Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

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Arquivo de: Julho 2008

26.07.08

O touro

 

Em uma de suas encarnações, Dioniso, o deus da vinha, do vinho, da festa e do êxtase, vem como Touro.

 

Dizem que é Touro que vem das águas. Touro estrangeiro, do além mar.

 

Chega na praia cansado, os músculos tesos até o limite. Resfolega. Sacode alga e areia. Mira a praia como se mirasse um frágil toureiro.

 

Então Dioniso se ergue sobre as duas patas traseiras e se metamorfoseia.

 

Primeiro, é Minotauro que, enfim, escapou do labirinto.

 

Depois, toma a forma humana, pelado e frágil na linha d'água. E com os olhos vazios, como nas máscaras que um dia dele farão, efígie de olhar vazado, onde nos enxergamos.

 

Dioniso. O outro. O estrangeiro.

 

O Deus que volta da morte.

 

É. É ele. Ali. Na beira da praia.

 

Descalço, afundando na areia cheia de pedriscos, corro para abraçá-lo.

 

 

O sacrifício

 

Noutra noite, em conversa regada a uísque em casa de amigos portugueses, perguntei se o animal não é mesmo sacrificado na tourada daqui.

 

Disseram que é.

 

Instalou-se a controvérsia. Uns diziam que sim, outros que não. "O animal sai muito ferido da corrida.", "Mas o que vão fazer com a carne, já que não dá  churrasco." "Acho que depois da tourada tratam do bicho e dão a ele o devido descanso."

 

Alguém lembrou que aqui na Póvoa, faz muitos anos, um touro fugiu na hora em que era descarregado do caminhão para a arena. Aproveitou o descuido e saiu pra rua. Driblou passantes, trombou com alguns carros.

 

A multidão se formou, a seguir o touro, que foi dar na praia, a não mais de 500 m da casa das touradas.

 

Afundando as patas na areia, o bruto caminhou para o mar. Enfrentou as águas geladas e rompeu as ondas, até se afogar.

 

 

 

 

24.07.08

Forcado - touro a unha.

Na tourada portuguesa, os toureiros enfrentam o touro montados em magníficos cavalos. São auxiliados por dois homens que, com capas cor de rosa nas mãos - e sem os cavalos - preparam o bicho para a grande estrela. Cabe ao toureiro fazer grandes manobras com sua montaria e picar o touro com bandeiras. Sangrando, o touro, com seus chifres serrados, não tem como furar seu oponente, mas pode derrubá-lo com seus mais de 500 quilos. Todos torcemos para isso. Depois de fincar suas pequenas lanças no animal, o toureiro, ovacionado pela multidão que se acotovela nas arquibancadas, sai da arena em glória. Então, pulam para o círculo de areia os forcados. São oito homens vestidos como servos em vermelho e verde e que, nas mãos, carregam apenas um gorro. Fazem uma fila indiana. O homem da frente se distancia um pouco do grupo e chama a atenção do touro. Com as mãos na cintura e postura ereta e viril, ele provoca o bicho: Ei, touro, touro! O animal e o homem, olhos nos olhos. Mais provocações. Finalmente, o touro resolve investir contra o forcado que, por sua vez, abre os braços para receber a fera. O touro vem com tudo. Choque. O forcado agarra a cabeçorra do touro, que o arrasta como um trator. Os outros forcados vêm em auxílio do rapaz. Se a pega é boa, o rapaz resiste agarrado nos chifres e na cabeça, enquanto os outros agarram o resto do corpo do bicho. Um forcado segura o rabo do animal. O embate persiste até que o touro pare. Então, o grupo larga a fera - menos o rapaz que segura o rabo. Caberá a ele domar os últimos laivos de fúria do touro. Com os pés fincados na areia e as mãos no rabo, ele funciona como a ponta seca de um compasso, pois a fera gira ao seu redor até, enfim, estancar, cansada. O rapaz então larga o touro e se reúne a seus colegas. A platéia aplaude. O líder dos forcados tem sangue do touro no rosto. O grupo sai da arena. O touro fica só. Vacas são colocadas na arena para conduzir o touro novamente para o ventre do estádio. O animal não é sacrificado. (texto escrito em lan house de Póvoa de Varzim, Portugal, com a ajuda de meu filho Pedro, sentado em meu colo, alguns dias depois que assistimos a uma tourada com minha esposa, meu outro filho, João e meu irmão, Fábio, que mora aqui há 12 anos e sabe muito bem o que é agarrar touro a unha.)

