Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

31.10.08

Abraço

Ele nunca mais ligou. Nem no aniversário, nem no Natal, nem no Ano Novo. Eu continuei ligando nessas e em outras datas, mas o telefone sempre chamava, chamava, sem que alguém atendesse. Os e-mails jamais voltaram. Cartas não foram respondidas. Se ele atravessou o oceano e pisou novamente neste continente, nunca fiquei sabendo. Se parou na rua em frente ao meu prédio e passou uma hora debaixo da janela, não passa de especulação. Não posso dizer que não lembro o porque de nossa briga, ou que não lembro da briga em si, do tom da sua voz, da crispação em seu rosto, do seu olhar. Não posso dizer quase mais nada, um pouco por vergonha, um pouco por mero esquecimento. Confesso que a vertigem desse desencontro deu o que pensar. Até que eu abraçasse o desamparo.

criado por ciadaobesidade    17:35 — Arquivado em: Sem categoria

30.10.08

Palavra, palavrinha, palavrão

O professor disse que seu aluno de pós em escrita criativa foi ver minha peça. Também disse que o seu aluno gostou muito da peça, até o momento em que, na peça, aparecem palavrões. O professor não assistiu à peça.

Imediatamente pensei no “puta que o pariu” que aparece lá pelo meio da peça, no final de uma canção. Demorei a encontrar outros. Lembrei da frase “escritores sempre se fodem”. Pensei: pelo menos o aluno do professor aproveitou meia peça.

Aí o professor disse: lá na sua peça quando alguém fala em “peido”… Foi lá que o meu aluno ficou mexido.

Acontece que, justamente na primeira fala do texto, na primeira deixa dita pelo personagem WB, aparece o tal peido, em forma verbal: “Foi você que peidou?”

Ou seja, o aluno do professor, já na primeira linha da peça, encontrou uma grande razão lingüística para se distanciar do trabalho.

Eu devia ter seguido as recomendações do word em que escrevo, que sempre lança uma chatíssima cobrinha vermelha por baixo da palavra peido, indicando alguma forma de erro, assim que eu acabo de escrevê-la em meu computador.

Computadores, como o aluno do professor, pelo jeito, não gostam de palavrões.

Então o professor perguntou: qual a razão dos palavrões?

Por alguns segundos, eu não entendi a pergunta e guardei silêncio. Não sei se foi o tom em que ela foi proferida, se não entendi a interrogaçãono final da frase, o fato é que fiquei um tempo mais abobalhado do que o normal.

Então, só pude dizer o óbvio. Todas as palavras são bonitas. Todas as palavras estão aí pra ser usadas. E, mais importante, todas as palavras usam a gente.

Disse um pouco mais: escrevo teatro e, no teatro, cada personagem fala de um jeito. E não fala necessariamente do jeito que a gente acha que ele deve falar. Já imaginou se todo professor falasse, o tempo todo, como professor, ou um aluno como aluno? Ou um anjo, como um anjo?

Assim, quem sabe um filósofo fugitivo, judeu durante a segunda guerra, num quartinho de hotel barato, sozinho, com medo de ser mandado de volta para um país ocupado pelos nazistas, depois de umas cervejas e de um sonho com sonhos estranhos, e que tem a impressão de que joga xadrez com um anjo torto, quem sabe, repito, esse sujeitinho sem profissão definida, cansado, e estranhamente bem humorado, na intimidade, talvez usasse a palavra peido ao sentir que o tal anjo, seu companheiro, realmente peidou? Ou, talvez, para esconder que, quem sabe, foi ele, e não o anjo, o autor do tal peido – que só não fede mais que a situação em que ele, e todos naquele continente, naquele exato momento, se encontram…

Talvez…

O professor argumentou que há sinônimos. Flato, por exemplo, de flatulência. Já imaginou o nosso personagem soltando um “Foi você que soltou um flato?”

Confesso que algum personagem, em alguma situação, talvez falasse assim. Talvez um certo aluno de um certo professor, ou um professor de um certo aluno. Talvez fosse melhor ficar calado e torcer para ninguém notar ou comentar o peido.

 

O professor disse então que seu aluno comparou minha peça com Plínio Marcos. Considerei grande elogio o comentário e ainda emendei: e olha que ele nem assistiu outras peças minhas, que, aí sim, tem palavrão para ca…ramba.

