Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

24.10.08

Ladeiras

 

Foi logo depois que passou pela catraca, terminando mais uma noite de trabalho. Um pouco depois da conversa com o chefe, do minucioso relatório que o chefe aprovou com a cabeça. Começou com uma cólica no baixo ventre, enquanto descia a ladeira rumo ao metrô. Achou que passava. Como uma cobra que seguisse pelos meandros do seu intestino, a cólica teimou em continuar. Bambeou. A estudante que vinha subindo a ladeira, no sentido oposto, deve ter pensado que era um dos bêbados da noite. Ele tentou apressar o passo, mas as pernas não respondiam. Cada passo era um custo. Parou um instante. Respirou fundo. A cólica deu sossego. Inspirou e continuou a jornada, chegando ao vale. Um guarda noturno ouvia Stones num radinho. Agora começava a subida. Tentou acelerar. A cólica voltou, agora com uma suspeitíssima contração esfincteriana. Ai, meu Deus! Foi tudo o que passou pela sua cabeça. Começou a suar. Em poucos passos sua camisa estava empapada. Apelou para uma força interior. Mas o ímpeto de seus intestinos parecia indomável. Rezou um pai nosso. Uma avemaria. Agradecia cada novo passo. Sobrados dormindo, nenhum boteco, nenhuma moita ou canto suficientemente escuro. Outros trabalhadores também caminhavam para o metrô. Puxou o bilhete único e venceu mais uma catraca. Pegou seu trem mordendo os lábios. Trancava a saída com muito esforço, mas também com confiança em seu sucesso. Afinal, quantas vezes não vencera acessos similares a esse na vida? Mas acontece que a tal sensação, a cada minuto, mais se diferenciava de desarranjos anteriores. Fez baldeação no Paraíso. Só mais algumas estações, meu pai! Embora desejasse chegar à Vila Madalena, resolveu descer na Consolação. Achou mais apropriado. Desceu do trem e foi cambaleando como dava. As cólicas ficaram ainda mais intensas. Sentiu que o fim se aproximava. Que não havia força de vontade suficiente no mundo. Então, sem dar a mínima bola para seus esforços, rezas e pedidos, a diarréia simplesmente dominou seu corpo. As fezes saindo, sem controle. Sentiu um alívio. Mais que nunca, desejou um bar, boteco, padaria. Enquanto as escadas rolantes subiam, veio mais uma cólica com um jato. Pensou que aquela cueca, pelo menos, aquela cueca já era. Será que a calça também? Queria arrancar toda a roupa e jogar tudo num lixo. Tomar um banho. Mais um pouquinho de merda. E a rua que nunca chegava. Quando emergiu do metrô e chegou à esquina da Paulista com a Augusta, chorava, soluçando, com altos ganidos.

 

criado por ciadaobesidade    12:08 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por COPEC — 24.10.08 @ 19:03

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  2. Comentário por Pedro De Luna — 28.10.08 @ 0:14

    Nojento. Excelente.

  3. Comentário por Raymar Fonseca — 28.10.08 @ 8:16

    Escatológico e brilhante. Atire a primeira pedra aquele que nunca teve a sensação de que seria traído pelo próprio esfíncter anal.

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