Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

14.6.08

Notas do velório 5

O mundo é um moinho

 

O Ivã disse que descolou uma maquininha com manivela que passa super 8 em qualquer parede e que com ela dava pra assistir a todos os filmes que meu tio fizera de nossas festinhas de família, com as crianças brincando, assoprando velinhas, meu irmão e eu derrubando garrafas de coca da mesa do bolo. Meu pai falou que alguns desses rolos o meu tio chegou a passar para VHS, mas o sujeito que fez o serviço, não se sabe como, copiou os filmes ao contrário, então as festinhas começavam pelo fim e acabavam no princípio. Meu pai falou também que hoje dá para passar tudo para DVD e ainda corrigir a ordem das imagens, mas custa caro. O Ivan disse que hoje em dia com uma placa de captação de imagens bem barata, que você compra na Santa Ifigênia, dá pra ligar o videocassete no computador e fazer a operação com o custo lá embaixo. Eu lembrei que meu tio me deu uma fita com a gravação que ele fez, em vídeo, na maternidade, logo que nasceu meu primeiro filho e com uma bela filmagem do primeiro aniversário dele. Alguns meses antes do falecimento do meu tio, meu pai descolou uma dicas que ajudaram meu tio a receber alguns remédios do governo – em agradecimento, meu tio deu pro meu pai um DVD do Cartola. Alguns anos antes, na minha casa, numa reunião de família em que preparávamos nossa festa de Natal, meu pai e meu tio quebraram um pau muito feio por causa do cardápio da festa – um queria cabrito, outro tender, um queria refrigerante diet e sabe-se lá o que mais -, e meu tio abandonou a reunião batendo porta, brigando com meu primo, xingando todo mundo. Mais tarde liguei pra ele tentando colocar panos quentes e acabou sobrando pra mim, que, aos olhos da família, virei vilão da história, embora só desejasse esfriar os ânimos e reavivar a festa, que acabou nunca mais acontecendo. Naquela tarde, ao telefone, meu tio disse que não queria mais falar nem com seus irmãos, que “teria muito tempo pra conversar com eles no cemitério.” A família tem um belo jazigo num desses cemitérios mais modernos de São Paulo, todo arborizado. Quando criança, fui ao enterro de minha avó, mãe do meu tio e da minha mãe, e o cemitério era um imenso gramado onde as árvores, hoje frondosas, acabavam de ser plantadas. Depois da tal briga lá em casa, meu pai e meu tio ficaram um bom tempo sem se falar, mas minha mãe procurou o irmão e aos poucos eles se reconciliaram. Embora sempre tenha gostado muito do meu tio e ele de mim, não conseguimos reatar um grande relacionamento. Nos encontramos por acaso numa reunião informal na casa de meu outro tio, alguns Natais mais tarde. Nessa época, meu tio já estava doente. Ficamos felizes com o reencontro. Meu tio era médico patologista e, muitas vezes, deu diagnósticos semelhantes ao que, enfim, recebera. Graças à competência do meu tio, há quase trinta anos, meu pai escapou de um câncer de estômago que passava desapercebido na biópsia. Meu tio enfrentou com imensa tenacidade o câncer que pouco a pouco derrubou o urso italiano de quase dois metros de altura, que dias após a formatura atendeu a própria mãe no leito de morte, fazendo furiosa massagem cardíaca tentando salvá-la. Meu tio não era um homem fácil. Brigava pesado. Mas também era gentil, adorava ópera, filhos por perto, geladeira cheia, a companhia da esposa. Minha tia foi uma leoa – ultimamente meu tio dizia que Deus não o tinha feito o mais bonito, o mais rico, o mais famoso, mas em compensação havia dado para ele a melhor mulher do mundo. Todos concordamos. Consciente de sua situação, não optou por nenhum atalho piedoso e enfrentou o sofrimento que já esperava até a última gota. Ao lado do caixão, minha mãe sussurrava: “nosso caçulinha partiu.” Minha tia, minhas primas, meu primo, meus tios, todos disseram que ele estava, enfim, tranqüilo. Que não havia mais aquele nó em sua testa, entre as sobrancelhas, e que os vincos do rosto amainaram na expressão agora suave. Abracei minha família com discrição e não consegui dizer nada. Enquanto o enterro se consumava, ouvi ainda belas histórias a respeito do meu tio, que morreu mesmo muito jovem. Mas deixa uma esposa lutadora e filhos adultos que também enfrentam a vida com fé e alegria. Descanse em paz, meu tio.

