. O pedreiro ergue sobre o antigo muro baixo que separava as casas da direita e do centro uma parede alta de tijolo. Um portão de ferro acaba de chegar e substituirá o atual, vedando a fachada. Descalçando as pantufas, o morador do sobrado do meio pisa o ladrilho frio e tira apressadamente a samambaia, a avenca e a costela de adão da entrada, tomando cuidado para não despertar a mulher e o filho que, sabe-se lá como, ainda não acordaram. Seu sobrado ficará no escuro para sempre.

criado por ciadaobesidade    17:51 — Arquivado em: Sem categoria

A Bela da 25

Toda terça, após deixar as crianças na escola, ela deixa o carro perto da estação, numa ruazinha com vigia, pega o metrô, faz baldeação na Sé, salta na São Bento, desce a ladeira e cai no mundão da 25, onde vem refazer estoque, comprar matéria-prima, buscar pechinchas e observar tendências. Tem fornecedores certos, lojas em que bate cartão, invariavelmente volta com dois sacos enormes com tecidos e bugigangas. Aproveita também, com júbilo sempre renovado, para pegar o minúsculo elevador art deco de um pequeno prédio comum, espremido entre os outros, com um sem número de comerciantes se amontoando em antigos apartamentos, e descer, já sozinha, no oitavo andar, onde ao fim de um corredor escuro, abre a porta do oitenta e sete sem jamais tocar a campainha. Lá, ele a espera, e em silêncio estende a mão que, agarrada, conduz a bela até a cama de um solitário quarto pequenino. Sobre poltrona surrada ela pousa, dobrados, saia e blusa. Ao lado, repousam as sacolas. Nem tira as botas. Ele se despe sossegado, espalhando roupas pelos cantos. Franzindo a colcha azul pálido, os dois consumam furiosamente o ato. Ela volta a tempo de pegar as crianças.

criado por ciadaobesidade    15:00 — Arquivado em: Sem categoria

Barba

 

Tirei a barba. Depois do banho, no quarto, enquanto me enxugo, entra minha mulher e pergunta se peguei as contas que vencem hoje. Sim, peguei. Depois de passar no banco, já no trabalho, o chefe pergunta se enviei o relatório. Sim, enviei. Depois de discutir detalhes do projeto, já no fim da tarde, vou para a happy com os colegas. No buteco, no canto da mesa, a meu lado, a namorada pergunta se não tenho como dar uma escapadinha sábado, de manhã. Talvez. Depois da rapidinha no apartamento dela, chego em casa antes que o jogo termine,  todos dormem, como um sanduíche de queijo prato com a tv ligada até o apito final. Depois do banho, com a quina da toalha de rosto, retiro o vapor do espelho. Você tirou a barba?

 

criado por ciadaobesidade    12:21 — Arquivado em: Sem categoria

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