Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

30.9.08

O Homem Vestido de Linho

Terça-feira. Daqui a pouco, nosso último ensaio antes do dia da estréia. Antes de entrar no teatro, montar cenário, luz, etc. Afinações. Tempo da delicadeza, deitada sobre o ritmo - ontem, enfim, conquistado. Dill e Marcão em sintonia, olho no olho - e rabinho do olho na platéia. A trilha ficou bonita, tem Weil, Part, Cage. Hoje, muito trabalho pela frente. Coisas pra comprar: colchão, lençóis… Pegar os óculos! Tudo vai se encaixando. O programa vai ficar lindo, graças ao maravilhoso trabalho do pessoal do Centro de Cultura Judaica. Aliás, eles têm sido perfeitos. Gentis. Generosos. Quinta estaremos lá pra mostrar tudo isso pra vocês. Apareçam.

Beijos,

Celso

"Anjo! Do grego, angelos, mensageiro. Os gregos nos consideravam daemons, almas, demônios. O responsável pela execução do destino de cada ser humano. Já para os islâmicos, Mala’ika. Ou o Homem Vestido de Linho, para alguns judeus."

 

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29.9.08

Vai encarar?

 

Esse bater de asas. Esse barulhinho. Lá longe. Ele vem chegando. O nosso anjo. O Anjo da História.

"O xadrez é uma guerra sem derramamento de sangue onde o objetivo é compreender."

 

Centro de Cultura Judaica, dias 02 e 04 de outubro. Quinta e sábado. 20h30. R. Oscar Freire, ao lado do metrô Sumaré.

 

GRÁTIS

 

 

O ANJO DA HISTÓRIA

 

Um espetáculo da Companhia do Cão

com Dill Magno (direita) e Marcos Suchara

Texto e direção: Celso Cruz.

 

Venha encarar.

 

criado por ciadaobesidade    16:34 — Arquivado em: Sem categoria

26.9.08

O Anjo Estréia

 

Queridos amigos, aguardo todos lá, no Centro de Cultura Judaica, quinta e sábado, 20h30, totalmente grátis, na estréia do Anjo da História.

Beijos, Celso.

criado por ciadaobesidade    11:04 — Arquivado em: Sem categoria

24.9.08

Ligação a cobrar

 

Sabe o que é, moça, ontem perdi meu celular e só fui perceber hoje na hora que me arrumava pro trabalho. Procurei em tudo que é bolso, revi cada passo do caminho, liguei do fixo e fiquei esperando um barulhinho em algum canto. Deixei recado com número de casa. Procurei no cesto de roupa suja, nas gavetas das crianças, debaixo do banco do carro. Então corri pra loja da Vivo pra bloquear o aparelho e pegar outro. Acontece que o viado que achou meu celular ficou ligando pra caralho, moça. Pra um monte de moças. Sei. Você vai dizer que não conhecia ele, que ele ligou ontem, disse que era engano, depois ficou ligando, dizendo monte de gracinhas. Sei. Mas nem precisa. Você não foi a única. Olha. Desculpa se isso vai te magoar, mas ele foi com a mesma história pra cima dum monte de menina. Só mudava o nome. Paulo. Fernando. Pra você ele disse que chamava Fernando. Então, já ligaram três moças procurando o Fernando. O cara deve ser bom de papo, né, se não vocês não estavam ligando de volta. Não, não sei do Fernando. Nem do Paulo. Nem do Rick e nem do Renner. Muito menos do Daniel. É. Esses foram alguns dos nomes. Ele ficou ligando pro seu trabalho? Incomodou um bocado? Pode ficar sossegada que passou. Não sei se era maníaco. Aí depende do que você falou pra ele. Se deu nome e endereço. CEP. Lugar que trabalha. Sei, você não falou nada que é moça séria, tem mãe doente e não pode ficar atendendo telefone no serviço. Por isso é que agora ligou a cobrar pro Fernando, né? Sei. Ele tinha voz do quê? De malandro? Malandro velho ou malandro novo? Uma voz assim que nem a minha? Malandro velho, com certeza. É. Ele não liga mais, pelo menos desse número. Fique tranqüila. Ou não, vai saber. Se ligar, pede pra ligar pra mim. Pra bater um papo de malandro pra malandro.

 

criado por ciadaobesidade    16:40 — Arquivado em: Sem categoria

19.9.08

Anjo da História - Um convite

 

Nos dias 02 e 04 de outubro, no Centro de Cultura Judaica de São Paulo, na R. Oscar Freire, ao lado do Metrô Sumaré, acontece a estréia do espetáculo O Anjo da História, que escrevo e dirijo. Uma quinta e um sábado, às 20h30, grátis.

Na peça, o filósofo Walter Benjamin encontra uma criatura, o anjo da história, na fronteira entre a França e a Espanha, no verão de 1940. Arte. Política. Amor. Marx. Palestina. Xadrez. Um grande jogo para o qual todos vocês estão convidados.

