Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

11.8.08

Babylônia

Atendendo a pedido, segue poema Babylônia, do "Livro de Amor, Devoção e Outras Taras" (Ciência do Acidente, 1999).

 

 

Babylônia

 

Querida mamãe,

antes de sair do Presídio Vida,

canto esta canção pra ti.

Antes que os homens cheguem

dá tempo pra maquilage.

Este batom é tão lindo.

Parece os que a senhora tinha.

Eu tava tesuda, agora já era,

a clientela caiu, só chupo pau mole,

é 5 pau o serviço bem feito,

beijin pra minha mamãe mortinha.

Agora eles vêm chegando.

Betem bola no campinho.

Meteu pau no meu cuzinho.

Eu não me sinto bonita.

Desiré dubla na boate

sucessos de todos os tempos,

dançando tocada de uísque,

sonha com seu namorado.

Eles são jovens e lindos.

A cocaína, cadê ela?

Tava na bunda da cadela.

São damas-de-companhia.

Tem identidade?

Eu tenho HIV+.

Faz uma noite linda

quando me encostam no muro.

Cadê a cela?

Seu delegado, me vê uma cerveja.

Agora vendam meus olhos.

Eu tenho direito de aidética.

Quer chupar meu cu?

Põem um chumaço de estopa

na minha boca.

Eu sou a mãe das abominações.

Amei os homens mais lindos.

Babydoll, babydoll, Babylônia.

Quero um cigarro.

Me dá um cigarro.

Me vê um cigarro.

Cigarro, cigarro.

É hora de ir embora.

 

criado por ciadaobesidade    8:45 — Arquivado em: Sem categoria

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