Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

28.11.08

Pirata

 

Cinco reais cada. Esse é de internet. Esse é de DVD. Esse é de cinema, mas a imagem tá ótima. O da internet a imagem é perfeito. Falado em português. É um esquema meu aí. Se não tiver bom pode vir aqui que eu troco. Os de DVD pra DVD você escolhe a língua e a legenda. Tem até em russo, coreano. Se comprar cinco leva seis. Pode escolher. A Múmia saiu hoje. Tem o de selinho, também. O da Regininha. O do Frota. O novo do Van Damme. O Pica pau e o Chaves. O pessoal agora tá levando muito o Bezerra de Menezes. É bom. Qual você quer? Eu vejo se tenho aqui, se não tiver mando buscar. Você pega comigo amanhã. Tem trapalhões. Uma porrada. Leva cinco pra virar cliente. Todo dia tem coisa nova. É o jeito de manter o negócio. Se a polícia passa leva tudo. Tem de ficar esperto. Com a caixinha cobro mais um real. Tem faroeste. Aqui nessa pilha é clássico. Tem até 10 mandamentos. Tem esse japonês. Tem Ultraseven. Tem minissérie. A última temporada do House faço trinta. Seis DVDs. Naruto só tenho até o 10. Space Chimps tá em falta. Já levou Era do Gelo? É bom. Eu vi e é muito bom. Que nem diz o Silvio Santos, certo? Kung Fu Panda? Agente 86? O Batman chegou de locadora. 007 é de internet. O High School 3 é locadora mas é falado em português. Garantido. Não dá pra dar mais desconto. Meu patrão não deixa. Eu anoto aqui no caderninho as encomendas. Filme brasileiro também. Pode pedir. Leila Lopes. Brasileirinhas. Eu e meu irmão a gente aqui ganha a vida. Quando a polícia não vem. Semana passada vieram duas vezes. Ficamos no prejú. Eu tenho mais na sacola. Leva pros meninos. Gosta de jogo de computador? DVD de música. E CD, também. Gospel. Filme de crente. Zé do Caixão. Tem Jogos Mortais 5, estreou sexta no cinema. Fica com meu cartão. Hoje fico até às nove. No sábado só até as seis. Se você vier e eu não tiver fala com aquela senhora daquela barraca de meia e calcinha. É minha mãe. Vem que sempre tem lançamento. Ou eu ou meu irmão ficamos aqui. Quase o tempo todo juntos. Ou eu fico e ele vai pegar no fornecedor. Ou ele fica e eu vou conversar com o chefe. O dono. Qualquer coisa fala com minha mãe. Beleza?

 