Os atores são Marcos Suchara e Dill Magno, que quem conhece meu trabalho teatral sabe que são velhos, eternos, sempre novos parceiros e irmãos (em espetáculos como Licurgo e Só As Gordas São Felizes…). Os dois estão até o talo na jogada, belos, inteiros, vocês precisam ver!

O Anjo da História é o resultado do prêmio que ganhamos no ano passado no CCJ, de Montagem Teatral.

Só de texto, já foram 25 versões. Ralação pura.  Segue texto atual do começo da peça (quem acompanha o blog pode pegar a primeira versão desse texto em posts do ano passado).

Bjs e até lá.

 

1. Cabaré dos Patzers.

Gregor:

Boa noite, senhoras e senhores.
Em vossos tempos cintilantes,
ninguém cultiva a memória de ninguém.
Reis, damas, bispos e cavalos,
artistas, líderes, amantes e profetas…
Mal cada astro ocupa casa do tabuleiro,
não importam o afã de vitória,
a estratégia vã,
a defesa, o ataque, o sacrifício…
Vem logo o golpe mortal e o precipício.
Senhoras e senhores,
a noite é longa?
É preciso esvaziar a mesa.
Amanhã, cedinho,
novas peças tentarão a sorte
no torneio.
Então eu me pergunto:
se em vossos tempos cintilantes,
esse é o destino das estrelas,
o que dizer então dos azarados,
dos perdedores e fracassados,
dos assassinos e suicidas,
peões descartados nas primeiras jogadas
da partida?
Antes, portanto, do advento
da vertigem do esquecimento,
convido os senhores e as senhoras
a uma visita en passant a este singelo quarto
onde dormita agora um sujeitinho
sem profissão definida.
Filósofo? Crítico? Comedor de haxixe?
Se bem me lembro Walter Benjamin
coleciona livros,
gastando o que tem e o que não tem,
rabisca em jornais e guardanapos,
pensando em anjos e crianças,
anões e marionetes
e nos amigos que lhe restam.
Verão. 1940. Uma fronteira.
Naco de madrugada na janela.
Desejo a todos uma bela dose de
iluminações profanas.
Uma trilha de rosas
semeada de pensamentos.
Ao mesmo tempo, lembro
que a vós, como aos peões,
só é possível caminhar para frente.
O jogo vai começar.

criado por ciadaobesidade    9:25 — Arquivado em: Sem categoria

12.9.08

Tempo

 

Essa lágrima gorda que caiu sobre a pauta do caderno, manchando a escrita azul, meticulosa, foi susto com o agora ou o retorno de um lusco-fusco antigo, uma fotografia lá da infância, que, de repente, emergiu de uma gaveta da qual você nem lembrava?

Você rabisca garranchos barulhentos, sem olhar pros lados. O passarinho canta fora da cozinha. A mãe liga o rádio num desses programas da tarde. A cafeteira borbulha. Ela confere o bolo que cresce no forno.

Parece que você saiu da cena e viu tudo como no cinema, viu tudo de um canto encalacrado do futuro, tudo como se já não fosse. Ou, sem sair da cozinha, você intuiu aquele beco de onde, um dia, mirará o que era.

Aí a gota caiu.

 

criado por ciadaobesidade    16:46 — Arquivado em: Sem categoria

9.9.08

Karl Marx

 

O rapaz foi direto ao balcão no fundo do sebo e, curto e grosso, pediu informações para a atendente.

- Marx.
- Quem é o autor?
- Karl Marx.
- Max. De Cal Max. Procura na Letra C, de Cal.
- Karl, com K. E tem um R também. KaRRRRl.
- Karrrl, com K. Procura na letra K.
- O que é que você tem?
- Eu? Nada.
- Digo: do Karl, do Karl Marx.
- Além do livro Max?
- Marx. De Karl Marx.
- Além do livro Marx.
- Marx não é um livro.
- Então por que pediu?
- Marx é o autor.
- O autor é Karl Marx. Com K. E vários Rsss.
- Isso.
- E você não quer o livro Marx de Karl Marx.
- Ele não escreveu o livro Marx.
- Quem, afinal, escreveu o livro Marx?
- Ninguém. Ninguém escreveu.
- Então por que pediu?
- Eu não pedi.
- Pediu, sim.
- Pedi livro do Marx, do Karl Marx.
- Não pediu, não.
- Então vou pedir.
- Por favor.
- Por favor, você tem livros do Karl Marx?
- Karl com K e R?
- Ele mesmo.
- Marrrrrrx!
- Isso, isso.
- Vê na prateleira. Na letra K.
- Aqui vocês arrumam a prateleira pelo nome do autor?
-Queria que fosse como?
- Normalmente arrumam pelo sobrenome do autor.
- O chefe mandou assim.
- Certo. Vou procurar.
-Deixa que procuro pra você.
- Não precisa.
- Uma gentileza.
- Muito obrigado.