Aliás, meus filhos, duas crianças de 5 e 7 anos, afirmaram que o que mais gostaram na peça foram justamente as cenas do peido e do puta que o pariu. Tudo bem. Eles peidam bastante e com alegria, como a maioria das crianças. E o puta que o pariu… Bem… A cena é mesmo engraçada e… Eles são meus filhos… E, como já disse, gosto muito de todas as palavras.

Entre elas, gosto muito de pirilampo, bergamota, pitanga, bunda (e aqui o word novamente coloca a tal cobrinha debaixo da palavra).

É. Escritores são uns coitados. Em outras palavras, escritores sempre se fodem. Com palavrinhas, palavras e palavrões.

criado por ciadaobesidade    18:20 — Arquivado em: Sem categoria

24.10.08

Ladeiras

 

Foi logo depois que passou pela catraca, terminando mais uma noite de trabalho. Um pouco depois da conversa com o chefe, do minucioso relatório que o chefe aprovou com a cabeça. Começou com uma cólica no baixo ventre, enquanto descia a ladeira rumo ao metrô. Achou que passava. Como uma cobra que seguisse pelos meandros do seu intestino, a cólica teimou em continuar. Bambeou. A estudante que vinha subindo a ladeira, no sentido oposto, deve ter pensado que era um dos bêbados da noite. Ele tentou apressar o passo, mas as pernas não respondiam. Cada passo era um custo. Parou um instante. Respirou fundo. A cólica deu sossego. Inspirou e continuou a jornada, chegando ao vale. Um guarda noturno ouvia Stones num radinho. Agora começava a subida. Tentou acelerar. A cólica voltou, agora com uma suspeitíssima contração esfincteriana. Ai, meu Deus! Foi tudo o que passou pela sua cabeça. Começou a suar. Em poucos passos sua camisa estava empapada. Apelou para uma força interior. Mas o ímpeto de seus intestinos parecia indomável. Rezou um pai nosso. Uma avemaria. Agradecia cada novo passo. Sobrados dormindo, nenhum boteco, nenhuma moita ou canto suficientemente escuro. Outros trabalhadores também caminhavam para o metrô. Puxou o bilhete único e venceu mais uma catraca. Pegou seu trem mordendo os lábios. Trancava a saída com muito esforço, mas também com confiança em seu sucesso. Afinal, quantas vezes não vencera acessos similares a esse na vida? Mas acontece que a tal sensação, a cada minuto, mais se diferenciava de desarranjos anteriores. Fez baldeação no Paraíso. Só mais algumas estações, meu pai! Embora desejasse chegar à Vila Madalena, resolveu descer na Consolação. Achou mais apropriado. Desceu do trem e foi cambaleando como dava. As cólicas ficaram ainda mais intensas. Sentiu que o fim se aproximava. Que não havia força de vontade suficiente no mundo. Então, sem dar a mínima bola para seus esforços, rezas e pedidos, a diarréia simplesmente dominou seu corpo. As fezes saindo, sem controle. Sentiu um alívio. Mais que nunca, desejou um bar, boteco, padaria. Enquanto as escadas rolantes subiam, veio mais uma cólica com um jato. Pensou que aquela cueca, pelo menos, aquela cueca já era. Será que a calça também? Queria arrancar toda a roupa e jogar tudo num lixo. Tomar um banho. Mais um pouquinho de merda. E a rua que nunca chegava. Quando emergiu do metrô e chegou à esquina da Paulista com a Augusta, chorava, soluçando, com altos ganidos.

 

criado por ciadaobesidade    12:08 — Arquivado em: Sem categoria

20.10.08

jogo de espelhos

"Nossa! Adorei o Zibarro!! Se o Zibarro é um espelho do Bizarro que é espelho do Super-Homem, o Zibarro é o Super-Homem! Hum, gostaria de saber o que acontece depois que eles se encontram. Dá pra continuar a história?? Hehehe. Abração!! "

Comentário do Marcelo a post de semana passada

 