18.07.08

Labirinto

 

Essas cicatrizes no fundo do ouvido, doutor, não lembro de onde vieram, se o senhor diz que são lá da infância, acredito, mas não recordo as dores que tive, as noites em claro, também não compreendo o liame entre as tais marcas e a sensação que agora tenho de que estou em um quarto fechado, onde os sons não reverberam, ainda assim talvez aceite, mesmo com relutância, que um certo desamparo que hoje me derruba, esse desejo besta de colo, talvez venham daí, ou melhor, de lá, de bem longe, de lá, onde brotaram as tais cicatrizes. Pode ser.

 

17.07.08

A polaca da Tymbiras

 

1944. Rua Tymbiras, zona do meretrício, centro de São Paulo. Lili labuta. Uma rotina entre o trabalho e as memórias da Polônia. A Infância. O pai ator e o baú que ele guardava.

O novo cliente entra no quarto. Tira o chapéu. Puxa a cadeira e senta num canto. Minutos de silêncio. Ele absorve cada detalhe do quarto e da moça.

Lili também estuda aquele polaco embrulhado em terno cinza, com uma beleza sem tempo, angulosa e assustadora.

- Eu fui criado há muito tempo por um velho sábio judeu. Ele juntou um punhado de terra da montanha e um gole de água da fonte. Modelou uma figura humana. Rezou os muitos nomes de Deus. Com uma faca, escreveu na minha testa o nome da verdade. E eu surgi.

Pela janela do quarto entra o zumbido da rua. As outras prostitutas em serviço.

- Eu sou um Gólem.

Alguém passa cantando. Sucesso imorredouro de Francisco Alves, o Rei da Voz.

- O sábio que me criou o fez em meditação, num ritual divino. Ao final do rito, devia cavucar minha testa, apagando uma letra e deixando que nela surgisse o nome da morte. Seria o meu fim. Eu voltaria a ser lama.

Até a noite fez silêncio.

- Mas ele se apaixonou pela minha triste figura e me soltou no mundo. Há séculos eu vago. Observo as gerações que passam. Cada ser que nasce e morre. Eu sou um ser muito só. Agora que a velha Europa está em chamas eu fugi de todos os fantasmas e vim parar aqui no Brasil. Eu já experimentei todas as dores, mas ainda não conheci o amor. Você pode me ensinar o amor... Lili?

Lili ri. Como o pervertido sabe seu nome?

- Lili. Cada um tem uma missão na existência. Cada um leva um nome na testa e esse nome, dado por Deus, o anima. Eu conheço cada nome. Esse é o dom que carrego. Sabe, Lili, quem consegue conhecer o verdadeiro nome do outro tem sobre ele poder de vida e morte. Lili, eu sei demais. Mas eu nada sei do amor.

Lili toma um gole de água no gargalo da moringa. Gargalha.

- Você sabe quanto eu cobro?

Lili senta na ponta da cama. Tosse. Num sussurro, quase canta.

- Eu nasci na Polônia. Meu pai era um grande ator. Guardava sua vida num velho baú, escondido no sótão. Eu e meu irmão, em segredo, quando papai não estava, vasculhávamos aquelas memórias. Meu pai morreu. Meu irmão continua na Europa e talvez também esteja morto.

O homem fixa os olhos no espelho sobre a penteadeira.

- Nós éramos pobres. Eu vim para o Brasil para construir um futuro. Eu sou apenas uma prostituta. Eu vou acabar numa cova barata do Chora Menino. O cemitério que nós, putas, construímos. Para que pudéssemos enterrar umas às outras. Para que pudéssemos descansar em paz.
- Eu não conheço descanso. Quem conhece o que eu conheço não conhece paz.
- Você fala bonito.
- Há séculos brinco com as palavras.
- Você conhece as tradições.
- Elas agonizam no imenso açougue que virou a Europa.
- Eu tenho um namorado. Brasileiro. Ele está na Europa agora. Ele é soldado. Ele vai voltar e nós vamos nos casar.

Ele enfia a mão no bolso do paletó e tira maço de notas. Põe sobre a penteadeira.

- Eu vou ensinar você. Eu vou ensinar. O amor.
- Você é um anjo.
- Você parece. Um anjo. Um anjo estranho e vingador.
- Anjos também choram. Como os meninos.
- As meninas e os meninos.
- O Gólem não chora...

Ela levanta e toca o chapéu do homem, largado sobre a penteadeira. Olha seus olhos dentro do espelho.

- Você vai me ensinar o amor. Eu vou ensinar a você a verdade. A verdade é prima-irmã da morte. Um suspiro as separa.

Ela dá as costas para o homem, caminha para a cama. Arruma cada detalhe do quarto, como fazia quando criança, na Polônia.