Troquei a depressão por dores no braço direito. O espírito encarnado cede mais facilmente às drogas sem tarja preta vendidas a granel nas farmácias. Invariavelmente, tais remédios atacam meu estômago. Tais dores costumam me lançar numa cadeia de metáforas e, assim, de hábito, volto à situação inicial.
Vou ao pronto-socorro. Não há ortopedista de plantão, só clínico-geral. Aceito. Após uma hora e meia de espera, sou atendido por um senhor de jaleco e cabelos brancos que poderia ser tanto uma sumidade de E.R. quanto um auxilia babaca do House. De olho na minha ficha, ele puxa conversa.
- Então, Celso, qual é o problema?
- Estou com dores no braço direito.
- Não quis passar na Ortopedia?
- O ortopedista já foi embora.
Ele pega meu braço e mede a pressão.
- 12 por 8. Uma beleza.
- A pressão está ótima. Estou é com dor no braço.
- Deixa eu ver se o ortopedista não está mesmo aí.
Sai da sala pela porta do fundo do consultório, que leva diretamente às profundezas do hospital. Demora. Fico pensando em formas de insultá-lo, de descarregar o ódio ao sistema de saúde, lembro também das peças de Moliére que reduzem esses profissionais a nada. Lembro também dos grandes médicos que já conheci, que atenderam gente da minha família. Aguardo calado. Ele volta.
- Ele foi mesmo embora.
- Não disse?
- Qual sua profissão?
- Escritor.
Um grosso livro em ingês na mão esquerda – eu sabia que ia esperar muito - dá mais moral à afirmação.
- Se você quiser, posso medicá-lo.
- Tudo bem. Só tenho problemas com anti-inflamatórios. Atacam o estômago.
- Agora tem um ótimo. Você põe o comprimido na água e ele dissolve.
- Tudo bem.
Ele pousa novamente os olhos em meus papéis. A ficha. Uma cópia do RG e outra da carteira do plano de saúde.
- Eu vi que você era boa pessoa. Nasceu no dia 29 de outubro.
- Você também nasceu nessa data?
- Mas quando você nasceu eu já estava no segundo ano de faculdade.
Então faz tempo, pensei.
- Mais um escorpião. E de Catanduva! Tenho um colega de faculdade de Catanduva. Não vejo há muitos anos. O Dr…
Fala um sobrenome italiano de que nunca ouvi falar.
- Não sou de Catanduva. Minha primeira esposa é que é. Quando íamos casar, precisei de novo RG. Fiz lá.
- Quantas vezes você casou?
- Duas. Sem contar um lance aí no meio que, algumas vezes, cheguei a pensar que foi um terceiro casamento. Mas não era.
- Aquele escritor, o Fernando Sabino, dizia que a primeira vez que casou tudo o que queria era um útero. A segunda, uma vagina.
Ele faz uma bela pausa dramática.
- A terceira vez, finalmente, queria uma pessoa…
Aí ele completa, casualmente.
- Mas aí eu acho que ele já devia ser broxa.
Escapei por pouco. Se é que escapei. Penso, mais uma vez, sem dizer nada. Aí lembrei…
- Dizem que o Tom Jobim fez aquela música Lígia justamente pra mulher do Fernando Sabino. Acho que o Tom Jobim não tinha nada de broxa.
- É.
Ele rabiscou rapidamente a receita, assim como agora me livro rapidamente destas notas. Meu braço já começa a doer e preciso tomar meu remédio.