9.10.08
A carta
Franz deixou o volume magro na mesinha, ao lado da poltrona do pai. Era seu primeiro livro publicado? A memória é disco com riscos, fica engasgada num ponto e o que veio antes, o que vem depois, tudo fica coagulado numa espécie de gemido - gemido entre arranhões. O pai disse que leria a obra. Leu? Passou os olhos? Fez algum comentário enquanto ruminava a janta? Ou foi contaminando a casa com silêncio, como se tivesse esquecido a torneira da banheira aberta e a água fosse engolindo tudo, tudo, até que não houvesse canto livre da camada fina, da película rançosa, um pântano raso onde as sombras dos móveis escondiam serpentes e crocodilos. Então, Franz resolveu escrever a carta. Começou como quem cava uma represa, pensando em achar um oco para escoar toda aquela enxurrada. Aos poucos, viu que erguia uma muralha, rabiscando páginas e páginas para o pai e secando os ossos à luz quase incendiária das palavras. Botou o calhamaço num grande envelope e deixou-o exatamente no mesmo lugar onde, um tempo antes, colocara seu livro. Não tocou mais no assunto.


criado por ciadaobesidade
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