26.7.08
Em uma de suas encarnações, Dioniso, o deus da vinha, do vinho, da festa e do êxtase, vem como Touro.
Dizem que é Touro que vem das águas. Touro estrangeiro, do além mar.
Chega na praia cansado, os músculos tesos até o limite. Resfolega. Sacode alga e areia. Mira a praia como se mirasse um frágil toureiro.
Então Dioniso se ergue sobre as duas patas traseiras e se metamorfoseia.
Primeiro, é Minotauro que, enfim, escapou do labirinto.
Depois, toma a forma humana, pelado e frágil na linha d’água. E com os olhos vazios, como nas máscaras que um dia dele farão, efígie de olhar vazado, onde nos enxergamos.
Dioniso. O outro. O estrangeiro.
O Deus que volta da morte.
É. É ele. Ali. Na beira da praia.
Descalço, afundando na areia cheia de pedriscos, corro para abraçá-lo.
Noutra noite, em conversa regada a uísque em casa de amigos portugueses, perguntei se o animal não é mesmo sacrificado na tourada daqui.
Disseram que é.
Instalou-se a controvérsia. Uns diziam que sim, outros que não. "O animal sai muito ferido da corrida.", "Mas o que vão fazer com a carne, já que não dá churrasco." "Acho que depois da tourada tratam do bicho e dão a ele o devido descanso."
Alguém lembrou que aqui na Póvoa, faz muitos anos, um touro fugiu na hora em que era descarregado do caminhão para a arena. Aproveitou o descuido e saiu pra rua. Driblou passantes, trombou com alguns carros.
A multidão se formou, a seguir o touro, que foi dar na praia, a não mais de 500 m da casa das touradas.
Afundando as patas na areia, o bruto caminhou para o mar. Enfrentou as águas geladas e rompeu as ondas, até se afogar.