9.10.08
O escrevente e o sapo
Na casa da fazenda, depois que tomava a sopa grossa, ao final do longo expediente anotando detalhes sobre os zebus do patrão, ele pegava a velha máquina e a resma de papel e ia para o porão. Na porta, o sapo já estava a sua espera. Um sapo gordo e verdolengo que piscava em sua direção. Ele abria a porta e os dois desciam as escadas. Lá embaixo, ele acendia a lâmpada, mas não dispensava a vela. Colocava seu material sobre a mesa, mirava os contornos da luz, as partículas de poeira, os cantos escuros. O sapo fechava os olhinhos. Algumas noites, o escrevente colocava também um disco no fonógrafo. Um clássico. Então se sentava, respirava fundo, uma, duas, três vezes, expirando cada vez mais longa e calmamente. Então, como o sapo, fechava os olhos. Na sua mente, apareciam imagens de outros tempos e espaços. Reencontrava os personagens da noite de ontem, em novos movimentos, como nos seriados, nos romances e nas fitas de aventura que tanto amava nas sessões de cinema do domingo. Recomeçava a datilografar a história de Paulo e Estevão. Lá pelo meio da madrugada, parava. Com o companheiro, subia as escadas, apagava a lâmpada, soprava a vela e fechava a porta. Daqui a pouco, retornaria a sua labuta diária anotando tudo sobre os zebus da fazenda. Despedia-se do sapo. Agora, ambos iam descansar.


criado por ciadaobesidade
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