Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

9.10.08

A carta

 

Franz deixou o volume magro na mesinha, ao lado da poltrona do pai. Era seu primeiro livro publicado? A memória é disco com riscos, fica engasgada num ponto e o que veio antes, o que vem depois,  tudo fica coagulado numa espécie de gemido - gemido entre arranhões. O pai disse que leria a obra. Leu? Passou os olhos? Fez algum comentário enquanto ruminava a janta? Ou foi contaminando a casa com silêncio, como se tivesse esquecido a torneira da banheira aberta e a água fosse engolindo tudo, tudo, até que não houvesse canto livre da camada fina, da película rançosa, um pântano raso onde as sombras dos móveis escondiam serpentes e crocodilos. Então, Franz resolveu escrever a carta. Começou como quem cava uma represa, pensando em achar um oco para escoar toda aquela enxurrada. Aos poucos, viu que erguia uma muralha, rabiscando páginas e páginas para o pai e secando os ossos à luz quase incendiária das palavras. Botou o calhamaço num grande envelope e deixou-o exatamente no mesmo lugar onde, um tempo antes, colocara seu livro. Não tocou mais no assunto. 

 

 

criado por ciadaobesidade    19:32 — Arquivado em: Sem categoria

O escrevente e o sapo

 

Na casa da fazenda, depois que tomava a sopa grossa, ao final do longo expediente anotando detalhes sobre os zebus do patrão, ele pegava a velha máquina e a resma de papel e ia para o porão. Na porta, o sapo já estava a sua espera. Um sapo gordo e verdolengo que piscava em sua direção. Ele abria a porta e os dois desciam as escadas. Lá embaixo, ele acendia a lâmpada, mas não dispensava a vela. Colocava seu material sobre a mesa, mirava os contornos da luz, as partículas de poeira, os cantos escuros. O sapo fechava os olhinhos. Algumas noites, o escrevente colocava também um disco no fonógrafo. Um clássico. Então se sentava, respirava fundo, uma, duas, três vezes, expirando cada vez mais longa e calmamente. Então, como o sapo, fechava os olhos. Na sua mente, apareciam imagens de outros tempos e espaços. Reencontrava os personagens da noite de ontem, em novos movimentos, como nos seriados, nos romances e nas fitas de aventura que tanto amava nas sessões de cinema do domingo. Recomeçava a datilografar a história de Paulo e Estevão. Lá pelo meio da madrugada, parava. Com o companheiro, subia as escadas, apagava a lâmpada, soprava a vela e fechava a porta. Daqui a pouco, retornaria a sua labuta diária anotando tudo sobre os zebus da fazenda. Despedia-se do sapo. Agora, ambos iam descansar.

 

 

criado por ciadaobesidade    15:52 — Arquivado em: Sem categoria

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