24.8.08
Tripas
Quem sabe eu tivesse andado descalço por esses quarteirões de calçadas estropiadas, onde cada proprietário remenda o calçamento como quer, inventa rampas e degraus com azulejos bregas e deixa o mato se esgueirar pelas brechas e os bichos comerem as carcaças da árvores, e, nessas andanças, eu tenha pisado no cocô largado ali por puro descaso de uma alma boa que leva seu cão de pelo escovado em pet shop pra passear duas, três vezes por dia e literalmente se caga pro humano que passa, quem sabe, repito, eu tivesse enfiado o pé descalço numa bosta dessas, bem fundo, melhor que um caco de vidro, uma camisinha usada, essas coisas que também largam por aí, talvez, mas quem sabe nessa pisada eu tivesse adquirido algum parasita, algum verme, sei lá, penso, por exemplo, numa lombriga que agora, talvez, se deliciasse com cada porcaria que ingiro nos botecos, ou, quem sabe, uma singela solitária, daquelas enormes, que nem eu via nos frascos do laboratório da escola, lá, na infância, e a solitária fosse devorando minhas tripas, e eu hoje fosse pouco mais que casca, e a mera suspeita desse fato também se instalasse como verme e eu sentisse uma cólica chegando, daquelas certeiras, e, exatamente como agora, eu entrasse na primeira padoca, pedisse a chave do banheiro e pilotasse no cubículo fétido e a diarréia viesse com tudo e eu sentisse, isso mesmo, como agora, um tremendo frio na espinha e, então, olhando pro fundo da privada em busca de vestígio do bicho, essa coisa que, um dia, quando eu fugia do desespero de ficar sozinho, abandonado por um grande amor, descalço, eu talvez tivesse adquirido enquanto ralava minhas solas frias por esses quarteirões de calçadas estropiadas, eu não encontrasse, além da merda mole, absolutamente nada.


criado por ciadaobesidade
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Comentário por Pedro De Luna — 25.8.08 @ 1:26
Pura merda, quer dizer, puta merda!, isso é genial.