 

 

criado por ciadaobesidade    23:35 — Arquivado em: Sem categoria

Notas do velório 4

 

Na verdade, o relógio marcava sete e quarenta quando minha tia acordou, antes que o despertador tocasse, que o cachorro latisse ou que ligassem do hospital.

 

criado por ciadaobesidade    22:18 — Arquivado em: Sem categoria

Notas do velório 3

 

Alguém disse que às sete e meia da manhã o cachorro do meu tio começou a latir desesperadamente e a pular que nem doido no quintal. O cachorro do meu tio está velhinho e quase cego. Naquela hora, no hospital, meu tio falecia.

 

criado por ciadaobesidade    22:16 — Arquivado em: Sem categoria

Notas do Velório 2

 

Na conversa, Tosca disse que, há alguns anos, enquanto fazia um tratamento dentário, costumava ao sair do dentista freqüentar o cinema nas tardes vazias. “Aquele cinema, lembra, na Paulista com a Brigadeiro?” Ali, ela vira quatro vezes o Othelo do Zefirelli. “Um gênio!” Numa dessas tardes, por acaso, encontrou seu primo – meu tio, o querido parente que velávamos e que, na época, tinha consultório médico perto da Pamplona. Os dois, carcamanos apaixonados pela ópera e pelo cinema, assistiram juntos ao filme do italiano. O cine Biarritz ficava na Paulista com a Brigadeiro, passava clássicos em reprise e, no finzinho de sua existência, apresentava pornôs. Fechou tem no mínimo 15 anos, assim como o Cine Paulistano, seu vizinho, na galeria ao lado. No fim da sessão, Tosca e o primo despediram-se carinhosamente, felizes com aquele encontro tipicamente paulistano. No velório, Tosca me disse que hoje em dia também vai cada vez menos ao cinema.

 

criado por ciadaobesidade    22:14 — Arquivado em: Sem categoria

Notas do velório - 1

Ela estava com um broche dourado com as duas máscaras do teatro na gola da blusa. Fazia anos que eu não via um desses, tão comum nos primeiros tempos de combate à AIDS. A biju foi idéia da atriz Etti Fraser. Era vendida na porta dos teatros e os fundos arrecadados ajudavam os doentes. Naquele velório, naquela blusa daquela prima que também não via há anos, talvez desde aquele outro enterro, daquela outra tia ou tio, num outro fim de tarde como este, perguntei se a prima – na verdade prima de segundo grau da minha mãe, portanto parente muito distante, que lembro musa belíssima da minha infância - costumava ir ao teatro. Ela adorava ópera e conhecia muitos cantores e aquele broche ela comprara no Municipal, numa apresentação da Tosca. O nome da prima veio à minha mente. Havíamos nos reconhecido na sala do velório por vestígios. Cumprimentamo-nos educadamente. Tenho certeza de que ela também não lembrava meu nome. Eu me fixei nas máscaras do broche e puxei conversa. Ela não lembrava há quanto tempo acontecera essa sessão no Municipal. Quando comprou o broche, imediatamente colocou-o na gola da blusa. O broche ficou ali. Tosca então disse que usava muito pouco a blusa. E hoje ia cada vez menos à Ópera.

criado por ciadaobesidade    18:22 — Arquivado em: Sem categoria

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