28.4.08
Abril
“Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo…”
The Waste Land, T.S. Eliot
Lá onde T.S. Eliot escreveu sua obra-prima caminhávamos rumo ao Verão. Aqui, o outono se aprofunda, com luzes que adoro. Mesmo assim, deste lado do espelho, a citação brota como o tal lilás e ainda consigo murmurar os primeiros versos do poema. Aristóteles bem disse que a Melancolia é bílis negra assassina. Os nomes mudam com o tempo, mas hoje a depressão ainda é deriva no mar morto do desespero. Pois não vá pensar você que todo desespero é de tragédia grega, grandioso e descabelado. O lentíssimo movimento na água parada que aos poucos enrijece as juntas e a mente também não é bolinho. Não há vento aqui dentro. A remada exige muito do cérebro cansado. Miragens retornam no meio da névoa. Não se vê horizonte. Memória e desejo são alfinetes entre as unhas – e isso talvez impeça torpor terminal. Ou mesmo o pânico em sair de casa, encontrar pessoas, realizar compromissos. Um acicate contra o medo. Que merda. Fazemos o possível. Para servir sempre. Converter dor em palavra. À espera que abril acabe.


criado por ciadaobesidade
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