Nos dias 02 e 04 de outubro, no Centro de Cultura Judaica de São Paulo, na R. Oscar Freire, ao lado do Metrô Sumaré, acontece a estréia do espetáculo O Anjo da História, que escrevo e dirijo. Uma quinta e um sábado, às 20h30, grátis.
Na peça, o filósofo Walter Benjamin encontra uma criatura, o anjo da história, na fronteira entre a França e a Espanha, no verão de 1940. Arte. Política. Amor. Marx. Palestina. Xadrez. Um grande jogo para o qual todos vocês estão convidados.
Os atores são Marcos Suchara e Dill Magno, que quem conhece meu trabalho teatral sabe que são velhos, eternos, sempre novos parceiros e irmãos (em espetáculos como Licurgo e Só As Gordas São Felizes…). Os dois estão até o talo na jogada, belos, inteiros, vocês precisam ver!
O Anjo da História é o resultado do prêmio que ganhamos no ano passado no CCJ, de Montagem Teatral.
Só de texto, já foram 25 versões. Ralação pura. Segue texto atual do começo da peça (quem acompanha o blog pode pegar a primeira versão desse texto em posts do ano passado).
Bjs e até lá.
1. Cabaré dos Patzers.
Gregor:
Boa noite, senhoras e senhores.
Em vossos tempos cintilantes,
ninguém cultiva a memória de ninguém.
Reis, damas, bispos e cavalos,
artistas, líderes, amantes e profetas…
Mal cada astro ocupa casa do tabuleiro,
não importam o afã de vitória,
a estratégia vã,
a defesa, o ataque, o sacrifício…
Vem logo o golpe mortal e o precipício.
Senhoras e senhores,
a noite é longa?
É preciso esvaziar a mesa.
Amanhã, cedinho,
novas peças tentarão a sorte
no torneio.
Então eu me pergunto:
se em vossos tempos cintilantes,
esse é o destino das estrelas,
o que dizer então dos azarados,
dos perdedores e fracassados,
dos assassinos e suicidas,
peões descartados nas primeiras jogadas
da partida?
Antes, portanto, do advento
da vertigem do esquecimento,
convido os senhores e as senhoras
a uma visita en passant a este singelo quarto
onde dormita agora um sujeitinho
sem profissão definida.
Filósofo? Crítico? Comedor de haxixe?
Se bem me lembro Walter Benjamin
coleciona livros,
gastando o que tem e o que não tem,
rabisca em jornais e guardanapos,
pensando em anjos e crianças,
anões e marionetes
e nos amigos que lhe restam.
Verão. 1940. Uma fronteira.
Naco de madrugada na janela.
Desejo a todos uma bela dose de
iluminações profanas.
Uma trilha de rosas
semeada de pensamentos.
Ao mesmo tempo, lembro
que a vós, como aos peões,
só é possível caminhar para frente.
O jogo vai começar.