Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

9.10.08

O escrevente e o sapo

 

Na casa da fazenda, depois que tomava a sopa grossa, ao final do longo expediente anotando detalhes sobre os zebus do patrão, ele pegava a velha máquina e a resma de papel e ia para o porão. Na porta, o sapo já estava a sua espera. Um sapo gordo e verdolengo que piscava em sua direção. Ele abria a porta e os dois desciam as escadas. Lá embaixo, ele acendia a lâmpada, mas não dispensava a vela. Colocava seu material sobre a mesa, mirava os contornos da luz, as partículas de poeira, os cantos escuros. O sapo fechava os olhinhos. Algumas noites, o escrevente colocava também um disco no fonógrafo. Um clássico. Então se sentava, respirava fundo, uma, duas, três vezes, expirando cada vez mais longa e calmamente. Então, como o sapo, fechava os olhos. Na sua mente, apareciam imagens de outros tempos e espaços. Reencontrava os personagens da noite de ontem, em novos movimentos, como nos seriados, nos romances e nas fitas de aventura que tanto amava nas sessões de cinema do domingo. Recomeçava a datilografar a história de Paulo e Estevão. Lá pelo meio da madrugada, parava. Com o companheiro, subia as escadas, apagava a lâmpada, soprava a vela e fechava a porta. Daqui a pouco, retornaria a sua labuta diária anotando tudo sobre os zebus da fazenda. Despedia-se do sapo. Agora, ambos iam descansar.

 

 

criado por ciadaobesidade    15:52 — Arquivado em: Sem categoria

7.10.08

Cabeça

Cabeça a mil. Depois  da estréia, tudo em ebulição. A gente não sabe muito bem pra que lado seguir. Muitas possibilidades.

O Anjo fez linda estréia. No segundo dia, mais de duzentas pessoas.  A platéia aplaudiu de pé. De tarde, antes da apresentação, fizemos correções, que tornaram a cena mais bacana. Mesmo assim, como espetáculo, gostei mais do de quinta. Tem quem gostou mais de sábado. Bem… eu sou mesmo o ranzinza do diretor.

Na sessão,  tivemos que abrir o segundo andar, pois a platéia de baixo lotou. Meus filhos, mais uma vez, compareceram e adoraram.  O Pedro já quase decorou a Canção do Apocalipse.

Gui e Daiani, na produção,  foram maravilhosos e fizeram com que tudo corresse muito bem, sem atritos. O pessoal do CCJ, da faxineira aos técnicos, do público tradicional da casa a seus colaboradores artísticos, todos foram perfeitos. Não canso de agradecer.

Agora, queremos  festivais,  viagens, depois uma temporada, Brasil, exterior. Levar as idéias e os conflitos de Walter Benjamin e do Anjo pelo mundo - já que esses conflitos e idéias são universais.

Aliás, uma das coisas que mais nos deixa felizes é que a peça "chegou" mesmo. Não ficou "difícil", "esotérica", para "iniciados" em história, filosofia, literatura. Embora tenha muita história, filosofia e literatura.

Nos divertimos.  Cometemos alguns erros. Estamos orgulhosos, sim, dos acertos. Já estamos fazendo balanço de tudo.

Agradeço a todos  os meus alunos, colegas e amigos. Aos familiares. À constelação que veio de todos os cantos. Ao Cacá Rosset.

Agradeço às doces mensagens da Dina, ao selo, que muito me honra, aos e-mails carinhosos de todos.

Duas idéias da peça, da cabecinha do senhor  Brecht, guiarão nosso novo momento: 1. A alegria é uma construção. 2. Quem é alegre sempre encontra uma saída.

Alegria, pois.

 

Bjs

 

Celso

criado por ciadaobesidade    16:55 — Arquivado em: Sem categoria

3.10.08

Notícias da estréia

Olá, queridos leitores. A estréia do Anjo foi linda.

