27.4.08
Financiou em quinze anos o sobrado de três dormitórios e, devagarzinho, planejou as reformas. Pednsou em ampliar um dos quartos ou fazer um banheiro sobre a laje. Pensou em abrir a sala de jantar, fazer um janelão para a entrada lateral. Pensou em erguer o muro da frente, fechar mais a casa. De saída, fez um caramanchão no quintal do fundo. Quatro colunas de cimento e tijolo, um telhadinho, dando para um pequeno gramado, com canteiros e bancos de alvenaria, assentos de finas ripas de madeira. Plantou um limoneiro, uma pimenteira, um pé de boldo e uma dama da noite, que toda primavera forrava a grama com flores de aroma doce. A família e os amigos sempre se reuniram ali em festas de aniversário, churrascos, macarronadas. Para proteger os eventos da chuva, ele bolou um sistema com uma enorme lona verde, que prendia ao muro lateral e às vigas da obra. Numa folha de sulfite, desenhou seu projeto especial: erguer um andar sobre o caramanchão. Uma escada em caracol levando ao espaço totalmente envidraçado. Amplo. Gostoso. Entre aspas, nomeou a obra: possible dream. Tocava sempre no assunto. A planta estava sempre por perto, ali, na escrivaninha. Os filhos crescidos, casados, ele vendeu a casa. Levou a planta.
A travessa Canção Excêntrica fica em Moema, liga nada a lugar nenhum, nela mal cabe carro, o que não causa celeuma, nela ninguém faz nada, nela não mora ninguém, mas ela cai bem no meu texto, que também não pede pitombas, canta sua existência.
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Congestionamento no rush. Fila de banco. Metrô parado. E um Vesúvio aqui dentro.
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Pneu tábua bola sapato saco antena placa criança na boca de lobo escancarada.
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Erva selvagem no escombro. Deslembra desastre no ombro.
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Palito de picolé. Naco de polaroid. Cílio no pedrisco.
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Concreto. Tiljo. Pedra. Ferro. Sofá. Lama. Água salobra. Comida podre. Braço com verme. Mosca. Sepultar no monturo nossas atrocidades.
Cara, pára de escrever. Cara, esquece. Você não lembra que escribas perdem bocadas, acabam no exílio, sozinhos, com olhos furados, dormem na rua, rasgam dinheiro, andam cagados e limam os dedos de tanto rabiscar o asfalto com as unhas?
Semana da saúde, pan-americana, da educação, da enfermagem, do meio ambiente, de prevenção contra incêndios, da agricultura, do folclore, do excepcional, do exército, da pátria, do trânsito, da proteção aos animais, da criança, da asa, do livro, dos dentes, da marinha, do começo, de novo, de cor, berra e vê se mantém de pé o ossobuco chupado e se sustenta na lida.
adictos de açúcar alcoólicos co-dependentes comedores compulsivos dependentes de amor e sexo devedores fumantes introvertidos jogadores mulheres que amam demais narcóticos neuróticos psicóticos sobreviventes de incesto
Ele disse que o rotwailler dele era manso. O rotwailler dele estraçalhou meu gato. Peguei meu .38 e estraçalhei ele e o rotwailler dele. Ninguém é manso.
1. Cidade-lixão. Mendiga fuça. A gangue ataca. Um abre pernas. Outro mete. Aí revezam. Depois se mandam. A mendiga se arrasta. Chega o homem-casa, abre clareira no entulho. Tira do saco bacia e despeja água da garrafa plástica. Lava pés, xota, rosto da mina e penteia seus cabelos.
2. Por quê você não veio na cadeia antes me ver? Não pude! Seis Meses… Tô Grávida! Quem é o filhadaputa do pai? Não sei. Vou sair daqui e te mato.
3. Dentro do lixão você me perseguia cão raivoso no calcanhar aí você trupicou e eu ganhei distância e fugi e aí num canto debaixo duma luz azul sobre um saco de lixo preto eu pari.
O neguinho bombava sua buça com perícia inusitada. Levantou ligeiramente a bunda, ajeitando um encaixe de púbis supimpa. Gemeu. Um nome feio. Um "me fode". Gozou de se mijar. Sem mover um músculo da face. Nem estragar a chapinha japonesa consumada meia hora atrás no salão onde cruzara aquele verdadeiro artista que, aliás, também gozava, um ronco grosso, no vão das pernas bem depiladas para a festa do seu primeiro aniversário de casamento.
O estofado desse sofá precisa de reforma, a estampa está fora de moda, esse vermelho, essa mancha fui eu que fiz, eu e ele, meus pais dormiam, que nem agora, a gente transou, rapidinho, sempre gozo com ele, juntinho, será que ainda demora pra ele acabar de matar os véio?