Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

Crônicas de Celso Cruz

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Arquivo de: Agosto 2008

28.08.08

Separações



1.

Então eu dei a mão direita pra ela, que com seus dedos pequenos, de unhas vermelhas lascadas, agarrou meu polegar. Assim, atravessamos a Paulista na faixa para pedestres. Chegando ao Center 3, nos separamos.

2.

Ergueu o indicador como um João Batista do quadro de Leonardo - e com aquele mesmo sorriso besta -, mas apenas roçou uma mecha de cabelo na minha testa. Suspirou, virou as costas, partiu.

3.

Mãos longas e suaves de violonista, com pequenos calos nos dedos, unhas grandes e bem aparadas. Mordeu o cantinho da cutícula do dedo médio e me mandou para a putaquipariu, de onde quem ama jamais devia ter saído.

4.

Já tinha feito de tudo, mas as unhas continuavam roídas quase até metade dos dedos, então tratou de esconder as mãos nos bolsos do casaco do momento em que ele chegou até a hora em que, definitivamente, foi embora.


25.08.08

Época

 

Tanta amora pisada naquele trecho molambento da calçada.
Uma ou outra ainda resiste quase inteira.
Guarda noturno comeu um monte.
Senhor muito distinto chegou a trepar na árvore.
Um pirulão, ali debaixo dos galhos, catou frutinhas pra duas crianças se lambuzarem.
Uma moça parou o carro, desceu e colocou montinho num saco de supermercado.
Veio cachorro lamber o chão todo tinto.
É época.
Árvore quase nua.
Mais umas frutinhas lá em cima.
Algumas ainda verdes, podem dar dor de barriga, dependuradas.
Daqui dessa janela, dessa cama, detrás da máscara, ligado ao tubo, deixo a vermelhidão borrar meus olhos.


24.08.08

Tripas

 


Quem sabe eu tivesse andado descalço por esses quarteirões de calçadas estropiadas, onde cada proprietário remenda o calçamento como quer, inventa rampas e degraus com azulejos bregas e deixa o mato se esgueirar pelas brechas e os bichos comerem as carcaças da árvores, e, nessas andanças, eu tenha pisado no cocô largado ali por puro descaso de uma alma boa que leva seu cão de pelo escovado em pet shop pra passear duas, três vezes por dia e literalmente se caga pro humano que passa, quem sabe, repito, eu tivesse enfiado o pé descalço numa bosta dessas, bem fundo, melhor que um caco de vidro, uma camisinha usada, essas coisas que também largam por aí, talvez, mas quem sabe nessa pisada eu tivesse adquirido algum parasita, algum verme, sei lá, penso, por exemplo, numa lombriga que agora, talvez, se deliciasse com cada porcaria que ingiro nos botecos, ou, quem sabe, uma singela solitária, daquelas enormes, que nem eu via nos frascos do laboratório da escola, lá, na infância, e a solitária fosse devorando minhas tripas, e eu hoje fosse pouco mais que casca, e a mera suspeita desse fato também se instalasse como verme e eu sentisse uma cólica chegando, daquelas certeiras, e, exatamente como agora, eu entrasse na primeira padoca, pedisse a chave do banheiro e pilotasse no cubículo fétido e a diarréia viesse com tudo e eu sentisse, isso mesmo, como agora, um tremendo frio na espinha e, então, olhando pro fundo da privada em busca de vestígio do bicho, essa coisa que, um dia, quando eu fugia do desespero de ficar sozinho, abandonado por um grande amor, descalço, eu talvez tivesse adquirido enquanto ralava minhas solas frias por esses quarteirões de calçadas estropiadas, eu não encontrasse, além da merda mole, absolutamente nada.


