Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

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Arquivo de: Junho 2008

25.06.08

O Representante

 

Esta história eu ouvi de um grande sujeito, representante comercial do nordeste, atuando entre Recife e Maceió. Registro como carinhosa homenagem ao Seu Ricardo e ao Seu Zé do Bode.


Seu Zé da Silva, mais conhecido como Zé do Bode, é o homem rico da cidade. Analfabeto, com ele é no fio do bigode. Quando confia, confia. Me liga na segunda. “Seu Ricardo, o senhor me apareça aqui amanhã de manhã que quero comprar um camião e quero que o senhor me acompanhe. Pode ser?”. Mas seu Zé, precisa não comprar caminhão, bobagem. “Mas se eu quero comprar camião é porque eu quero. Posso ou não posso?” Apareço lá na manhã seguinte. “Vamo na minha Rangi comprar o bruto.” Ele pega uma sacola de feira, entra no carro, pede que eu guie. Vamos. Chegamos na concessionária. Ele olha os autos no pátio. “Quero aquele.” Qual? “O encarnado.” Aquele? “O encarnado!” O vermelho. “Seu Ricardo, o senhor me pergunta quanto é. Custa 150, Seu Zé. “150? Pergunta quanto é à vista.” É 150. “Pergunta se faz 140.” O vendedor me diz que chega em 145. 145, Seu Zé. Damos uma chegada na mesa do vendedor. Seu Zé nem olha pra ele. Despeja o saco de supermercado na mesa. 140 mil em dinheiro. Eu suo inteiro – viajar pelo sertão com 140 mil no carro, se a notícia se espalha a gente não chega vivo em lugar nenhum. Seu Zé olha pra mim. “Pergunta se ele faz 140 no arame.” Faz? Ele faz, faz. “Então, feito.” O homem pede que a gente vá ao caixa. Daqui a pouco, entrega a nota. “Cadê meu camião?” Ô, Seu Zé, a gente não leva o caminhão hoje, não. Tem que fazer uns acertos. A gente pega amanhã. “Então nada feito. Devolve meu dinheiro. Como é que eu dou 140 mil e levo de volta um papel? No senhor eu confio, seu Ricardo, mas não confio assim em qualquer um. Dou meu dinheiro, levo o encarnado.” Mas não é possível, Seu Zé, pode confiar. “Eu lá vou trocar meu dinheiro por papel?” A nota é garantia. “Sei não. O senhor garante?” Garanto. Além disso, se a gente sai dali com o dinheiro, a notícia corre e a gente não chega em casa. “A gente volta amanhã na Rangi.” No dia seguinte, voltamos. Seu Zé vai guiando o encarnado. “O senhor vai na Rangi.” E como é que eu devolvo? “Leva ela pra casa.” Vou passar a semana na estrada. “Vai de Rangi. Depois mando buscar.”


24.06.08

o número da besta

 

Não sou dos piores, mas estou longe de não ser um sujeito supersticioso. Noto as conexões e, dentro do possível, seguro as pontas. Exemplo: quer coisa mais desagradável que viajar num vôo meia-meia-meia? The number of the beast, como ainda brada o Iron Maiden.

 

Pois é. Meu vôo pra Recife tinha a honra de terminar com esse número. Notei que já no saguão a moça da voz do aeroporto já tomava cuidado ao pronunicar a identificação. Fazia uma pausa caulada: "Atenção, senhores passageiros do vôo um-seis... Pausa... Seis, seis, com destino..."

 

Então, por que raios os sujeitos que organizam os vôos já não simplesmente pulam o tal número? Vôo 1665, vôo 1667...

 

Não dá pra embarcar sossegado. Qualquer turbulência, então, só com reza brava. E, nessa minha viagem pra Recife, foi o caso!

 

Se a ida não foi nada memorável, o que dizer da volta.

 

Tudo começou bem. Embarque na hora certa - o que é coisa rara. Avião para São Paulo, com escala no Rio.

 

Três horas depois, estávamos no Galeão. "Senhores passageiros com destino a São Paulo, queiram permanecer na aeronave." Saíram os poucos com destino carioca e ficamos nós, lotação quase esgotada.

 

Quinze minutos. "Senhores passageiros com destino a São Paulo, queiram desembarcar. Por motivos operacionais, vamos trocar de aeronave."

 

Lá fomos nós. Saímos de um avião e imediatamente entramos em outro. "Queiram conservar os mesmos lugares." Mais quinze minutos. Vem o comandante: "Tripulação, preparar para decolar."

 

Todos afivelamos cintos. Aquele silêncio habitual. O avião faz taxeamento, vai pra cabeceira da pista, pronto pra acelerar. Tempo. Vem nosso comandante. "Senhores passageiros, por motivos de segurança, a aeronave retornará a sua base."

