Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

10.10.08

Toques

 

Palavras sobre o Anjo

 

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O colega chegou pra mim no canto da sala dos professores e disse: jamais vou esquecer uma frase da peça, "a alegria é uma construção." Assinou o ponto e foi continuar sua obra.

 

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Antes que a aula começasse, a aluna comentou: tem um trecho que não me sai da cabeça, um negócio sobre o mal, o bem. "O mal é banal." Emendei: "O Bem também?" E ela, na lata: "Xeque!" Pois é: xeque.

 

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Meu filho Pedro gostou mais da hora em que o Marcão fala em Puta qui o pariu. Meu filho João adorou quando falamos em "pum."

 

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O Fábio disse que, pela ordem, gostou mais dessa minha peça, depois vem Comendo Ovos, depois Gordas, depois Sexo Oral. Acho que estou melhorando.

 

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O Mark leu a última rubrica, lá em Londres, e mandou e-mail: "Aaaaaaaaaargh!".

 

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Um colega fez silêncio de sentença. Outro só deu tchauzinho de longe. A bibliotecária agora quase me ignora.

 

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Um grande amor abriu um sorriso também gigante e veio conhecer meus meninos.

 

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Teve um aluno meu que riu muito, muito, depois de cada deixa. Pretendemos contratá-lo.

 

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A Lúcia mandou e-mail: gostei muito.

 

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O pessoal do Centro não entendeu a pegada, pois a casa foi lotando, lotando, eles nunca tinham visto isso em eventos assim. Foi bonito. Eles agradeceram. Disseram que gostaram muito do trabalho.

 

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Veio um frequentador do Centro, espectador, não conhecia, e disse com rosto radiante: "quem dera os homens, ao invés de destruir as coisas e fazer guerras, se dedicassem a criar. Assim."

 

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A Walderez achou meu melhor texto. O mais complexo. E me deu um livro.

 

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Também ganhei tantos abraços e beijos e carinhos que me deixaram muito, muito feliz.

 

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Teve quem nem respondeu ao convite. Uns vieram com desculpas esfarrapadas. Outros com boas desculpas.

 

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A Lu não só curtiu como depois foi comer pizza com a gente. E vai trabalhar logo conosco.

 

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A família do Dill foi. A irmã, duas vezes.

 

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A filha linda do Marcão também.

 

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O Doni me deu um livro lindo e raro com um Prometeu.

 

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O carinha do som perguntou: "de quem é o texto?"

 

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A Dina mandou uns e-maisl de anjo da guarda.

 

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Viva Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Franz Kafka, todos os deuses do teatro e os corações de cada um da nossa platéia.

 

Um beijo pra Rita.

 

Valeu!

 

criado por ciadaobesidade    19:24 — Arquivado em: Sem categoria

Amnésia Irreversível

Já tem uma semana. Já passou, passou. Como foi mesmo? Nosso Anjo da História fez dois pousos breves lá no Centro de Cultura Judaica e já partiu. Ainda não sabemos quando e onde dará novamente o ar da graça.

E foi uma graça. Catorze meses de labuta. Isso sem contar a elaboração do projeto que ganhou prêmio do CCJ. Nem falar que a matriz da cena veio lá da minha primeira peça, há 16 anos.

Quanto tempo leva pra fazer uma peça?

Toda uma experiência sintetizada em 50 minutos diretos, sem cortes. Tempo contínuo, meticulosamente elaborado… E já passou… Passou.

Lembro daqueles dois filmes, Amnésia e Irreversível.

Do Amnésia não lembro bem. Apropriado. Outro dia, em conversa com alunos, um disse que, no DVD, há uma versão do filme "de frente pra trás". Disse que perde toda a graça. As revelações da memória. Aquilo que ela esconde.

Lembro mais de Irreversível. Filme-porrada. O tempo destrói tudo, diz a epígrafe. Então, magistrais sequências, aterradores blocos de tempo também montados de trás pra frente. Cinema é tempo esculpido, já disse Tarkovski. Irreversível é paradoxo sobre o tema.

Vivemos tanta ansiedade, tanta expectativa, tanto trampo para chegar nas duas apresentações do Anjo. Trabalhamos como monjes. E como viciados em pôquer uivando num cassino. Tudo ou nada, sempre. Tudo e nada, agora. Passou.

Teatro é efêmero. Como seu duplo, a vida.

Tivemos um público muito bonito. Amigos. Amores. Abraços. Comentários carinhosos. Silêncios e esquecimentos. Tudo também devidamente tragado pelo tempo.

Temos o filme. Temos o texto. Indícios do encontro. O aqui e agora que benjamin tanto exaltava, e que o teatro ainda celebra.

O lusco-fusco da memória e dos afetos. Esperança e nostalgia. Não a vida eterna, mas a eterna vivacidade do agora, como pedia Nietzsche.

E tudo passa, tudo passará…  Como na canção brega e nos romances baratos.

 

criado por ciadaobesidade    11:05 — Arquivado em: Sem categoria

Bizarro

 

Fui contar história na escola do meu caçula. Ele pediu uma do Super-Homem. Não uma qualquer. Mas a do Super-homem bizarro. O Super-homem bizarro vem do planeta bizarro. Lá tudo é bizarro. Tudo é estranho, diferente. No caso do mundo bizarro do nosso Super-homem bizarro, tudo é quase um espelho do tudo do nosso mundo. Só que um pouco distorcido. Então, nosso mundo é meio redondo, um tipo de uma bola. O mundo bizarro é bem quadrado. Um cubo. Se o nosso Super-Homem é um herói, um cara legal, sempre de bom humor, o bizarro não chega a ser um vilão, mas é um sujeito invocado, que está sempre detruindo alguma coisa. Se o nosso Super diz "bom dia!", o bizarro diz "mau dia!". Onde o nosso diz "Hoje estou tão feliz", o bizarro manda "eu estou muito infeliz!". O Super-Homem vive de fazer boas ações. O bizarro vive quebrando as coisas. Não que ele seja um sujeito mau, no nosso sentido do mau. Ele é mau, mas lá no planeta dele mau é bom. Bom. Está ficando complicado? O bizarro é complicado mesmo. Bem mais complicado que o Super-Homem. E se eu te disser que numa aventura o Super vai parar no planeta bizarro e lá encontra, nada mais, nada menos (ou nada menos, nada mais) do que o bizarro do Bizarro: o Zibarro. O mais solitário dos seres que vivem no planeta Bizarro. Ninguém entende o Zibarro. O Zibarro é um espelho do Bizarro que é um espelho do Super-Homem. Ou será o contrário?

 

 

criado por ciadaobesidade    9:27 — Arquivado em: Sem categoria

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