Sinto informar, mas o Zibarro não é o Super-Homem. Se o Bizarro é a imagem distorcida do Super-Homem, o Zibarro é a imagem distorcida do Bizarro. Imagino que a coisa siga assim, ao infinito, de bizarrice em bizarrice, como quando estamos entre dois espelhos, e vemos, dentro deles, infinitas dimensões. Por exemplo, quando eu era moleque e meu pai me levava pra cortar o cabelo na barbearia do Macalé, com as paredes espelhadas, eu sentava na cadeira e mirava à minha frente infinitos lugares que gostaria de visitar, sem falar nos infinitos sujeitos que cortavam cabelos, nos inúmeros barbeiros, no sem número de pais incrivelmente parecidos conosco e que povovam aquele jogo de espelhos. Anos depois, conheci a obra da poeta Ana Akhmátova que, na antiga União Soviética, navegava sua melancolia na Sala Branca, abarrotada de espelhos, em todas as direções, lançando sua alma atormentada na vertigem que ela maravilhosamente derramava em seus poemas.  No nosso caso, mais modesto, com Bizarro e Zibarro, sem esquecer do Super-Homem, talvez estivéssemos entre um espelho comum e outro convexo (ou côncavo, sei lá, não entendo nada de física, embora saiba que esses conhecimentos seriam fundamentais para desenvolver este texto e que, talvez, em algum daqueles mundos de espelho que um dia mirei, algum dos meus reflexos talvez fosse um físico, mesmo que medíocre, mais ou menos como eu, agora, escriba mequetrefe teclando estas linhas). Assim, ousaríamos enxergar uma miríade de dimensões nos reflexos, cada uma delas diferente da anterior. Se pudéssemos entrar em um dos espelhos, o da nossa frente, por exemplo, e seguir de dimensão em dimensão, talvez, um dia, reencontrássemos, nos mínimos detalhes, o Super-Homem, o que provaria que sempre navegamos em um universo circular, onde tudo não passa de imagem  e de imagem da imagem, como costumava supor aquele escritor argentino cego, e ainda restaria responder o que é, enfim, original, ou se tudo depende do ponto de vista ou do que, arbitrariamente, determinamos como ponto de partida ou ponto final.

criado por ciadaobesidade    19:12 — Arquivado em: Sem categoria

metamorfoses

Quanto tempo? Uns 25 anos. Eu tinha entrado na ECA, pra fazer Jornalismo, noturo. Um pivete com 17, morava perto do Brooklin, dois ônibus pra ir, dois pra voltar. Não tinha muita cabeça. Gostava dos amigos, (alguns amigos até hoje), de algumas aulas (algumas ainda me ensinam até hoje), de fazer karatê no CEPEUSP, de tomar lanhces na EAD.

Escola de Arte Dramática. A mítica escola de teatro, que forma gerações e gerações dos melhores atores do país. Bloco C da ECA. Lugar onde eu mesmo, quase 10 anos depois, estudei (só que de dia, na Cênicas da ECA). Naquelas noites, antes da auls de jornalismo, eu ia até a minúscula lanchonete da EAD e comia uma torta de frango e um suco de caju. Aproveitava pra babar naqueles atores e atrizes que passavam brilhando, ensaiando suas peças.

Numa daquelas noites, aproveitei pra assistir à estréia de um dos espetáculos, desses de conclusão de semestre de uma turma. Sala preta do Bloco C, sentado no chão, fui ver LAÇOS. O elenco, dirigido por Odavlas Peti, realizava ousadíssimo trabalho a partir do livro poético-teórico do anti-psiquiatra Ronald Laing.

Bom, sabe aqueles momentos que mudam sua vida?

Foi  por aí. Até hoje lembro do começo da peça. O primeiro poema, que abre o livro de Laing. E a primeira canção da peça: eles estão jogando o jogo deles…

Vamos à citação quase completa: "eles estão jogando o jogo deles, eles estão jogando o jogo deles, estão jogando o jogo de não jogar o jogo, eles estão jogando o jogo deles, se eu lhes mostrar que os vejo qual estão, estarei quebrando as regras do jogo e receberei a minha punição…  (agora a citação não é mais literal) então eu devo é jogar o o jogo de não jogar o jogo… E por aí vai… Ou ia!

Numa palavra: caralho!

Aquelas palavras, aquele jogo de palavras, encarnado naqueles belos corpos jovens, naquele suor, naqueles jogos cênicos, na canção do Raul… Metmorfose ambulante… Que fechava o trabalho!!!

Tudo muito anos 80, pré-Aids, pré-neo-turbo-liberalismo!!!

O espetáculo fez imenso sucesso, muitas temporadas fora da ECA. Eu acompanhei todas.

Até hoje, quando converso com alguém das áreas de cênicas ou de psico com quarenta e poucos e que vivia em SP, difícil essa pessoa não ter trombado com Laços.

Aquilo era forte, era libertador, era estimulante, era sexy.

Quanta utopia dos 80 não encontrava ali configuração…

Hoje somos senhoras e senhores razoavelmente bem postos…

Os laços estão tão fortes…

Como desfazer alguns deles?