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27.11.08

Vesúvio

Tudo foi muito rápido. Uma nuvem apareceu no horizonte. Começou uma chuva de cinza e brasa. No início da tarde veio o vômito de lava. Pompéia, Herculano e Stabia foram inundadas por uma manta incandescente de 2 m de espessura. Famílias que almoçavam. Gente indo e vindo do trabalho mal teve tempo de esboçar um gesto de defesa. Casais que se amavam nos lupanares. Grupos de fugitivos. Cães nos pátios das casas. Então, uma camada de rocha e cinza, com 15 m de espessura, sepultou as cidades. Até a meia-noite de 24 de agosto de 79 d.C. a devastação estava concluída, embora uma nuvem cinzenta vagasse por muito tempo sobre o sul da Europa. Não foi a primeira vez que o vulcão expeliu seu fluxo intenso, pois é certo que ele já se manifestara 1500 anos antes. Também não foi a última. Em 472, 512, 1036, 1631 (quando vestígios das cinzas chegaram a Contantinopla), 6 vezes no século XVIII, em 1906, em 1929 e em 1944 ele entrou novamente em erupção. Em 1968, mesmo em atividade, não chegou a expelir. Vulcanólogos italianos dizem que uma rocha enorme, macabra rolha de champanhe, obstrui a boca do vulcão de 1220 m de altura, o único que há 19 séculos mantém atividade regular no continente, e imaginam que, um dia, ele enfim libertará nova nuvem de cinzas e gazes venenosos – se, em 79 d.C., sua lava se espalhou por 4 km, matango 20 mil pessoas, agora ele talvez aniquilasse milhões em poucas horas. O povo da região de Nápolis vive sob essa sombra. Quanto a Pompéia, ela foi reencontrada em 1738, por obra do acaso, quando um agricultor encontrou um naco de muro semi-enterrado. De lá para cá, arqueólogos não páram de escavar. Casas, prédios públicos, aquedutos, teatros, termas, lojas, objetos, afrescos, o mais extraordinário – e estarrecedor - instantâneo de uma cidade do Império Romano emerge desse gesto, atraindo, todo ano, multidões de pesquisadores e turistas que perambulam pelo sítio. Cinza e lama também moldaram os corpos das vítimas minuciosamente, da maneira exata em que o jorro as atingiu. Esses seres petrificados comovem quem caminha pela região. Ruína e monumento. Prova colossal, e ainda assim precária, de que a vida é o cisco do instante, gozo que o tempo engole ao acaso e sem pena, talvez até que não reste quem dele mesmo dê ou faça conta.

 

Em memória de W.G.Sebald

 

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25.11.08

Coração

 

 

- Pense em Jesus.

O sagrado coração pendurado na parede da sala de jantar da casa de minha vó. Ela vem da cozinha, com seu vestido negro. A mesa no centro. A cristaleira. A porta que dá para o exíguo corredor. A luz que entra pela porta. Tarde. Outono. Agora minha vó me abraça, eu deito a cabeça em suas pernas. Ela enfia os dedos entre os cachos dos meus cabelos. Eu sinto sua presença, ela me ampara, aqui, agora, embora tenha morrido do coração em 1971. Começo a chorar e nem tento me conter. A moça termina o passe. Tento disfarçar as lágrimas e saio apressado daquele Centro Espírita.

criado por ciadaobesidade    21:16 — Arquivado em: Sem categoria

Suinocultura

 

Ele fedia como um porco. Eu evitava me deitar com ele. Eu deitava mais cedo. Acordava antes. Ele fedia como um porco. Eu inventava desculpas. Eu desviava o assunto. Fingia cansaço. Ele fedia. Às vezes não tinha jeito. Eu me deitava com ele. Eu inventava fantasias. Desviava seu rosto. Fingia que gostava. Ele. Ele eu acho que gostava. Como um porco. Eu não gostava dele. Eu não gostava mais dele. Acho que um dia eu gostava. Eu não lembrava mais dele. Dele no tempo em que eu gostava. Ele fedia como um porco. Eu fazia tudo muito rápido. Depois me lavava no banheiro. Eu escovava bem os dentes. Tudo depois que ele dormia. Ele dormia como um porco. Ontem ele chegou pro meu lado. Esboçou um tipo de abraço, com aquele corpo de porco. Eu disse você fede como um porco. Ele apertou os olhinhos, exatamente como um porco. E grunhiu longamente, como se eu espetasse um facão no seu sovaco de porco, como meu pai fazia na chácara, quando eu era criança, com os porcos do nosso chiqueiro.

criado por ciadaobesidade    20:47 — Arquivado em: Sem categoria

Atos

-Socorro!

Foi o que a mulher gritou quando o marido, deslizando do sofá como uma cobra, ameaçou deitar-se de corpo inteiro sobre o corpo inteiro da esposa, jogado em ângulos sensuais sobre o carpete da sala.

 
Queria um carinho. A brincadeira. Roçar o colo do desejo. Nem acabou de ouvir o grito, ficou paralisado, no meio de uma flexão de braços.

- Achei que você fosse me fazer cócegas!

