Há muito tempo eu não subia a Frei Caneca. Há mais tempo ainda eu não subia a Frei Caneca às seis e meia da tarde, no lusco-fusco, quando as luzes se acendem, súbitas e profundas como uma inflamação pulmonar, digna de São Paulo, que te faz parar na calçada, de tanto tossir, enquanto a noite cai e os botecos da sexta vão ficando apinhados. Quanto tempo. Digamos uns dez anos. É. Desde aquele tempo em que eu morava na Frei, lá perto do cotovelo com a Caio Prado, no ap que você descobriu e escolheu, onde a gente meio que morou junto, já que a sua casa, a sua casa pra valer, o seu lar, era e continua sendo um pouco mais pra cima, numa travessa que sai da Frei, corta a Augusta, a Hadock, a Bela Cintra (onde aliás você um dia também morou, lá onde começou pra valer aquele nosso caso, em tardes vadias) e vai desembocar na Consolação. Naquele tempo dormíamos quase toda noite no meu ap, que, como eu disse, era meio nosso, você me ajudou na primeira grande faxina depois do aluguel, depois foi você que arranjou faxineira, você que ajudou a comprar os eletrodomésticos e mantinha a geladeira cheia. Subir a Frei Caneca, eu não sabia, ainda é muito perigoso. Foi um acaso, garanto. Juro que eu só queria ver o filme do Batman e que o filme do Batman, o raio do morcego, o puto do cavaleiro das trevas, o filme, em horário decente, que cabia na minha agenda, só estava passando no Shopping Frei Caneca, três e dez. Então eu fui. Saí do trabalho, peguei metrô, desci lá na Paulista com a Augusta e desci a Frei. Foi fácil. Ou quase fácil. A Igreja naquela quina. O mendigo que morava meio que em frente a sua janela continuava lá. Faz dez anos. Na época viviam ali ele e o irmão. Ambos eram mancos, um dos joelhos detonados. Diziam que foi a polícia, em treta de drogas. Eles ficavam por ali, largados, ganhando uma grana como flanelinhas, fazendo uma outra com pequenos delitos, meio que agenciando a garotada. Faz dez anos. Um dia acho que te encontrei em algum canto acho que Augusta e você, acho, você me disse que um dos irmãos tinha morrido. Acho. Um irmão morreu. Foi. Você disse. O outro, constato agora, o outro continua lá. Na Frei. Perto na Igreja. Com seus bicos. Enquanto eu descia, no ponto exato, meus olhos ergueram uma diagonal exótica até a tua janela. Memória muscular, memória emocional, ato reflexo, quando eu me dei conta apertei o passo. E aí veio o filme, que é divertido, é longo, é violento, no fundo, talvez, até careta demais, tudo é caos e acaso e o Batman, no fundo, é um agente do caos, do acaso, a ordem é uma falácia do caos, do acaso. Sei. Vai ver que eu é que sou um conservador. Ou virei. Nesses dez anos. O coringa é o único personagem pra valer. E aquele ator que morreu realmente está demais, principalmente quando sai de um hospital vestido de enfermeira e simplesmente explode tudo. Enfim, fiquei meio deprê. Depois, é foda sair daquele shopping, que tem poucas escadas rolantes, dispersas e confusas. Enfim, subi a Frei e, como uma bomba-relógio, daquelas do coringa, meu coração foi batendo apertadinho, como já disse umas linhas aí pra cima. Um quarteirão inteiro da Frei foi derrubado. Deve sair um condomínio, ou mais um shopping. Quando cruzei de novo sua rua nem virei o rosto e a emoção explodiu, também como as várias do filme. Só que aqui sem artifícios, pra dentro. Chegando na Paulista corri pro Conjunto Nacional (lembra dele? Do nosso começo, do nosso fim, daquela outra crônica?). Passei no quiosque da Viena e comprei a promoção, café com três mini pães de queijo. Peguei o metrô e fui de novo trabalhar.