19.8.08
Fábula
Nasci no bairro de Pompéia. Meu pai me criou num credo. O Parque Antarctica é minha igreja. O velho me chamou Luisa por causa do Luis Pereira, zagueiro craque dos setenta. Nascesse hoje perigava chamar Valdívia. Por isso garanto que não foi moleza fazer meu maravilhoso bolo de chocolate no formato do escudo do Corinthians. Minha mãe me acusou de herege, o pai queria me deserdar, meus manos cogitaram explodir o botijão de gás. “O que a gente não faz por amor?”, como diz a Marisa Monte. Bem. Ninguém é perfeito. E meu amado padrinho é prova viva que toda regra tem exceção. Que mesmo no maior monte de bosta também brota flor. Depois, amor é loucura, amor é sacrifício, o meu bolo é gostoso pra caralho, o padrinho me ama como eu amo ele e que presente é melhor pro aniversário dele? Levei o bolo no colo, num prato coberto com pano, na ponta do banco de trás do carro, ao lado dos brothers, pai e mãe na frente. Tava um calor danado, o caminho não acabava mais. O destino era um lugar chamava Cipó, o que dá uma idéia da distância. Era curva depois de curva e o bolo ali, trepidando, começou a ficar desconjuntado. A cara escarrada do Corinthians. Uma hora cansei. Pedi pro pai parar o carro e num canto duma encruzilhada, larguei o que restou do bolo, espetei umas velas e acendi. Aí passamos numa padoca e comprei uma rosca.


criado por ciadaobesidade
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