O professor disse que seu aluno de pós em escrita criativa foi ver minha peça. Também disse que o seu aluno gostou muito da peça, até o momento em que, na peça, aparecem palavrões. O professor não assistiu à peça.
Imediatamente pensei no “puta que o pariu” que aparece lá pelo meio da peça, no final de uma canção. Demorei a encontrar outros. Lembrei da frase “escritores sempre se fodem”. Pensei: pelo menos o aluno do professor aproveitou meia peça.
Aí o professor disse: lá na sua peça quando alguém fala em “peido”… Foi lá que o meu aluno ficou mexido.
Acontece que, justamente na primeira fala do texto, na primeira deixa dita pelo personagem WB, aparece o tal peido, em forma verbal: “Foi você que peidou?”
Ou seja, o aluno do professor, já na primeira linha da peça, encontrou uma grande razão lingüística para se distanciar do trabalho.
Eu devia ter seguido as recomendações do word em que escrevo, que sempre lança uma chatíssima cobrinha vermelha por baixo da palavra peido, indicando alguma forma de erro, assim que eu acabo de escrevê-la em meu computador.
Computadores, como o aluno do professor, pelo jeito, não gostam de palavrões.
Então o professor perguntou: qual a razão dos palavrões?
Por alguns segundos, eu não entendi a pergunta e guardei silêncio. Não sei se foi o tom em que ela foi proferida, se não entendi a interrogaçãono final da frase, o fato é que fiquei um tempo mais abobalhado do que o normal.
Então, só pude dizer o óbvio. Todas as palavras são bonitas. Todas as palavras estão aí pra ser usadas. E, mais importante, todas as palavras usam a gente.
Disse um pouco mais: escrevo teatro e, no teatro, cada personagem fala de um jeito. E não fala necessariamente do jeito que a gente acha que ele deve falar. Já imaginou se todo professor falasse, o tempo todo, como professor, ou um aluno como aluno? Ou um anjo, como um anjo?
Assim, quem sabe um filósofo fugitivo, judeu durante a segunda guerra, num quartinho de hotel barato, sozinho, com medo de ser mandado de volta para um país ocupado pelos nazistas, depois de umas cervejas e de um sonho com sonhos estranhos, e que tem a impressão de que joga xadrez com um anjo torto, quem sabe, repito, esse sujeitinho sem profissão definida, cansado, e estranhamente bem humorado, na intimidade, talvez usasse a palavra peido ao sentir que o tal anjo, seu companheiro, realmente peidou? Ou, talvez, para esconder que, quem sabe, foi ele, e não o anjo, o autor do tal peido – que só não fede mais que a situação em que ele, e todos naquele continente, naquele exato momento, se encontram…
Talvez…
O professor argumentou que há sinônimos. Flato, por exemplo, de flatulência. Já imaginou o nosso personagem soltando um “Foi você que soltou um flato?”
Confesso que algum personagem, em alguma situação, talvez falasse assim. Talvez um certo aluno de um certo professor, ou um professor de um certo aluno. Talvez fosse melhor ficar calado e torcer para ninguém notar ou comentar o peido.
O professor disse então que seu aluno comparou minha peça com Plínio Marcos. Considerei grande elogio o comentário e ainda emendei: e olha que ele nem assistiu outras peças minhas, que, aí sim, tem palavrão para ca…ramba.
Aliás, meus filhos, duas crianças de 5 e 7 anos, afirmaram que o que mais gostaram na peça foram justamente as cenas do peido e do puta que o pariu. Tudo bem. Eles peidam bastante e com alegria, como a maioria das crianças. E o puta que o pariu… Bem… A cena é mesmo engraçada e… Eles são meus filhos… E, como já disse, gosto muito de todas as palavras.
Entre elas, gosto muito de pirilampo, bergamota, pitanga, bunda (e aqui o word novamente coloca a tal cobrinha debaixo da palavra).
É. Escritores são uns coitados. Em outras palavras, escritores sempre se fodem. Com palavrinhas, palavras e palavrões.