 

 

criado por ciadaobesidade    15:22 — Arquivado em: Sem categoria

16.10.08

Sutra

 

A fieira de pérolas dançando ao redor to teu pescoço. O carmim nas maçãs do teu rosto. O desenho vinho dos lábios. O contorno negro dos olhos. O semblante tranquilo. Os aromas dos incensos e dos óleos. As pulseiras de marfim. As unhas longas. Os desenhos dos cachos dos cabelos. O tapete grosso e as almofadas de cetim laranja. O breu da noite lá fora. O cesto de frutas. Os copos ainda cheios. A amiga que apóia teu dorso. Os corpos que se abrem como flores. O engate tenso. A postura exata e elástica. Quadris que deslizam no regato do tempo.

 

criado por ciadaobesidade    20:46 — Arquivado em: Sem categoria

10.10.08

Toques

 

Palavras sobre o Anjo

 

*

O colega chegou pra mim no canto da sala dos professores e disse: jamais vou esquecer uma frase da peça, "a alegria é uma construção." Assinou o ponto e foi continuar sua obra.

 

*

Antes que a aula começasse, a aluna comentou: tem um trecho que não me sai da cabeça, um negócio sobre o mal, o bem. "O mal é banal." Emendei: "O Bem também?" E ela, na lata: "Xeque!" Pois é: xeque.

 

*

Meu filho Pedro gostou mais da hora em que o Marcão fala em Puta qui o pariu. Meu filho João adorou quando falamos em "pum."

 

*

O Fábio disse que, pela ordem, gostou mais dessa minha peça, depois vem Comendo Ovos, depois Gordas, depois Sexo Oral. Acho que estou melhorando.

 

*

O Mark leu a última rubrica, lá em Londres, e mandou e-mail: "Aaaaaaaaaargh!".

 

*

Um colega fez silêncio de sentença. Outro só deu tchauzinho de longe. A bibliotecária agora quase me ignora.

 

*

Um grande amor abriu um sorriso também gigante e veio conhecer meus meninos.

 

*

Teve um aluno meu que riu muito, muito, depois de cada deixa. Pretendemos contratá-lo.

 

*

A Lúcia mandou e-mail: gostei muito.

 

*

O pessoal do Centro não entendeu a pegada, pois a casa foi lotando, lotando, eles nunca tinham visto isso em eventos assim. Foi bonito. Eles agradeceram. Disseram que gostaram muito do trabalho.

 

*

Veio um frequentador do Centro, espectador, não conhecia, e disse com rosto radiante: "quem dera os homens, ao invés de destruir as coisas e fazer guerras, se dedicassem a criar. Assim."

 

*

A Walderez achou meu melhor texto. O mais complexo. E me deu um livro.

 

*

Também ganhei tantos abraços e beijos e carinhos que me deixaram muito, muito feliz.

 

*

Teve quem nem respondeu ao convite. Uns vieram com desculpas esfarrapadas. Outros com boas desculpas.

 

*

A Lu não só curtiu como depois foi comer pizza com a gente. E vai trabalhar logo conosco.

 

*

A família do Dill foi. A irmã, duas vezes.

 

*

A filha linda do Marcão também.

 

*

O Doni me deu um livro lindo e raro com um Prometeu.

 

*

O carinha do som perguntou: "de quem é o texto?"

 

*

A Dina mandou uns e-maisl de anjo da guarda.

 

*

Viva Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Franz Kafka, todos os deuses do teatro e os corações de cada um da nossa platéia.

 

Um beijo pra Rita.

 

Valeu!

 

criado por ciadaobesidade    19:24 — Arquivado em: Sem categoria

Amnésia Irreversível

Já tem uma semana. Já passou, passou. Como foi mesmo? Nosso Anjo da História fez dois pousos breves lá no Centro de Cultura Judaica e já partiu. Ainda não sabemos quando e onde dará novamente o ar da graça.

E foi uma graça. Catorze meses de labuta. Isso sem contar a elaboração do projeto que ganhou prêmio do CCJ. Nem falar que a matriz da cena veio lá da minha primeira peça, há 16 anos.

Quanto tempo leva pra fazer uma peça?

Toda uma experiência sintetizada em 50 minutos diretos, sem cortes. Tempo contínuo, meticulosamente elaborado… E já passou… Passou.

Lembro daqueles dois filmes, Amnésia e Irreversível.

