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Encheu a cara de pinga e o carro de puta. Lascou o pé. Cochilou no volante. Rasgou a madrugada, a outra pista, o fusca marcha lenta, uma família inteira, pai, mãe, dois filhos, cachorro. Foi parar no canavial. Cricri de grilo. Carne, ferragem. Ligação pro procurador. Só sim com a cabeça. Picou no meio da cana. Vula. Cheiro de garapa, farpas, cortes. Clareira sob lua cheia. Despacho com vela acesa, estátua de santa, farofa, galinha. Se jogou de boca na terra. Comeu torrão. Gemeu. Quis cova rasa. Rezou pelos advogados. Virou de cara pro céu. Coalho de estrelas, tão lindas.

criado por celsocruz
10:41:08
criado por celsocruz
10:37:12
Troquei a depressão por dores no braço direito. O espírito encarnado cede mais facilmente às drogas sem tarja preta vendidas a granel nas farmácias. Invariavelmente, tais remédios atacam meu estômago. Tais dores costumam me lançar numa cadeia de metáforas e, assim, de hábito, volto à situação inicial.
Vou ao pronto-socorro. Não há ortopedista de plantão, só clínico-geral. Aceito. Após uma hora e meia de espera, sou atendido por um senhor de jaleco e cabelos brancos que poderia ser tanto uma sumidade de E.R. quanto um auxilia babaca do House. De olho na minha ficha, ele puxa conversa.
- Então, Celso, qual é o problema?
- Estou com dores no braço direito.
- Não quis passar na Ortopedia?
- O ortopedista já foi embora.
Ele pega meu braço e mede a pressão.
- 12 por 8. Uma beleza.
- A pressão está ótima. Estou é com dor no braço.
- Deixa eu ver se o ortopedista não está mesmo aí.
Sai da sala pela porta do fundo do consultório, que leva diretamente às profundezas do hospital. Demora. Fico pensando em formas de insultá-lo, de descarregar o ódio ao sistema de saúde, lembro também das peças de Moliére que reduzem esses profissionais a nada. Lembro também dos grandes médicos que já conheci, que atenderam gente da minha família. Aguardo calado. Ele volta.
- Ele foi mesmo embora.
- Não disse?
- Qual sua profissão?
- Escritor.
Um grosso livro em ingês na mão esquerda – eu sabia que ia esperar muito - dá mais moral à afirmação.
- Se você quiser, posso medicá-lo.
- Tudo bem. Só tenho problemas com anti-inflamatórios. Atacam o estômago.
- Agora tem um ótimo. Você põe o comprimido na água e ele dissolve.
- Tudo bem.
Ele pousa novamente os olhos em meus papéis. A ficha. Uma cópia do RG e outra da carteira do plano de saúde.
- Eu vi que você era boa pessoa. Nasceu no dia 29 de outubro.
- Você também nasceu nessa data?
- Mas quando você nasceu eu já estava no segundo ano de faculdade.
Então faz tempo, pensei.
- Mais um escorpião. E de Catanduva! Tenho um colega de faculdade de Catanduva. Não vejo há muitos anos. O Dr...
Fala um sobrenome italiano de que nunca ouvi falar.
- Não sou de Catanduva. Minha primeira esposa é que é. Quando íamos casar, precisei de novo RG. Fiz lá.
- Quantas vezes você casou?
- Duas. Sem contar um lance aí no meio que, algumas vezes, cheguei a pensar que foi um terceiro casamento. Mas não era.
- Aquele escritor, o Fernando Sabino, dizia que a primeira vez que casou tudo o que queria era um útero. A segunda, uma vagina.
Ele faz uma bela pausa dramática.
- A terceira vez, finalmente, queria uma pessoa...
Aí ele completa, casualmente.
- Mas aí eu acho que ele já devia ser broxa.
Escapei por pouco. Se é que escapei. Penso, mais uma vez, sem dizer nada. Aí lembrei...
- Dizem que o Tom Jobim fez aquela música Lígia justamente pra mulher do Fernando Sabino. Acho que o Tom Jobim não tinha nada de broxa.
- É.
Ele rabiscou rapidamente a receita, assim como agora me livro rapidamente destas notas. Meu braço já começa a doer e preciso tomar meu remédio.

criado por celsocruz
10:04:46