Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

20.10.08

jogo de espelhos

"Nossa! Adorei o Zibarro!! Se o Zibarro é um espelho do Bizarro que é espelho do Super-Homem, o Zibarro é o Super-Homem! Hum, gostaria de saber o que acontece depois que eles se encontram. Dá pra continuar a história?? Hehehe. Abração!! "

Comentário do Marcelo a post de semana passada

 

Sinto informar, mas o Zibarro não é o Super-Homem. Se o Bizarro é a imagem distorcida do Super-Homem, o Zibarro é a imagem distorcida do Bizarro. Imagino que a coisa siga assim, ao infinito, de bizarrice em bizarrice, como quando estamos entre dois espelhos, e vemos, dentro deles, infinitas dimensões. Por exemplo, quando eu era moleque e meu pai me levava pra cortar o cabelo na barbearia do Macalé, com as paredes espelhadas, eu sentava na cadeira e mirava à minha frente infinitos lugares que gostaria de visitar, sem falar nos infinitos sujeitos que cortavam cabelos, nos inúmeros barbeiros, no sem número de pais incrivelmente parecidos conosco e que povovam aquele jogo de espelhos. Anos depois, conheci a obra da poeta Ana Akhmátova que, na antiga União Soviética, navegava sua melancolia na Sala Branca, abarrotada de espelhos, em todas as direções, lançando sua alma atormentada na vertigem que ela maravilhosamente derramava em seus poemas.  No nosso caso, mais modesto, com Bizarro e Zibarro, sem esquecer do Super-Homem, talvez estivéssemos entre um espelho comum e outro convexo (ou côncavo, sei lá, não entendo nada de física, embora saiba que esses conhecimentos seriam fundamentais para desenvolver este texto e que, talvez, em algum daqueles mundos de espelho que um dia mirei, algum dos meus reflexos talvez fosse um físico, mesmo que medíocre, mais ou menos como eu, agora, escriba mequetrefe teclando estas linhas). Assim, ousaríamos enxergar uma miríade de dimensões nos reflexos, cada uma delas diferente da anterior. Se pudéssemos entrar em um dos espelhos, o da nossa frente, por exemplo, e seguir de dimensão em dimensão, talvez, um dia, reencontrássemos, nos mínimos detalhes, o Super-Homem, o que provaria que sempre navegamos em um universo circular, onde tudo não passa de imagem  e de imagem da imagem, como costumava supor aquele escritor argentino cego, e ainda restaria responder o que é, enfim, original, ou se tudo depende do ponto de vista ou do que, arbitrariamente, determinamos como ponto de partida ou ponto final.

criado por ciadaobesidade    19:12 — Arquivado em: Sem categoria

metamorfoses

Quanto tempo? Uns 25 anos. Eu tinha entrado na ECA, pra fazer Jornalismo, noturo. Um pivete com 17, morava perto do Brooklin, dois ônibus pra ir, dois pra voltar. Não tinha muita cabeça. Gostava dos amigos, (alguns amigos até hoje), de algumas aulas (algumas ainda me ensinam até hoje), de fazer karatê no CEPEUSP, de tomar lanhces na EAD.

Escola de Arte Dramática. A mítica escola de teatro, que forma gerações e gerações dos melhores atores do país. Bloco C da ECA. Lugar onde eu mesmo, quase 10 anos depois, estudei (só que de dia, na Cênicas da ECA). Naquelas noites, antes da auls de jornalismo, eu ia até a minúscula lanchonete da EAD e comia uma torta de frango e um suco de caju. Aproveitava pra babar naqueles atores e atrizes que passavam brilhando, ensaiando suas peças.

Numa daquelas noites, aproveitei pra assistir à estréia de um dos espetáculos, desses de conclusão de semestre de uma turma. Sala preta do Bloco C, sentado no chão, fui ver LAÇOS. O elenco, dirigido por Odavlas Peti, realizava ousadíssimo trabalho a partir do livro poético-teórico do anti-psiquiatra Ronald Laing.

Bom, sabe aqueles momentos que mudam sua vida?

Foi  por aí. Até hoje lembro do começo da peça. O primeiro poema, que abre o livro de Laing. E a primeira canção da peça: eles estão jogando o jogo deles…

Vamos à citação quase completa: "eles estão jogando o jogo deles, eles estão jogando o jogo deles, estão jogando o jogo de não jogar o jogo, eles estão jogando o jogo deles, se eu lhes mostrar que os vejo qual estão, estarei quebrando as regras do jogo e receberei a minha punição…  (agora a citação não é mais literal) então eu devo é jogar o o jogo de não jogar o jogo… E por aí vai… Ou ia!

Numa palavra: caralho!

Aquelas palavras, aquele jogo de palavras, encarnado naqueles belos corpos jovens, naquele suor, naqueles jogos cênicos, na canção do Raul… Metmorfose ambulante… Que fechava o trabalho!!!

Tudo muito anos 80, pré-Aids, pré-neo-turbo-liberalismo!!!

O espetáculo fez imenso sucesso, muitas temporadas fora da ECA. Eu acompanhei todas.

Até hoje, quando converso com alguém das áreas de cênicas ou de psico com quarenta e poucos e que vivia em SP, difícil essa pessoa não ter trombado com Laços.

Aquilo era forte, era libertador, era estimulante, era sexy.

Quanta utopia dos 80 não encontrava ali configuração…

Hoje somos senhoras e senhores razoavelmente bem postos…

Os laços estão tão fortes…

Como desfazer alguns deles?

 

 

criado por ciadaobesidade    15:22 — Arquivado em: Sem categoria

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