11.7.08
suspirar e sorrir
O avião dava voltas sobre a cidade na madrugada. Talvez o nevoeiro passasse e pudéssemos pousar, talvez seguíssemos para outro aeroporto. Você olhou pela janela e, enfim, suspirou. No ponto final do suspiro, perguntei como a enfermeira padrão dera guinada na vida e se transformara em executiva de vendas. A pergunta saiu. Simplesmente saiu. Na madrugada besta, em vôo que se arrasta. Nos conhecíamos a no máximo 3 horas, da fila do check in. Você virou o rosto lentamente na direção da cadeira do corredor, como se eu nem estivesse ali, seu reflexo na janelinha dissipou-se ainda mais de devagar. Um sorriso quase para ninguém. Uma dose de energia e seus olhos focaram os meus. "Durante todos os anos em que fui enfermeira em UTI, só uma vez a situação superou minha barreira." Fez uma pausa nada afetada, preenchida por outro longo suspiro. " O médico tentou de tudo durante cirurgia de emergência em criança prematura. Quando se debruçou como um tomado sobre aquele bebê que porejava sangue, eu disse ‘Doutor, ou o senhor pára agora ou eu não vou mais seguir suas ordens e abandono a sala’. Ele parou. No dia seguinte, abandonei o serviço." A campainha soou e o comandante disse que seguiríamos mesmo para outro aeroporto, com pouso estimado para dali a meia hora.


criado por ciadaobesidade
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