De manhã, montamos o cenário e a luz. Depois que quebramos bem a cabeça, chegamos numa luz simples, delicada e bonita. Aí, fomos almoçar num "por quilo" e cuidar dos últimos detalhes. Marcão foi pra casa pegar o tripé da câmera (que tinha esquecido), Dill e eu fomos pagar contas e comprar colchão pra cama do cenário. Passamos também num super pra comprar uma cerveja (queríamos Carlsberg, levamos uma uruguaia bem boa e bem cênica) e um chocolate (a "morfina" da peça), pegar uma caneca (que o Marcão também tinha esquecido).

Aí, já no teatro, retoques finais.

Dill arrumou o colchão na cama, os lencóis e cobertores, tudo ficou bonito. Chegaram Gui e Dai pra ajudar. Depois veio o público. Muitos amigos, alunos, queridos e queridas de todos os tempos e eternos.

A peça foi comovente. Tocante. Engraçada.

Enfim, todo mundo ficou feliz.

Agradecemos muito a oportunidade que o Centro de Cultura Judaica criou - e esses 14 meses de preparação, descobrindo a dramaturgia nas obras de Walter Benjamin, Bert Brecht, Kafka e outros.

Escolhendo cada detalhe da cena como quem escolhe o peixe grande entre os mais ordinários do mercado.

Amanhã, última apresentação. Venham ver nosso trabalho, tomar um café gostoso no Centro de Cultura, bater um papo comigo e com os atores.

R. Oscar Freire, 2500, colado no Metrô Sumaré.

20h30

Grátis!!!

 

Grande beijo, obrigado pela presença aqui no blog, e até lá!!!

 

Celso

criado por ciadaobesidade    21:03 — Arquivado em: Sem categoria

1.10.08

Carta para W.B.

 

Querido Walter,

Já dizia o Polônio no Hamlet. O importante na vida é estar pronto. E se não dizia exatamente isso era quase isso. Pois é. Estamos aí pro que der e vier. Ou, como diz o Dill, estamos aí principalmente pra quem vier e der. O espetáculo, enfim, chega à estréia.

Você sabe como a gente ralou pra chegar aqui. Catorze meses. Quanto rolo, quanta crise. Perdas e danos. Negócios e oportunidades. Chegamos aqui muito unidos. Focados. Tesudos. Cada vez mais apaixonados por suas idéias, sua vida, sua paixão pelas idéias e pela vida.

Os meninos, Dill e Marcão, estão prontos pra surfar suas ondas. Com alegria e emoção.

Claro. Temos ajustes a fazer. Amanhã vai ser aquele rolo pra fazer luz, montar as coisas, cuidar da técnica. Delícia resolver cada etapa. Pra oferecer pra platéia a beleza de tuas idéias. E das idéias do Brecht, do Kafka, do Steiner, da Arendt… Ufa!

 

Walter Benjamin, obrigado por acompanhar e inspirar nossos passos.

Desejamos muito que nosso espetáculo seja veículo pra que você seja ainda mais conhecido, lido, estudado, admirado.

Desejamos que nosso trabalho toque com delicadeza a mente e o coração dos espectadores, chama da vela em tempos tão… Estranhos? Sombrios? Cintilantes?

Que xadrez de idéias e estrelas!

Que vertigem!

Quantas trilhas de rosas semeadas de pensamentos. Ou será justamente o contrário?

Foram 20 e tantas versões de texto. Fomos limpando, limando, chegando no osso e na medula.

Uma história de afetos. De sentar na beira da cama de quem a gente ama e esperar esse alguém dormir. De contar histórias. E de cuidar de quem a gente ama.

História de anjo da guarda.

Que ruínas deixaremos para nossas crianças?

Nessa longa passagem paulistana, eu te agradeço.

Espero que muita gente apareça.

Que as pessoas gostem.

E que possamos compartilhar a magia do teatro.

Grande beijo.

 

Celso

 

criado por ciadaobesidade    19:25 — Arquivado em: Sem categoria

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