Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

5.7.08

Caminho dos espíritos

Quem ficou para trás?

Quantos são os caminhos?

Separações.

Vidas.

Eram cidades antigas, boulevares, prédios baixos.

Eram arrabaldes, arredores, terrenos  baldios.

Ali, iam construir um novo bairro.

Canteiro de obras.

Para lá, o zoológico.

Naquela direção, a torre é construída - será pico de aço, antena captando minhas emoções no futuro.

Les Invalides.

A imensa avenida.

Clínicas, hospitais, cemitério, jazigos.

O túmulo de Beckett, cápsula de mármore negro,

como o monolito de Kubrik,

com uma rosa vermelha, recém-colhida, sobre o tampo.

Sair dali correndo.

Lojas de pedras e túmulos, um labirinto.

Chegar até a beira do rio.

Atravessar com o coração na boca,

respiração afogada.

Depois do rio, olhei pra trás e vi o recorte de todo aquele caminho.

A torre, a torre.

Procurei refúgio em algum canto.

Ali, ali em cima, o sagrado coração, branco brilhante.

Ao lado da escadaria que sobe para a Igreja,

um museu.

Entro.

Museu de arte bruta.

Arte dos loucos, dos surrealistas, de quem não cabe em lugar nenhum.

Breton, Artaud, gente de asilos e hospícios.

Ali, enfim, sosseguei.

E chorei.

Naquele porto em meu caminho dos espíritos.

criado por ciadaobesidade    9:46 — Arquivado em: Sem categoria

2.7.08

pé de meia

 

Fui conferir na gaveta. 12 pares de meia. Meias para usar com sapato social, marrons e pretas. Meias para verão e para inverno. Meião pra futebol. Tinha de tudo - e tudo em bom estado. Mas justamente naquela manhã saí com o raio de um par de meias com um furo na ponta. Ainda estava escuro, minha mulher dormia, as meias sociais estavam lavando, peguei o que achei, pus no pé, meio sonado, nem percebi. Mas acontece que, poucas horas depois, bati o carro. Uma  batida de bobeira, num estacionamento. Sem perceber, dei uma tremenda porrada num poste de ferro. Quebrei o vidro do carro com a cabeça. Acho que abaixei pra pegar o tíquete e, pronto, só saquei a coisa toda com o chicote que, após a testada no vidro, lançou minha cabeça para trás. Tudo parou. Passei a língua nos dentes - todos no lugar. A cabeça latejava. Respirei fundo. Tempo. Então, sai do carro. Veio um atendente. Perguntei se minha cabeça sangrava. Ele disse que não. Pedi que, junto com um colega, ele colocasse o carro num canto. O capô, bem amassado. O radiador, furado, aquela trilha de água pelo chão. Falei: vou pro hospital, depois resolvo a história  aqui. Disseram: o estacionamento fecha às nove, se passar paga nova diária. Não ofereceram ajuda. Peguei um táxi em frente e pedi o hospital mais perto. Lá, no  pronto-socorro, fui atendido rapidamente. Batida tem preferência. Após exame preliminar, onde disse que estava zonzo e com sono, a testa visivelmente inchada e vermelha, resolveram me internar para raio-X e tomo. Puseram colar ortopédico imediatamente. Aí, pediram para que eu tirasse a roupa. Com o raio do colar, não foi mole. Aí, ao tirar o sapato, aquela desgraçada daquela meia preta. Eu, ali, de avental hospitalar. cueca e meia preta com o dedão furado. Que vergonha. Os enfermeiros, respeitosos, talvez tirando sarro por dentro e por trás, ficaram na deles. Eu, zonzão.  Horas se passaram. Passeios de maca pelo hospital, eu olhando o teto como em tomadas de seriados americanos. Chegam meu pai  e minha esposa. Vem um médico: talvez seja fratura numa vértebra, ainda não sabemos, daqui a pouco os exames ficam prontos; não deve ser nada grave; se fosse, a essa altura ele nem se mexeria, estaria para ou tetraplégico. Esses médicos de hoje assistem House demais. Bem… Eu também. Os exames não deram nada. Pra falar a verdade, quase nada. O ortopedista constatou desgaste numa vértebra, coisa antiga, nada a ver com o acidente, deu seu cartão, atende pelo convênio. Enfim, me liberaram. Eu e o enfermeiro sozinhos na sala para que eu me vista. Ele me ajuda a levantar. Discretamente, escondo o pé direito como posso. Vontade de por os sapatos antes da calça. Enfim, vestido, agradeço. Recebo atestado para ficar dois dias longe do trabalho. Acho que estou precisando. Vou aproveitar para limpar a gaveta e comprar meias novas.

 

criado por ciadaobesidade    16:31 — Arquivado em: Sem categoria

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