Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

26.4.08

Dança Contemporânea

Pablito e Manuela agora mal se tocavam. Viveram, sem dúvida, momentos de intensa paixão, mas ao se conhecerem já sabiam que a paixão acaba, foi comprovado cientificamente que ela dura coisa de uns três anos. Não estranharam, portanto, quando ao invés de se roçarem carinhosamente na cozinha, ao dividirem a pia enquanto faziam, por exemplo, um simples spaghetti ao sugo – ele, cuidando da água e da massa, ela mexendo o molho de tomates frescos em outra panela – passaram a desviar-se um do outro com agilidade de bailarinos de dança contemporânea. E olha que Pablito mal conseguia encarar uma valsa de debutante ou um forró bem básico, que no começo do relacionamento com Manuela era ingrediente fundamental da conquista e, sejamos diretos, do sexo. Sexo, agora, era causal, no sentido estrito do termo. A agitação do cotidiano, a imensidão de trabalho, as tarefas urgentes da vida e da casa empurravam esses momentos amorosos para os intervalos comerciais. Vez ou outra, uma simples cena da novela das oito, ou da minissérie das dez, ou ainda um trecho de um daqueles incríveis seriados americanos atiçava a libido de um dos dois. O outro sentia o ar mais denso ao redor. Dizia que estava com sono e simplesmente ia dormir. Ou pegava um cobertor no quarto e aninhava os pés debaixo das coxas do outro. Estava dado o sinal para alguns minutos de prazer. Era pegar ou largar.

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Gênero, número e grau

 

Discordo em gênero, número e grau das teses expostas pelo narrador do conto Carta ao Filho, que eu mesmo escrevi e postei no blog hoje cedo. É. Não é mole ser escritor. Dar voz e letra a entes que muitas vezes desprezamos. Comigo  acontece com frequência. Quem conhece meu trabalho em teatro e assistiu Licurgo, ou Só As Gordas São Felizes, ou Gorilas, Prometeu, Bando de Maria, entre tantos, encontrará muita gente abjeta e abissal. Aqui, no blog, muitos deles também já deram as caras. Aliás, é nessa roda que me mexo com mais desenvoltura. Prato cheio pros terapeutas que me aturam e aturaram tantos anos. Mas nem assim a equação fecha. O abjeto é dimensão  humana  e, assim, conduz muitas penas. A minha é mais uma delas. Isso às vezes custa um certo público, afasta certas verbas, adia alguns sucessos. Como já disse Tennessee Williams, ser escritor é ser livre. Daqui de baixo, com todas as obsessões que tantas vezes pressionam as letras deste teclado, paradoxalmente, concordo. Essa idéia, sim, assino embaixo. É ela quem faz a cama literária dos meus amores e dos meus queridos monstros.

 

 

criado por ciadaobesidade    18:15 — Arquivado em: Sem categoria

Carta ao filho

Eu estava lá quando você nasceu, estava lá nos seus primeiros tombos, estava lá nas suas primeiras vitórias. Eu ajudei você sempre que você pediu e mesmo quando você não sabia ou não podia ou ainda não devia pedir. Eu estava lá. Eu ajudei você a entrar na faculdade, estudando ao seu lado e pagando os melhores cursos. Eu arrumei seu primeiro emprego, o segundo, o terceiro, cheguei a montar negócios para você. Eu dei seu apartamento. Eu dou sua mesada. Eu darei e farei o que for preciso para você. Para você ser feliz. Para você crescer. Para você ser o grande homem que almeja. Para que também sua família seja feliz. Sim, porque eu também estive presente em cada momento enquanto você montava sua própria família. Apoiei seus namoros. Desculpei seus deslizes. Sustentei a criança não planejada, ajudei na pensão, dei colo e abraço de avô. Tenho a convicção que, assim, garanto que sua nova família e nossa velha família são uma mesma família, onde o sangue fala mais alto e onde estamos fechados, uns em nome dos outros e, lá em cima, Ele, o Homem, por testemunha. Fiquei por isso mesmo muito feliz quando você enfim se casou e teve outras crianças no seio consagrado que só a instituição do casamento oferece. Eu ajudei na festa. Eu ajudei na lua-de-mel. Eu estava lá quando cada criança nasceu. Eu estou ao seu lado. Quem há de julgar esse amor paterno que, volto a dizer, só deve satisfações ao Homem lá de cima? A justiça humana, sabemos todos nós, é falha. Se sua proverbial cegueira é índice de imparcialidade, que deveria ser a base para os julgamentos humanos, é fato que muitas das querelas que nós, mortais, vivemos, não cabem nessa tal equanimidade. Só o Sujeito lá de cima, que, ao contrário da efígie da justiça, tudo vê, conhece realmente cada detalhe dos fatos. É a ele, repito, que devemos satisfações. A justiça terrena serve a conveniências. Eu, que conheço as entranhas da falsa deusa, garanto isso. Cinco minutos em qualquer DP comprovam a tese. Um juiz amigo da família abandonou a profissão com o seguinte mote: “no Brasil, todos têm direito a dois assassinatos grátis.” Portanto, a partir de tal base, como esperar justiça em tal instituição? Outro amigo perdeu familiar em assassinato banal em grande cidade. Em acordo com oficiais da justiça, recebeu o criminoso, um menor, de presente. Em ritual secreto, justiçou-o com detalhes que me abstenho de colocar nesta que, evidentemente, é uma carta de amor. Como julgá-lo? Quem estava lá para ver a cena? Repito: quem? Assim, caro filho, jamais me absterei de limpar o chão pelo qual você passa. Seja qual for a circunstância. Jamais negarei sujar minhas mãos. Jamais deixarei de avalizar seu silêncio. Só cabem a nós mesmos o destino de nosso sangue, a justiça e as penas relativas a nosso sangue. Sobre nós, o abraço misericordioso daquele que está lá em cima. E, aqui entre nós, caso Ele requeresse que eu sacrificasse meu filho em Seu nome, como fez em passado longínquo, então eu me revoltaria como certo anjo já o fez e abandonaria o jugo desse Pai, trazendo para meus próprios ombros o fardo. Porque eu te amo, meu filho.

 

criado por ciadaobesidade    9:36 — Arquivado em: Sem categoria

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