 

Estacionamos de novo. Entra equipe de mecânicos de desenho animado, com macacões, "manutenção" escrito nas costas em letras garrafais. Pelo menos quatro caras entram na cabine do avião. Ficam lá belo tempo. Um sai. Volta. Movimento. Cochilo na cadeira. Tempo.

 

"Senhores passageiros, vamos partir em quinze minutos." Mais quinze? Tudo bem. Homens entram e saem. Meia hora depois: "Senhores passageiros, em nome da sua e da nossa segurança, vamos trocar novamente de aeronave."

 

Saimos como carneios. Lotamos alguns ônibus. Mães com crianças de colo. O vôo chegara no Rio às 22h30. Devia estar em SP à meia-noite. Fizemos esse traslado para a nova aeronave à meia-noite! "Senhores passageiros, queiram conservar seus lugares."

 

Conservamos.

 

Talvez tenhamos voltado  para a primeira nave. Não tenho certeza. Os aviões são todos iguais. Apertados.  A cada mudança, a cara de nossas comissárias murchava mais um pouquinho.  Haja maquiagem. Todas cansadíssimas, como nós. E sem argumentos...

 

Nos acomodamos rapidamente, o avião taxiou, nada de papo do comandante, pronto, estamos no ar!

Passa meia hora. "Senhores passageiros, aqui é seu comandante. Venho esclarecer os acontecimentos. Nossa primeria mudança de aeronave deveu-se a estratégia da empresa na malha aeroviária." (Ou coisa assim.) "Nossa segunda mudança aconteceu por problemas na aeronave e para garantir a sua e a nossa segurança." (Ainda bem.) "Infelizmente, ainda tenho uma má notícia." (Me senti num daqueles Disaster Movies dos anos 70: Aeroporto 74...) "A visibilidade em Guarulhos está piorando. Talvez tenhamos que voar para Campinas. Daqui a pouco confirmo a situação. Muito obrigado."

 

Foi aquele "ÓÓÓ..." no avião. Fazer o quê? Meia hora depois, ele confirma. "Senhores passageiros, realmente a visibilidade em Guarulhos está zero... E piorando.... Vamos para Campinas! Chegaremos lá em cerca de 15 minutos."

 

Desembarcamos no meio do nada em Viracopos lá pelas 3h15. Táxi para SP a 285 reais. "É o mercado", diz o rapaz da cooperativa de taxis. Vamos de ônibus da empresa aérea. "Não adianta ir para Congonhas. O aeroporto fechou às 23h."

 

Durmo bem no ônibus. Chegamos às 4h e 20 em Guarulhos. Peguei um táxi. Pensei que, depois de tanto rolo, fosse morrer na Marginal, tal a velocidade que o carinha desenvolveu. Chegamos na Vila Madalena 4h40.

Beijei minha mulher e meus filhos, tomei uma sopinha e fui dormir. Sete horas estava de pé para ir trabalhar.

 

 

20.06.08

Filé (Bolo de rolo 2)

 

Filé

Toca a campainha do 504. O filé chegou. Prato coberto com travessa de alumínio. Ponho na bancada, ao lado da TV. Levanto a travessa. Belo filé recheado com queijo branco e presunto, arroz e legumes. Cadê os talheres? Levanto o prato, a toalha da bandeja. Nada. Ligo no restaurante.
- Aqui é do 504, acabei de pedir um filé, ele chegou, mas veio sem talher.
- Sem talher?
- É. O senhor pode enviar...
- Não é possível.
- O talher?
- É. O senhor procura aí.
- Já procurei, meu amigo.
- Olha debaixo da toalha.
- Já olhei.
- Então não foi talher?
- O senhor pode mandar?
- Tô mandando.
Desligamos. CSI na TV. Espero. Olho o filé, que olha pra mim. A carne esfria. Intervalo da série. Toca o telefone.
- Alô.
- Sim.
- O senhor que pediu talher?
- Sim.
- O senhor olha aí que tem talher.
- Não tem, não senhor.
- Procura no guardanapo.
Volto o olhar para a bandeja, procuro.
- Não veio guardanapo.
- Não veio guardanapo?
- Não.
- O senhor olhou bem?
- Por favor, o senhor envie talher e guardanapo.
- O senhor não pôs em algum canto?
- Meu amigo, o filé está esfriando!
- É pra já.
Desligou. Sento na cadeira. Acaba o intervalo. Toca a campainha. Abro a porta. O atendente entra imediatamente no corredor do apartamento e olha para o quarto, sobre a TV, para a bandeja na bancada.
- O senhor quer ver se não veio talher!
- É. Posso entrar?
- O senhor já entrou.
- Posso olhar?
- Por favor.
Ele se movimenta sem cerimônia pelo quarto. Olha a bandeja. Levanta o prato, a toalha. Vasculha tudo.
- É. Não veio talher.
- Não disse?
- Toma aqui. O talher. E o guardanapo.
- Obrigado.
- Não é que eu não acreditasse no senhor.
- Claro que o senhor não acreditou em mim.
- E não é que não veio mesmo...
- Então.
- Então boa noite.
- Boa noite.
Ele se vira e vai saindo.
- Tá gostando o filé?
- Eu não comi ainda, porra! NÃO VEIO TALHER!
Fecho a porta. Enfim, vou jantar.


