Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

28.4.08

São Judas

 

Todo dia 28 a Igreja de São Judas, lá pros lados do Jabaquara, abarrota. A polícia faz cordão de isolamento nas redondezas pra que os fiéis possam zanzar em paz pela velha matriz, pela igreja nova, pelo velário, pelo salão paroquial onde acontecem as bençãos e ainda pelas salas lá do fundo, onde você pode fazer sua confissão. Um sem fim de gente vem encontrar seu santo, pedir uma graça e, principalmente, agradecer os milagres concedidos.  Há também uma loja de artigos religiosos e uma lanchonete com boas empadinhas. Filas nas calçadas, pedintes em petição de miséria, vendedores ambulantes. É reconfortante escutar as palavras e receber a benção aspergidas pelo padre. Todos levantam os objetos que trouxeram, chaves, carteiras de motorista, RGs, receitas, fotos, santinhos e santos em direção à água benta que o reverendo lança, enquanto rezamos pais nossos e avemarias, amarradas com a maravilhosa oração de São Judas. Fiéis vêm de longe, alguns andam quilômetros e quilômetros como penitência ou simples homenagem. Famílias de velas de vários tamanhos queimam no velário em devoção. As imagens do santo se multiplicam. Há controvérsias sobre o que São Judas carrega nas mãos. Numa, sem sombra de dúvidas, leva um livro. Quanto à outra, existem imagens do santo segurando uma lança, um cajado ou um porrete. Ou você pensa que é fácil ser o santo das causas impossíveis?

 

criado por ciadaobesidade    8:43 — Arquivado em: Sem categoria

Abril

 

“Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo…”

The Waste Land, T.S. Eliot

Lá onde T.S. Eliot escreveu sua obra-prima caminhávamos rumo ao Verão. Aqui, o outono se aprofunda, com luzes que adoro. Mesmo assim, deste lado do espelho, a citação brota como o tal lilás e ainda consigo murmurar os primeiros versos do poema. Aristóteles bem disse que a Melancolia é bílis negra assassina. Os nomes mudam com o tempo, mas hoje a depressão ainda é deriva no mar morto do desespero. Pois não vá pensar você que todo desespero é de tragédia grega, grandioso e descabelado. O lentíssimo movimento na água parada que aos poucos enrijece as juntas e a mente também não é bolinho. Não há vento aqui dentro. A remada exige muito do cérebro cansado. Miragens retornam no meio da névoa. Não se vê horizonte. Memória e desejo são alfinetes entre as unhas – e isso talvez impeça torpor terminal. Ou mesmo o pânico em sair de casa, encontrar pessoas, realizar compromissos. Um acicate contra o medo. Que merda. Fazemos o possível. Para servir sempre. Converter dor em palavra. À espera que abril acabe.

 

criado por ciadaobesidade    8:26 — Arquivado em: Sem categoria

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