Eu estava lá quando você nasceu, estava lá nos seus primeiros tombos, estava lá nas suas primeiras vitórias. Eu ajudei você sempre que você pediu e mesmo quando você não sabia ou não podia ou ainda não devia pedir. Eu estava lá. Eu ajudei você a entrar na faculdade, estudando ao seu lado e pagando os melhores cursos. Eu arrumei seu primeiro emprego, o segundo, o terceiro, cheguei a montar negócios para você. Eu dei seu apartamento. Eu dou sua mesada. Eu darei e farei o que for preciso para você. Para você ser feliz. Para você crescer. Para você ser o grande homem que almeja. Para que também sua família seja feliz. Sim, porque eu também estive presente em cada momento enquanto você montava sua própria família. Apoiei seus namoros. Desculpei seus deslizes. Sustentei a criança não planejada, ajudei na pensão, dei colo e abraço de avô. Tenho a convicção que, assim, garanto que sua nova família e nossa velha família são uma mesma família, onde o sangue fala mais alto e onde estamos fechados, uns em nome dos outros e, lá em cima, Ele, o Homem, por testemunha. Fiquei por isso mesmo muito feliz quando você enfim se casou e teve outras crianças no seio consagrado que só a instituição do casamento oferece. Eu ajudei na festa. Eu ajudei na lua-de-mel. Eu estava lá quando cada criança nasceu. Eu estou ao seu lado. Quem há de julgar esse amor paterno que, volto a dizer, só deve satisfações ao Homem lá de cima? A justiça humana, sabemos todos nós, é falha. Se sua proverbial cegueira é índice de imparcialidade, que deveria ser a base para os julgamentos humanos, é fato que muitas das querelas que nós, mortais, vivemos, não cabem nessa tal equanimidade. Só o Sujeito lá de cima, que, ao contrário da efígie da justiça, tudo vê, conhece realmente cada detalhe dos fatos. É a ele, repito, que devemos satisfações. A justiça terrena serve a conveniências. Eu, que conheço as entranhas da falsa deusa, garanto isso. Cinco minutos em qualquer DP comprovam a tese. Um juiz amigo da família abandonou a profissão com o seguinte mote: “no Brasil, todos têm direito a dois assassinatos grátis.” Portanto, a partir de tal base, como esperar justiça em tal instituição? Outro amigo perdeu familiar em assassinato banal em grande cidade. Em acordo com oficiais da justiça, recebeu o criminoso, um menor, de presente. Em ritual secreto, justiçou-o com detalhes que me abstenho de colocar nesta que, evidentemente, é uma carta de amor. Como julgá-lo? Quem estava lá para ver a cena? Repito: quem? Assim, caro filho, jamais me absterei de limpar o chão pelo qual você passa. Seja qual for a circunstância. Jamais negarei sujar minhas mãos. Jamais deixarei de avalizar seu silêncio. Só cabem a nós mesmos o destino de nosso sangue, a justiça e as penas relativas a nosso sangue. Sobre nós, o abraço misericordioso daquele que está lá em cima. E, aqui entre nós, caso Ele requeresse que eu sacrificasse meu filho em Seu nome, como fez em passado longínquo, então eu me revoltaria como certo anjo já o fez e abandonaria o jugo desse Pai, trazendo para meus próprios ombros o fardo. Porque eu te amo, meu filho.