19.06.08

Bolo de rolo (primeira parte)




Geometria


Cheguei em Recife no domingo à noite, chovia muito, tomei um táxi e fui pro hotel em Boa Viagem, a duas quadras do mar. O quarto dava pra avenida, quinto andar, o moço que carregou as malas ligou imediatamente a TV, mostrou os canais por assinatura, deixou a tela ligada e foi embora. Sozinho. Gripe pegando, corpo doído e fiapo de voz. Botei camisas nos cabides, desci pro restaurante vazio, sentei longe do ar condicionado, examinei o cardápio e pedi um filé de peixe no azeite, deitado sobre cama de tomates, pimentões e páprica doce. Entrou outro sujeito, que também devia estar ali a trabalho, sentou em mesa distante, mas de frente pra mim e bem debaixo do ar. Também fez pedido. Logo chegou meu suco de laranja e o antepasto. Manteiga, pasta de queijo, azeitonas preta, cubos de presunto e pedaços de pãezinhos com manteiga salgada aquecidos. Os pães estavam bons. Tomei o suco de laranja sem gelo. Chegou o antepasto do outro homem. Uma loira entrou no restaurante e sentou-se em mesa distante, dando as costas para os outros dois clientes e determinando um rigoroso triângulo eqüilátero. Ela também leu o cardápio e fez seu pedido. Um garçom veio da cozinha com meu prato. O peixe acompanhava arroz branco e purê de batatas. Não gosto de comer sozinho. Devoro ainda mais rápido do que de costume minha refeição. Experimentei diminuir cada bocada, mas a situação no restaurante me constrangia. Estava pelo meio do peixe quando chegou o prato do outro homem. Estiquei o pescoço e conferi que ele pedira frango. Antes que seu pedido chegasse, ele devorou o cesto de pães e as azeitonas. Eu deixei bastante do meu couvert. Logo chegou o prato da moça, que não consegui determinar. Comemos, os três. Terminei primeiro. O garçom perguntou se queria sobremesa. Pedi a conta. Assinei-a e subi para meu quarto. Fui ver o Fantástico.



Remédio


Lá pelas onze e meia desliguei a TV. O barulho que veio da rua era infernal. Por isso o rapaz das malas ligara o aparelho rapidinho. Vi se a janela tinha vedação. Não tinha. Puxei as cortinas. Tomei um Resprin. Ao invés das 20 gotas do meu remédio antroposófico, tomei 25. Mais 3 comprimidos de estressedorum. Liguei pra recepção e pedi pra ser chamado às seis e meia. Virei pro lado e dormi.


Manhã


Acordei quinze minutos antes da chamada do recepcionista, que tinha sotaque inglês. Estava quebrado, a garganta doendo. Tomei dois copos de água do frigobar e espirrei mel com própolis na garganta. Fiz a barba. Tomei banho. Me vesti. Desci pro café. Tinha até carne de sol. Comi mamão e jarro de café com leite. Fui até o auditório onde, daqui a pouco, começaria meu curso. Pedi pro técnico um microfone. Verifiquei o datashow. Fui pro quarto escovar os dentes.



Curso



A turma tinha 29 alunos. Gente maravilhosa. De Recife, Aracaju, Salvador, Goiânia, Maceió... No grupo, apenas 5 mulheres. Idades entre 19 e 50 anos. Todos muito gentis e participativos. Graças a eles, considero que o trabalho foi maravilhoso. Eles toparam todos os jogos, exercícios, brincadeiras e teorias que lancei. Exigiram de mim e deles mesmos. E se superaram. Escreveram, fizeram cenas, dialogaram. Fazer um curso assim sempre me alimenta, me faz bem, mesmo que, dessa vez, eu não estivesse com a melhor das formas físicas. Aliás, abri o curso já me posicionando e, graças à compreensão deles e ao ambiente do hotel – a sala com boa acústica, os aparelhos funcionando, os coffees nas horas combinadas e o apoio sensacional da empresa patrocinadora, que marcou presença com representante paulista de seu RH – tenho a certeza de que o curso foi maravilhoso. Agradeço a todos. Abraço todos. Valeu!








