24.4.08
O Fotógrafo
O outono é quem melhor ilumina São Paulo, tratando a cidade com todos os dengos que um fotógrafo elegante dedica à musa que se desnudará para a revista masculina do mês. São Paulo retribui, fazendo altas poses, exibindo ângulos sedutores. Numa fresta sobre telhados no meio da tarde, enquadrada na janela da cozinha, você mira paisagem abstrata, com mescla de cores, azuis, dourados, vermelhos de um Klee. Ali, o homem que varre o pátio vazio daquela escola, da qual ouvimos o alarido das salas de aula – o barulhinho cresce e ganha tensão, deve ser o recreio que se aproxima – e a cena, com seus contrastes, parece uma fruta madura que vai se romper, manga de um antigo pé de um antigo casarão de São Paulo que, agora, em algum canto da Freguesia do Ó, é roubada por um moleque e devorada enquanto a tarde cai. Sombras ganham nitidez e dão profundidade aos relevos da cidade, que nem parece cansada. O banho de luz, de viés, nada chapada, deixa os edifícios mais jovens. O azul quase fraldinha do céu, fundo infinito. Como se tudo e todos estivéssemos no estúdio desse hipotético fotógrafo pornô, num bairro central de uma outra São Paulo, num jogo de bonecas russas, e aqui, debaixo da luz morna, derramados como gatos, exibíssemos com tremendo prazer as nossas carnes.


criado por ciadaobesidade
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