Lavadeira

 

Levou levou levou
Água de cheiro levou

Lavou lavou lavou
Lágrima seca de amor

Livrou livrou livrou
Coração teu dessa dor

Lembrou lembrou lembrou
Estrada não acabou

Louvou louvou louvou
Beijo da abelha na flor




22.08.08

Frei Caneca

 


Há muito tempo eu não subia a Frei Caneca. Há mais tempo ainda eu não subia a Frei Caneca às seis e meia da tarde, no lusco-fusco, quando as luzes se acendem, súbitas e profundas como uma inflamação pulmonar, digna de São Paulo, que te faz parar na calçada, de tanto tossir, enquanto a noite cai e os botecos da sexta vão ficando apinhados. Quanto tempo. Digamos uns dez anos. É. Desde aquele tempo em que eu morava na Frei, lá perto do cotovelo com a Caio Prado, no ap que você descobriu e escolheu, onde a gente meio que morou junto, já que a sua casa, a sua casa pra valer, o seu lar, era e continua sendo um pouco mais pra cima, numa travessa que sai da Frei, corta a Augusta, a Hadock, a Bela Cintra (onde aliás você um dia também morou, lá onde começou pra valer aquele nosso caso, em tardes vadias) e vai desembocar na Consolação. Naquele tempo dormíamos quase toda noite no meu ap, que, como eu disse, era meio nosso, você me ajudou na primeira grande faxina depois do aluguel, depois foi você que arranjou faxineira, você que ajudou a comprar os eletrodomésticos e mantinha a geladeira cheia. Subir a Frei Caneca, eu não sabia, ainda é muito perigoso. Foi um acaso, garanto. Juro que eu só queria ver o filme do Batman e que o filme do Batman, o raio do morcego, o puto do cavaleiro das trevas, o filme, em horário decente, que cabia na minha agenda, só estava passando no Shopping Frei Caneca, três e dez. Então eu fui. Saí do trabalho, peguei metrô, desci lá na Paulista com a Augusta e desci a Frei. Foi fácil. Ou quase fácil. A Igreja naquela quina. O mendigo que morava meio que em frente a sua janela continuava lá. Faz dez anos. Na época viviam ali ele e o irmão. Ambos eram mancos, um dos joelhos detonados. Diziam que foi a polícia, em treta de drogas. Eles ficavam por ali, largados, ganhando uma grana como flanelinhas, fazendo uma outra com pequenos delitos, meio que agenciando a garotada. Faz dez anos. Um dia acho que te encontrei em algum canto acho que Augusta e você, acho, você me disse que um dos irmãos tinha morrido. Acho. Um irmão morreu. Foi. Você disse. O outro, constato agora, o outro continua lá. Na Frei. Perto na Igreja. Com seus bicos. Enquanto eu descia, no ponto exato, meus olhos ergueram uma diagonal exótica até a tua janela. Memória muscular, memória emocional, ato reflexo, quando eu me dei conta apertei o passo. E aí veio o filme, que é divertido, é longo, é violento, no fundo, talvez, até careta demais, tudo é caos e acaso e o Batman, no fundo, é um agente do caos, do acaso, a ordem é uma falácia do caos, do acaso. Sei. Vai ver que eu é que sou um conservador. Ou virei. Nesses dez anos. O coringa é o único personagem pra valer. E aquele ator que morreu realmente está demais, principalmente quando sai de um hospital vestido de enfermeira e simplesmente explode tudo. Enfim, fiquei meio deprê. Depois, é foda sair daquele shopping, que tem poucas escadas rolantes, dispersas e confusas. Enfim, subi a Frei e, como uma bomba-relógio, daquelas do coringa, meu coração foi batendo apertadinho, como já disse umas linhas aí pra cima. Um quarteirão inteiro da Frei foi derrubado. Deve sair um condomínio, ou mais um shopping. Quando cruzei de novo sua rua nem virei o rosto e a emoção explodiu, também como as várias do filme. Só que aqui sem artifícios, pra dentro. Chegando na Paulista corri pro Conjunto Nacional (lembra dele? Do nosso começo, do nosso fim, daquela outra crônica?). Passei no quiosque da Viena e comprei a promoção, café com três mini pães de queijo. Peguei o metrô e fui de novo trabalhar.