25.4.08
Terremoto
Terremoto passou no Cine Vila Rica, que ficava quase em frente ao Del Rey, na Santo Amaro. A Avenida era larga, em alguns pontos ainda tinha paralelepípedos, canteiro central com árvores copadas, casas residenciais de porte dividiam espaço com comércio nobre. A Avenida, ligando a Zona Sul ao Centro, via 9 de julho, primeiro foi estrada, depois recebeu bondes e, nos anos 70, quando ainda víamos riscando o chão resíduos daqueles entes urbanos já extintos, viveu seu apogeu, principalmente com seus enormes cinemas. Vindo dos lados da São Gabriel, em direção ao Brooklin, primeiro você tinha, à direita, o Del Rey, sala para 600 pessoas, tela imensa, viveu seu ápice exibindo Tubarão e, depois, o primeiro Guerra nas Estrelas. Meio quarteirão depois, mudando de calçada, o Vila Rica, construção em estilo colonial, que era o cinema mais chique da época na região, grandes filas se formavam para assistir Disaster Movies, moda do período, como Terremoto, O Destino do Poseidon e Inferno na Torre, além do maior de todos os sucessos do Vila Rica, um pouco anterior, O Exorcista. Para as crianças, filmes dos Trapalhões, seguidos de um Sunday na sorveteria da Kibon. No quarteirão seguinte, mudando novamente de calçada, o Vila Nova, cinema de galeria, exibia, por exemplo, sessões duplas de peso, como aquela em que assistimos, eu, meu irmão e meu avô, a O Garoto, de Chaplin, e comédias de Max Linder. Um temporal pegou aquela tarde de jeito e, na ventania, uma tábua rasgou o teto do cinema e caiu na cabeça de um menino. A sessão foi suspensa e jamais terminamos de ver a comédia do Max Linder. Na sequência, dois quarteirões à frente, o Cine Guarujá, o maior rival do cine Vila Rica. Os grandes filmes para a família, como filmes religiosos perto da Páscoa ou do Natal, tipo Marcelino Pão e Vinho, eram exibidos lá. O maior de todos os sucessos do Guarujá, voltando várias vezes ao cartaz, foi Horizonte Perdido, com músicas melosas e inesquecíveis de Burt Bacharah. Finalizando, cerca de um quilômetro depois, à esquerda, o Graúna, mais tarde Cine Chaplin. O Graúna passava filmes meia boca, depois pornochanchadas – em sua segunda vida, como Cine Chaplin, estreou exibindo Os Caçadores da Arca Perdida. A Avenida Santo Amaro, principal via de acesso ao centro, começou a ficar abarrotada de carros e ônibus. Pouco a pouco, as residências viraram comércio, principalmente bares, cabeleireiros, uma outra academia de sobreloja. Com o corredor de ônibus, para desafogar o trânsito, o canteiro central deu lugar aos pontos. A Santo Amaro ficou resumida a uma longuíssima passagem, com calçadas estreitas, ruas perpendiculares com pouco espaço para estacionar, supermercados e concessionárias. Os cinemas fecharam. O prédio do Vila Rica continua lá, fechado. No fundo do Vila Nova, vemos que o galpão também está lá, sendo usado sabe-se lá pra quê. O Guarujá virou supermercado. O Del Rey, concessionária. No espaço do Graúna/Chaplin não lembro o que existe atualmente. Se nossa cidade felizmente não tem grandes terremotos, o maior em 80 anos foi esse de terça-feira, isso não significa que lentas alterações não façam com que vivamos entre escombros e ruínas.


criado por ciadaobesidade
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