1944. Rua Tymbiras, zona do meretrício, centro de São Paulo. Lili labuta. Uma rotina entre o trabalho e as memórias da Polônia. A Infância. O pai ator e o baú que ele guardava.
O novo cliente entra no quarto. Tira o chapéu. Puxa a cadeira e senta num canto. Minutos de silêncio. Ele absorve cada detalhe do quarto e da moça.
Lili também estuda aquele polaco embrulhado em terno cinza, com uma beleza sem tempo, angulosa e assustadora.
- Eu fui criado há muito tempo por um velho sábio judeu. Ele juntou um punhado de terra da montanha e um gole de água da fonte. Modelou uma figura humana. Rezou os muitos nomes de Deus. Com uma faca, escreveu na minha testa o nome da verdade. E eu surgi.
Pela janela do quarto entra o zumbido da rua. As outras prostitutas em serviço.
- Eu sou um Gólem.
Alguém passa cantando. Sucesso imorredouro de Francisco Alves, o Rei da Voz.
- O sábio que me criou o fez em meditação, num ritual divino. Ao final do rito, devia cavucar minha testa, apagando uma letra e deixando que nela surgisse o nome da morte. Seria o meu fim. Eu voltaria a ser lama.
Até a noite fez silêncio.
- Mas ele se apaixonou pela minha triste figura e me soltou no mundo. Há séculos eu vago. Observo as gerações que passam. Cada ser que nasce e morre. Eu sou um ser muito só. Agora que a velha Europa está em chamas eu fugi de todos os fantasmas e vim parar aqui no Brasil. Eu já experimentei todas as dores, mas ainda não conheci o amor. Você pode me ensinar o amor… Lili?
Lili ri. Como o pervertido sabe seu nome?
- Lili. Cada um tem uma missão na existência. Cada um leva um nome na testa e esse nome, dado por Deus, o anima. Eu conheço cada nome. Esse é o dom que carrego. Sabe, Lili, quem consegue conhecer o verdadeiro nome do outro tem sobre ele poder de vida e morte. Lili, eu sei demais. Mas eu nada sei do amor.
Lili toma um gole de água no gargalo da moringa. Gargalha.
- Você sabe quanto eu cobro?
Lili senta na ponta da cama. Tosse. Num sussurro, quase canta.
- Eu nasci na Polônia. Meu pai era um grande ator. Guardava sua vida num velho baú, escondido no sótão. Eu e meu irmão, em segredo, quando papai não estava, vasculhávamos aquelas memórias. Meu pai morreu. Meu irmão continua na Europa e talvez também esteja morto.
O homem fixa os olhos no espelho sobre a penteadeira.
- Nós éramos pobres. Eu vim para o Brasil para construir um futuro. Eu sou apenas uma prostituta. Eu vou acabar numa cova barata do Chora Menino. O cemitério que nós, putas, construímos. Para que pudéssemos enterrar umas às outras. Para que pudéssemos descansar em paz.
- Eu não conheço descanso. Quem conhece o que eu conheço não conhece paz.
- Você fala bonito.
- Há séculos brinco com as palavras.
- Você conhece as tradições.
- Elas agonizam no imenso açougue que virou a Europa.
- Eu tenho um namorado. Brasileiro. Ele está na Europa agora. Ele é soldado. Ele vai voltar e nós vamos nos casar.
Ele enfia a mão no bolso do paletó e tira maço de notas. Põe sobre a penteadeira.
- Eu vou ensinar você. Eu vou ensinar. O amor.
- Você é um anjo.
- Você parece. Um anjo. Um anjo estranho e vingador.
- Anjos também choram. Como os meninos.
- As meninas e os meninos.
- O Gólem não chora…
Ela levanta e toca o chapéu do homem, largado sobre a penteadeira. Olha seus olhos dentro do espelho.
- Você vai me ensinar o amor. Eu vou ensinar a você a verdade. A verdade é prima-irmã da morte. Um suspiro as separa.
Ela dá as costas para o homem, caminha para a cama. Arruma cada detalhe do quarto, como fazia quando criança, na Polônia.