10.10.08
Amnésia Irreversível
Já tem uma semana. Já passou, passou. Como foi mesmo? Nosso Anjo da História fez dois pousos breves lá no Centro de Cultura Judaica e já partiu. Ainda não sabemos quando e onde dará novamente o ar da graça.
E foi uma graça. Catorze meses de labuta. Isso sem contar a elaboração do projeto que ganhou prêmio do CCJ. Nem falar que a matriz da cena veio lá da minha primeira peça, há 16 anos.
Quanto tempo leva pra fazer uma peça?
Toda uma experiência sintetizada em 50 minutos diretos, sem cortes. Tempo contínuo, meticulosamente elaborado… E já passou… Passou.
Lembro daqueles dois filmes, Amnésia e Irreversível.
Do Amnésia não lembro bem. Apropriado. Outro dia, em conversa com alunos, um disse que, no DVD, há uma versão do filme "de frente pra trás". Disse que perde toda a graça. As revelações da memória. Aquilo que ela esconde.
Lembro mais de Irreversível. Filme-porrada. O tempo destrói tudo, diz a epígrafe. Então, magistrais sequências, aterradores blocos de tempo também montados de trás pra frente. Cinema é tempo esculpido, já disse Tarkovski. Irreversível é paradoxo sobre o tema.
Vivemos tanta ansiedade, tanta expectativa, tanto trampo para chegar nas duas apresentações do Anjo. Trabalhamos como monjes. E como viciados em pôquer uivando num cassino. Tudo ou nada, sempre. Tudo e nada, agora. Passou.
Teatro é efêmero. Como seu duplo, a vida.
Tivemos um público muito bonito. Amigos. Amores. Abraços. Comentários carinhosos. Silêncios e esquecimentos. Tudo também devidamente tragado pelo tempo.
Temos o filme. Temos o texto. Indícios do encontro. O aqui e agora que benjamin tanto exaltava, e que o teatro ainda celebra.
O lusco-fusco da memória e dos afetos. Esperança e nostalgia. Não a vida eterna, mas a eterna vivacidade do agora, como pedia Nietzsche.
E tudo passa, tudo passará… Como na canção brega e nos romances baratos.


criado por ciadaobesidade
11:05 — Arquivado em:
Comentário por ICH LÍEBE DÍCH — 10.10.08 @ 14:29
Olá…Celso!
Acho que não deveria pensar assim…
As coisas, as pessoas ….passam,sim!
Mas quando tem valor, quando agradam e cativam, jamais serão esquecidas….apagadas.Em algum momento, serão lembradas…e quem sabe,sendo lembrada….não possam voltar!….. Ou quem sabe ao se mexer numa gaveta….não se encontre, aquele manuscrito…. e venha a vontade de começar tudo novamente!!!
Ainda gostaria de assistir a alguma de suas peças…fui curiosa!
Bom final de semana…Bjs.Dina
Comentário por guilherme freitas — 10.10.08 @ 17:44
Olá querido ,concordo plenamente com a dina,lembra da moça que entrou no camarim da megera domada e disse :adorei o espetáculo
eu disse:obrigado ,riu bastante
ela disse:sim é muito bom,mas não estou falando desse e começou a chorar e disse: A irmandade em curitiba no festival em março.
Pois é duas apresentações um trabalho lindo ,meses depois ,sabemos que tocamos o coração da moça.
Não importa quem,quantos .
Mexer com os sentimentos é o que importa,mesmo que seja apenas uma pessoa ,já valeu!
gui