Ela se justificava, percebendo tardiamente o sentido do movimento. Ele sorriu e, em atuação improvisada, esboçou cócegas breves no abdômen nu da esposa que a camiseta denunciava. Deslizou, em fim, para o carpete, girou até encostar no rack e, num salto ágil, ligou a TV.

criado por ciadaobesidade    18:33 — Arquivado em: Sem categoria

Geminados

Acordou com o barulho da obra. Calçou as pantufas e desceu a escada estreita do sobrado geminado, o segundo de um conjunto de três casas. As das pontas têm um também estreito corredor que as separa do resto do casario. Quanto a esta, a do meio, desde que foi projetada não lhe restava respiro que não os dos quintais do fundo e da entrada, onde, embora apertado, caberia um carro popular. Os fundos logo foram ocupados por diminutas edículas, sobrando rasgo de sol para as roupas do varal. No sobrado da esquerda - de quem vê da rua - foi instalado um portão com grades altas e, assim como no do meio, construiu-se uma cobertura para proteger a entrada. No da direita, assim como no do meio, mantiveram-se os portões baixos, também de ferro, originais, e não foram colocadas coberturas, o que garantia a luminosidade das frentes. Muros baixos separavam as casas. As reformas sutis foram feitas ao longo dos anos e dos moradores que pelos sobrados passavam. O da esquerda, nessas cinco décadas, foi ocupado por três famílias. O do centro, por três gerações de uma mesma família. O da direita, até semana passada, por uma família só. O atual proprietário do sobrado do meio, filho do primeiro dono, tem um garoto que completa agora quinze anos. No sobrado da esquerda, vive um casal de idosos que se mudou pra lá há uns oito anos, na época em que nasceu o primeiro neto que, na companhia do irmão, agora vem jogar futebol na entrada da casa aos domingos. O sobrado da direita era habitado por um casal que lá criou os filhos, que se mudaram após seus respectivos casamentos, tiveram também seus filhos, e costumavam freqüentar com assiduidade os pais, que, com a idade, enfrentando vários problemas de saúde – o senhor teve de pressão alta a aneurisma, e a senhora, depois de dedicar tantos cuidados ao companheiro, já mal conseguia levantar da cama, muito menos descer para a cozinha – resolveram vender seu lar e empatar o dinheiro em apartamento funcional perto dos filhos, do outro lado da cidade. Pelo que se viu, chegando num carro zero, um jovem casal com filho pequeno comprou a casa. Hoje, logo cedo, começou a barulheira. O pedreiro ergue sobre o antigo muro baixo que separava as casas da direita e do centro uma parede alta de tijolo. Um portão de ferro acaba de chegar e substituirá o atual, vedando a fachada. Descalçando as pantufas, o morador do sobrado do meio pisa o ladrilho frio e tira apressadamente a samambaia, a avenca e a costela de adão da entrada, tomando cuidado para não despertar a mulher e o filho que, sabe-se lá como, ainda não acordaram. Seu sobrado ficará no escuro para sempre.

criado por ciadaobesidade    17:51 — Arquivado em: Sem categoria

A Bela da 25

Toda terça, após deixar as crianças na escola, ela deixa o carro perto da estação, numa ruazinha com vigia, pega o metrô, faz baldeação na Sé, salta na São Bento, desce a ladeira e cai no mundão da 25, onde vem refazer estoque, comprar matéria-prima, buscar pechinchas e observar tendências. Tem fornecedores certos, lojas em que bate cartão, invariavelmente volta com dois sacos enormes com tecidos e bugigangas. Aproveita também, com júbilo sempre renovado, para pegar o minúsculo elevador art deco de um pequeno prédio comum, espremido entre os outros, com um sem número de comerciantes se amontoando em antigos apartamentos, e descer, já sozinha, no oitavo andar, onde ao fim de um corredor escuro, abre a porta do oitenta e sete sem jamais tocar a campainha. Lá, ele a espera, e em silêncio estende a mão que, agarrada, conduz a bela até a cama de um solitário quarto pequenino. Sobre poltrona surrada ela pousa, dobrados, saia e blusa. Ao lado, repousam as sacolas. Nem tira as botas. Ele se despe sossegado, espalhando roupas pelos cantos. Franzindo a colcha azul pálido, os dois consumam furiosamente o ato. Ela volta a tempo de pegar as crianças.

