Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

11.11.08

Bico Fino

(Em homenagem ao Dill, ao Gui e ao Edú, que fizeram tão bem no teatro).

 

Bico Fino

Precisa de ajuda?
Não.
Precisa sim.
Brigado.
Senta aqui na guia.
Brigado.
Tá subindo um galo.
É mesmo?
O senhor… Tá bem?
Tudo bem.
Precisa…
Não precisa…
O senhor quer um mate?
Quero um passe.
Um passe.
De ônibus.
Antes quer um mate?
Brigado. Só o passe.
Abriu um corte. Vamos no Pronto Socorro.
Não precisa.
Tá sangrando um pouco.
Deixar passar meu lenço. Cadê meu lenço?
No bolso do paletó?
No bolso. Não tá. Esqueci.
Vamos na farmácia.
Brigado…
Então vamos.
Brigado não!
Fazer um curativo.
O senhor tem um lenço?
Não.
Preciso de um lenço.
Aproveita e põe o sapato.
Que sapato?
O que saiu…
Como saiu?
Quando o senhor caiu.
Caí?
Caiu. Só pode ter caído.
Caí?
Caiu.
Cadê?
O quê?
Meu sapato.
Cadê seu sapato…
Cadê?
Deve estar por aí.
Não tô vendo.
Você viu o sapato desse senhor?
Roubaram.
Calma.
Meu sapato.
Viu um sapato?
Roubaram meu sapato! Roubaram meu sapato!
Gente desalmada.
Gente filhadaputa!
Calma.
Vai fazer o quê com um pé de sapato?
Calma.
Ou será um ladrão perneta?
Senhor…
Alguém viu um ladrão perneta?
Tudo bem.
Pega ladrão perneta!
Vamos na…
Preciso de um lenço. Um lenço e um sapato.
Onde vamos arranjar um sapato…
Era velho mas era bom, o sapato.
Com certeza.
Presente do meu neto. Ele não usava mais. Deis uma bela engraxada.
Com certeza.
Troquei o salto. Gastei uma nota!
Paciência.
Era bico fino. Tá quase na moda.
Quase.
Um dia foi moda.
Foi.
De vez em quando volta.
John Travolta.
Como?
Embalos de Sábado à Noite.
Usava bico fino…
E arrasava!
Sou mais o Fred Astaire.
Aí é covardia.
Ou o Gene Kelly.
Aí é humilhação.
Dançando na chuva. O com aquele rato.
Que rato?
O Jerry. Do Tom e Jerry.
Esse não sai de moda.
Até que enfim algo não sai de moda.
O senhor é que sabe.
Sei é que me roubaram o sapato. Rato perneta filhadumaputa!
Se apóia em mim.
A meia está furada…
Tudo bem.
Que vexame.
Tudo bem.
Mas o senhor há de convir que muita gente anda com uma meia furada…
Claro.
De vez em quando…
Até eu.
Até o senhor?
Com certeza.
O senhor está com uma meia furada agora?
Agora não. Acho que não.
Não deu tempo de cerzir.
Entendo.
Era um sapato muito bom, ainda.
Vê-se pelo outro.
Não disse?
Quer água-com-açúcar?
Um lenço. Um lenço e um sapato. E uma meia, uma meia…
Se apóie em mim e vamos até um buteco.
Não sou nenhum manco. Nem perneta.
Só pra não sujar.
Que vexame, que vexame.
Quer um mate? Um sorvete. Conheço um bom sorvete.
Um passe.
Para ir pra casa?
Não sou manco. Mas vou mancando mesmo.
Compre num camelô um chinelo.
Esses chinelos de hoje são horríveis.
O senhor acha um bacana.
Bons eram os antigos chinelos de couro. Um conforto.
É só pra quebrar um galho.
Um senhor com um pé no sapato e outro no chinelo é deprimente.
É uma emergência.
Um velho pé-de-chinelo.
Ninguém vai notar.
E se passa um conhecido?
Quer que eu acompanhe o senhor?
Não quero atrapalhar.
De jeito nenhum.
Brigado.
Brigado sim ou brigado não?
Brigado sim.
Como o senhor se sente?
Um velho pé-de-chinelo. Sem chinelo.
Vamos para a minha casa.
Sua casa?
Eu cuido do senhor.
Não carece.
Dou banho. Comida. Verdadeiro abrigo.
Eu.
Você?
O senhor.
Você não está só.
Como assim?
Você não está só.
Mas eu não.
Eu estou ao seu lado.
Sei.
Deixa eu te beijar.
Um beijo na testa?
Mais um.
Um beijo na face.
Um outro.
A minha…
Boca.
O senhor. Quer dizer. Você.
Vamos?
Vamos.
Vamos.

criado por ciadaobesidade    15:16 — Arquivado em: Sem categoria

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