Do Amnésia não lembro bem. Apropriado. Outro dia, em conversa com alunos, um disse que, no DVD, há uma versão do filme "de frente pra trás". Disse que perde toda a graça. As revelações da memória. Aquilo que ela esconde.

Lembro mais de Irreversível. Filme-porrada. O tempo destrói tudo, diz a epígrafe. Então, magistrais sequências, aterradores blocos de tempo também montados de trás pra frente. Cinema é tempo esculpido, já disse Tarkovski. Irreversível é paradoxo sobre o tema.

Vivemos tanta ansiedade, tanta expectativa, tanto trampo para chegar nas duas apresentações do Anjo. Trabalhamos como monjes. E como viciados em pôquer uivando num cassino. Tudo ou nada, sempre. Tudo e nada, agora. Passou.

Teatro é efêmero. Como seu duplo, a vida.

Tivemos um público muito bonito. Amigos. Amores. Abraços. Comentários carinhosos. Silêncios e esquecimentos. Tudo também devidamente tragado pelo tempo.

Temos o filme. Temos o texto. Indícios do encontro. O aqui e agora que benjamin tanto exaltava, e que o teatro ainda celebra.

O lusco-fusco da memória e dos afetos. Esperança e nostalgia. Não a vida eterna, mas a eterna vivacidade do agora, como pedia Nietzsche.

E tudo passa, tudo passará…  Como na canção brega e nos romances baratos.

 

criado por ciadaobesidade    11:05 — Arquivado em: Sem categoria

Bizarro

 

Fui contar história na escola do meu caçula. Ele pediu uma do Super-Homem. Não uma qualquer. Mas a do Super-homem bizarro. O Super-homem bizarro vem do planeta bizarro. Lá tudo é bizarro. Tudo é estranho, diferente. No caso do mundo bizarro do nosso Super-homem bizarro, tudo é quase um espelho do tudo do nosso mundo. Só que um pouco distorcido. Então, nosso mundo é meio redondo, um tipo de uma bola. O mundo bizarro é bem quadrado. Um cubo. Se o nosso Super-Homem é um herói, um cara legal, sempre de bom humor, o bizarro não chega a ser um vilão, mas é um sujeito invocado, que está sempre detruindo alguma coisa. Se o nosso Super diz "bom dia!", o bizarro diz "mau dia!". Onde o nosso diz "Hoje estou tão feliz", o bizarro manda "eu estou muito infeliz!". O Super-Homem vive de fazer boas ações. O bizarro vive quebrando as coisas. Não que ele seja um sujeito mau, no nosso sentido do mau. Ele é mau, mas lá no planeta dele mau é bom. Bom. Está ficando complicado? O bizarro é complicado mesmo. Bem mais complicado que o Super-Homem. E se eu te disser que numa aventura o Super vai parar no planeta bizarro e lá encontra, nada mais, nada menos (ou nada menos, nada mais) do que o bizarro do Bizarro: o Zibarro. O mais solitário dos seres que vivem no planeta Bizarro. Ninguém entende o Zibarro. O Zibarro é um espelho do Bizarro que é um espelho do Super-Homem. Ou será o contrário?

 

 

criado por ciadaobesidade    9:27 — Arquivado em: Sem categoria

9.10.08

A carta

 

Franz deixou o volume magro na mesinha, ao lado da poltrona do pai. Era seu primeiro livro publicado? A memória é disco com riscos, fica engasgada num ponto e o que veio antes, o que vem depois,  tudo fica coagulado numa espécie de gemido - gemido entre arranhões. O pai disse que leria a obra. Leu? Passou os olhos? Fez algum comentário enquanto ruminava a janta? Ou foi contaminando a casa com silêncio, como se tivesse esquecido a torneira da banheira aberta e a água fosse engolindo tudo, tudo, até que não houvesse canto livre da camada fina, da película rançosa, um pântano raso onde as sombras dos móveis escondiam serpentes e crocodilos. Então, Franz resolveu escrever a carta. Começou como quem cava uma represa, pensando em achar um oco para escoar toda aquela enxurrada. Aos poucos, viu que erguia uma muralha, rabiscando páginas e páginas para o pai e secando os ossos à luz quase incendiária das palavras. Botou o calhamaço num grande envelope e deixou-o exatamente no mesmo lugar onde, um tempo antes, colocara seu livro. Não tocou mais no assunto. 

 

 

criado por ciadaobesidade    19:32 — Arquivado em: Sem categoria

Posts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://cronicasdecelsocruz.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.