criado por ciadaobesidade    15:00 — Arquivado em: Sem categoria

Barba

 

Tirei a barba. Depois do banho, no quarto, enquanto me enxugo, entra minha mulher e pergunta se peguei as contas que vencem hoje. Sim, peguei. Depois de passar no banco, já no trabalho, o chefe pergunta se enviei o relatório. Sim, enviei. Depois de discutir detalhes do projeto, já no fim da tarde, vou para a happy com os colegas. No buteco, no canto da mesa, a meu lado, a namorada pergunta se não tenho como dar uma escapadinha sábado, de manhã. Talvez. Depois da rapidinha no apartamento dela, chego em casa antes que o jogo termine,  todos dormem, como um sanduíche de queijo prato com a tv ligada até o apito final. Depois do banho, com a quina da toalha de rosto, retiro o vapor do espelho. Você tirou a barba?

 

criado por ciadaobesidade    12:21 — Arquivado em: Sem categoria

20.11.08

Morte súbita

Não lembra mais como isso começou? Não sabe mais nem como veio parar aqui? Ela segura as bordas da cama, os braços jogados para trás, o rosto fatiado pelo fim de tarde que entra pela janela. Cabelos esparramados pelo travesseiro e pelos lençois brancos. O torso branco. Os seios nus. Bicos rosados. Calcinha branca. A perna direita que se dobra, fingindo esconder a sombra dos pelos púbicos. Os dedos do pé esquerdo se esticam e contraem. O telefone toca, toca, toca, lá na sala. Ela não esboça outro gesto. Nem sorri. Então volta o silêncio. Enfim, um suspiro vira sorriso. Com a boca, você vai beber direto na fonte. Até o gemido. Até o grito seco, curto, groso. Agora, de volta ao silêncio, percebendo os olhos fechados da noite, começa, lento, o seu fim.  

 

Para Philip Roth

 

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14.11.08

Queda

A cabeça fazia um ângulo estranho com o pescoço, que por sua vez também parecia deslocado do ombro e do resto do corpo, tombado como marionete na calçada, de quatro, junto ao portão da casa. A têmpora e a bochecha grudadas no chão. Olhos esbugalhados no rosto amarelo que parecia até mesmo sorrir. Corri para ajudar, assim como o moço da serralheria em frente. De dentro da casa veio correndo uma senhora, certamente sua esposa. Chegamos todos ao mesmo tempo. Eu segurei a cabeça, passando as mãos sob o rosto. O rapaz ergueu as costas. Primeiro colocamos o senhor sentado. Depois, com calma, conseguimos erguê-lo. Quando ficou de pé, tremendo, ele realmente sorriu. Amparei-o. Abracei seu corpo e, caminhando ao seu lado, conduzi-o para dentro da casa. Sua esposa ficou na rua conversando com as outras pessoas que ajudaram. Entramos na casa pela pequena cozinha, mesa da janta posta para dois. Daí entramos na sala. Curvando-se, ele levantou uma barra da calça até o joelho – pequenos arranhões. Fez o mesmo com a outra perna. Próximo ao ombro direito, no braço, uma mancha de sangue. Puxou a manga e constatou um corte leve. Na testa, junto à têmpora, escoriações e outro leve sangramento. Sentou-se no sofá. Disse que perdera um filho faz cinco meses. No vão da porta apareceu a esposa do senhor. Ela disse que não é a primeira vez que ele cai. Ele disse que está com 80 anos. Agradeceram. Fui embora.

criado por ciadaobesidade    18:19 — Arquivado em: Sem categoria

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