14.06.08

Notas do velório 5

O mundo é um moinho

 

O Ivã disse que descolou uma maquininha com manivela que passa super 8 em qualquer parede e que com ela dava pra assistir a todos os filmes que meu tio fizera de nossas festinhas de família, com as crianças brincando, assoprando velinhas, meu irmão e eu derrubando garrafas de coca da mesa do bolo. Meu pai falou que alguns desses rolos o meu tio chegou a passar para VHS, mas o sujeito que fez o serviço, não se sabe como, copiou os filmes ao contrário, então as festinhas começavam pelo fim e acabavam no princípio. Meu pai falou também que hoje dá para passar tudo para DVD e ainda corrigir a ordem das imagens, mas custa caro. O Ivan disse que hoje em dia com uma placa de captação de imagens bem barata, que você compra na Santa Ifigênia, dá pra ligar o videocassete no computador e fazer a operação com o custo lá embaixo. Eu lembrei que meu tio me deu uma fita com a gravação que ele fez, em vídeo, na maternidade, logo que nasceu meu primeiro filho e com uma bela filmagem do primeiro aniversário dele. Alguns meses antes do falecimento do meu tio, meu pai descolou uma dicas que ajudaram meu tio a receber alguns remédios do governo – em agradecimento, meu tio deu pro meu pai um DVD do Cartola. Alguns anos antes, na minha casa, numa reunião de família em que preparávamos nossa festa de Natal, meu pai e meu tio quebraram um pau muito feio por causa do cardápio da festa – um queria cabrito, outro tender, um queria refrigerante diet e sabe-se lá o que mais -, e meu tio abandonou a reunião batendo porta, brigando com meu primo, xingando todo mundo. Mais tarde liguei pra ele tentando colocar panos quentes e acabou sobrando pra mim, que, aos olhos da família, virei vilão da história, embora só desejasse esfriar os ânimos e reavivar a festa, que acabou nunca mais acontecendo. Naquela tarde, ao telefone, meu tio disse que não queria mais falar nem com seus irmãos, que “teria muito tempo pra conversar com eles no cemitério.” A família tem um belo jazigo num desses cemitérios mais modernos de São Paulo, todo arborizado. Quando criança, fui ao enterro de minha avó, mãe do meu tio e da minha mãe, e o cemitério era um imenso gramado onde as árvores, hoje frondosas, acabavam de ser plantadas. Depois da tal briga lá em casa, meu pai e meu tio ficaram um bom tempo sem se falar, mas minha mãe procurou o irmão e aos poucos eles se reconciliaram. Embora sempre tenha gostado muito do meu tio e ele de mim, não conseguimos reatar um grande relacionamento. Nos encontramos por acaso numa reunião informal na casa de meu outro tio, alguns Natais mais tarde. Nessa época, meu tio já estava doente. Ficamos felizes com o reencontro. Meu tio era médico patologista e, muitas vezes, deu diagnósticos semelhantes ao que, enfim, recebera. Graças à competência do meu tio, há quase trinta anos, meu pai escapou de um câncer de estômago que passava desapercebido na biópsia. Meu tio enfrentou com imensa tenacidade o câncer que pouco a pouco derrubou o urso italiano de quase dois metros de altura, que dias após a formatura atendeu a própria mãe no leito de morte, fazendo furiosa massagem cardíaca tentando salvá-la. Meu tio não era um homem fácil. Brigava pesado. Mas também era gentil, adorava ópera, filhos por perto, geladeira cheia, a companhia da esposa. Minha tia foi uma leoa – ultimamente meu tio dizia que Deus não o tinha feito o mais bonito, o mais rico, o mais famoso, mas em compensação havia dado para ele a melhor mulher do mundo. Todos concordamos. Consciente de sua situação, não optou por nenhum atalho piedoso e enfrentou o sofrimento que já esperava até a última gota. Ao lado do caixão, minha mãe sussurrava: “nosso caçulinha partiu.” Minha tia, minhas primas, meu primo, meus tios, todos disseram que ele estava, enfim, tranqüilo. Que não havia mais aquele nó em sua testa, entre as sobrancelhas, e que os vincos do rosto amainaram na expressão agora suave. Abracei minha família com discrição e não consegui dizer nada. Enquanto o enterro se consumava, ouvi ainda belas histórias a respeito do meu tio, que morreu mesmo muito jovem. Mas deixa uma esposa lutadora e filhos adultos que também enfrentam a vida com fé e alegria. Descanse em paz, meu tio.