Solícita, a moça percorre prateleiras.

- Não temos no momento nenhum romance de autor com a letra K.
- Ele não escrevia romances.
- Acho que ninguém que tem nome que começa com letra k escreveu.
- Ele era um pensador.
- Grande coisa.
- Um filósofo.
- Quem nem o Chalita?
- Quem?
- Gabriel Chalita. Foi do governo. Escreveu muitos livros. Temos muitos livros do Chalita.
- Não, não é que nem o Chalita.
- O Chalita é da Renovação. Acho. Ouvi falar. Renovação Carismática.
- Você é da Renovação?
- Credo. Sou crente.
- Você gosta do Chalita?
- Acho meio que uma Xuxa com Ch.
- Então por que recomendou?
- Não recomendei. Mas se quiser, pode levar, tem de montão. Letra G. De Gabriel. Que nem o anjo.
- Marx dizia que a religião é o ópio do povo.
- Que é que é ópio?
- Uma droga.
- Droga é esse Max.
-Marx!
- Uma droga, esse Marrrrx.
- Escreveu O Capital.
- Qual Capital? São Paulo?
- Não é disso que ele está falando.
- A Capital, de Marx. Procura em Geografia.
- Esse livro O Capital é a obra capital do Marx.
-Credo, quanta capital do tal do Marx.
- Você devia saber dessas coisas, trabalhando num sebo.
- Sou só funcionária. Trabalhava antes numa indústria.
- Marx escreveu sobre operários.
- Ele trabalhava onde, na Fiat?
- Marx era alemão.
- Na Volks?
- Marx morreu faz tempo.
- Meus pêsames.
- Marx escreveu que o proletariado iria chegar ao poder.
- Não entendi.
- Os operários.
- O Lula chegou no poder. Tá lá faz tempo. Se bobear nem quer sair.
- É verdade.
- Esse Marx já tá meio ultrapassado.
- No tempo dele os operários nem sonhavam com isso.
- Ele era um tipo dum vidente?
- Imagina.
- Ele fundou o PT?
- Quem dera.
- Ele era comunista?
- Isso ele era. O pai da criança.

- Um Matusalém, esse Marx.
- Ele queria a liberdade dos homens.
- E a das mulheres?
- Homem como Ser Humano.
- E a mulher é o quê? Vaca, galinha, cabra?
- Você, afinal, tem livros do Marx?
- Muita vaca, galinha, cabra têm vida melhor que mulher.

- E o Marx?

-Eu, por exemplo. Tenho uma vida bem complicada.

-Estou com pressa.

-Eu vivo com pressa.  Três filhas…

- E o…

- Karrrrllllll Marrrrxxxxx. Tem não. Quer fazer encomenda?
- Não, não precisa.
- Olha que o patrão arranja o que você quiser.
- É mesmo?
- O patrão tem três lojas. Ou então acha na Internet pra você. O patrão tem ligações.
- É?
- Se esse Marx é assim tão importante, capaz dos livros deles valerem uma grana. Você sabe, né, o mercado…
- É.
- Quer deixar telefone ou e-mail?
- Deixa anotar.
- A gente entra em contato.
- Obrigado.
- Pode demorar, mas a gente encontra o Karl Marx.

 

criado por ciadaobesidade    23:05 — Arquivado em: Sem categoria

5.9.08

Texturas

Gostava de calcinhas confortáveis, mãos perversas e pouco papo. Quando um dedo decidido afastava o elástico da pele, dando espaço para que a mão inteira se esbaldasse, ela soltava um risinho sabido e, discretamente, abria um pouco mais as pernas, numa ajuda gentil, em boa hora. Gostava também de lambidas sobre o algodão, mordidas em reentrâncias estratégicas, pudicamente escondidas sob a estampa. Coisinhas pueris e meio bestas: moranguinhos, flores, corações se alastrando pela bunda. Ou dentes roçando a renda, eventualmente, em noites muito específicas, quando, abandonando preferências, escolhia peça cavada, fio-dental, muito mínima. Talvez uma seda. Ao invés de arrancar a lingerie ou deixar que alguém a arrancasse, preferia afastar a borda lateral e, num fluxo gentil, sob o comando das mãos cortesãs, conduzir o outro de encontro a si, curtindo asperezas da coisa.

criado por ciadaobesidade    10:35 — Arquivado em: Sem categoria

2.9.08

Doses

 

O que primeiro via num homem eram as mãos. A última coisa que via num homem também eram as mãos. Entre esses dois olhares, adorava fechar os olhos bem lentamente, mesmo que isso implicasse, muitas manhãs, na casa revirada, azedume na boca, calado a muitas doses de café servido na velha xícara de estimação, que enfim ia se juntar à imensa pilha de louça na pia. Não havia mané para dar uma mãozinha.

 

criado por ciadaobesidade    11:14 — Arquivado em: Sem categoria

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