22.4.08
Alemanha Ocidental
André pegou o estrelão, tirou o tapete do meio da sala e armou lá mesmo o campeonato. Seu amigo Xisto trouxe seu melhor time, o Coringão, feito com tampas de relógio que ele camelou muito pra conseguir, chegou a ir ao centro, acho que na Barão de Tatuí, pra pedir tampas usadas nas relojoarias, e foi lá que, no meio do restolho, conseguiu aquele que seria seu centro-avante, o craque do time, uma pequena tampa de relógio de moça que, com o botão nos pés, fazia maravilhas. Todo o time de Xisto era um verdadeiro esquadrão que ele contratou de baciada – numa pequena fábrica de relógios, no seu bairro, onde conseguiu, na faixa, um saco cheio de tampas, tampinhas, tamponas, muitas delas quebradas ou simplesmente pernas-de-pau, já que Xisto testou uma por uma, numa peneira rigorosíssima, feita numa tarde morna, em seu quarto, com portas fechadas, no chão de taco. Só os realmente bons passaram no teste. Assim, Xisto montou um timaço, do pequeno goleador aos enormes beques. O goleiro, Xisto fez com uma caixa de fósforos, que ele encheu de areia. Dizendo assim, parece que o time era bom, mas tosco. Nada disso. Xisto deu um belo banho de loja na turma. Foi nas Lojas Modernas e comprou adesivos para botões do Coringão. Limpou os jogadores, lustrou os vidros e aplicou cuidadosamente os escudos e os números sobre as tampas transparentes. Ao goleiro, atenção especial, com fitas adesivas negras que envolveram a caixa de fósforos até que ela se transformasse numa verdadeira muralha, um tipo de Aranha Negra do Brooklin. Então, Xisto pôs o time para treinar, jogando contra todos os outros esquadrões que Xisto guardava na gaveta de botões de seu armário. Após enfrentar a Argentina, o Palmeiras, o Santos de Pelé (num esquadrão de botões de plástico, com adesivos de fotos: Pelé, Coutinho e cia.) e até mesmo a Ponte Preta, o Coringão de Xisto estava pronto para desafios maiores. Enfrentar a poderosa seleção da Alemanha Ocidental de André, por exemplo. O desafio foi feito na manhã anterior, enquanto os dois jogavam bola na rua. Marcaram a contenda para a tarde seguinte. Xisto aceitou a condição de jogar na casa do adversário. Enfrentar a Alemanha Ocidental de André não era bolinho. Seu amigo já havia derrotado a rua toda com seus botões de acrílico, importados, com tamanho uniforme, de um branco leitoso, sobre o qual brilhavam com elegância a faixa amarelo e negra, o brasão e os números dos jogadores. O goleiro, uma chapa grossa de acrílico, era praticamente indevassável. André treinava num campo oficial, não num mero estrelão. Seu campo era forrado de cortiça pintada em dois tons de verde e dava, no mínimo, dois campos tradicionais. As laterais tinham um elegante anteparo de metal. As traves de André também eram de metal, com redinha de verdade – e bem maiores do que as pequenas traves de plástico com que Xisto brincava. A bolinha de feltro em nada lembrava os botões brancos e negros que Xisto pegava na caixa de costura de sua mãe. Mas, assim como aceitara jogar na casa do adversário, Xisto conseguiu convencer André a jogar em seu antigo estrelão, encostado num canto do quartinho de empregada faz tempo. A Alemanha Ocidental de André recebia inspiração de um dos maiores times do mundo real, a Alemanha Ocidental bi-campeã do mundo, que três anos antes, na própria Alemanha dividida, faturara o caneco derrotando a máquina laranja holandesa, o carrossel de Cruyff e companhia, ofuscando o Brasil que, em 1970, deixara todo mundo definitivamente encantado. Por outro lado, o Coringão de Xisto tinha como inspiração seu time do peito, o Corinthians, que há quase 23 anos não faturava um mísero título ou campeonato. Desde 1954, no campeonato do quarto-centenário, que o Coringão, na época comandado também por um tampinha, o craque Luizinho, não faturava mais nada. Parecia macumba. Alguém, certamente, tinha enterrado caveira de burro no Parque São Jorge. No ano anterior, o Coringão quase saiu da fila, mas perdeu pro seu grande algoz, o Palmeiras, assim como perdera em 1974, daquela vez decretando o término de uma era: foi aí que, acossado pela torcida, Rivelino, o grande Riva, deixou de vez sua casa, o Coringão, pra virar ídolo do Flu, nas Laranjeiras – e depois ir faturar nas Arábias. Ainda na vida real, as finais do campeonato paulista se aproximavam e o Coringão tinha boas chances, se bem que a sensação fosse um pequeno time do interior, a Ponte Preta de Campinas, que com jogadores hábeis e ágeis, jogava um futebol moderno, onde os laterais realizavam ousados overlappings. No gol, Carlos catava tudo; na frente, o centro-avante Rui Rey era um azougue, e o comandante do time, Dicá, era um desses camisas 10 que foram se tornando cada vez mais raros, dono da bola, com chute poderoso, botava os beques pra tremer com dribles e, principalmente, com suas cobranças de falta perfeitas. É. Provavelmente aquele campeonato já estava com a macaca de Campinas. Mas o futebol é uma caixinha de surpresas. E, se o mesmo puder ser dito do futebol de botão, Xisto talvez tivesse sua chance naquela disputa com André. Times em campo. Xisto montou um 4-3-3 ousado, mas compatível com os talentos de suas peças e focando no desempenho de seu camisa 9. André veio num 4-4-2, formação mais conservadora, compatível com as tradições germânicas. Par ou ímpar. André ganhou. Xisto, como se dizia na época, engoliu em seco. O relógio de pulso do avô de André, colocado ao lado do campo, marcou a saída. Dois tempos de quinze minutos ou cinco gols marcariam a vitória. Caso ao final do tempo de jogo houvesse empate, prorrogação de 5 minutos com morte súbita. André abriu uma jogada ensaiada e, em três toques, pediu “pra gol”. Xisto arrumou seu Aranha Negra – e pensou em Tobias, o goleiro do Timão de verdade, nenhum craque, mas que de vez em quando fazia seus milagres – André segurou sua palheta de acrílico colorido no ângulo exato, pegou bem na quina de seu camisa sete e disparou um torpedo (aqui, um detalhe: em nome da isenção, resolveram jogar cada tempo com um tipo de bolinha; o primeiro, com as esferas de feltro de André, o segundo, com os botões da mãe de Xisto). A bolinha veio girando, venenosa, com grande efeito e, tal folha seca de Didi, que eles conheciam bem dos perfis na páginas de Placar, caiu no canto do gol (traves de plástico adequadas ao estrelão). Um golaço. André comemorou com gesto e grito seco, evitando provocar o adversário, que estava evidentemente tenso. Xisto colocou a bola no meio de campo e recomeçou a peleja. Estava com nítidas dificuldades para jogar com aquela bolinha, em cinco minutos, seu artilheiro perdera dois gols feitos. Intervalo. Alemanha Ocidental 1 X 0 Coringão. Foram até a cozinha tomar um Toddynho e comer umas bolachas água e sal com manteiga paulista. Reinício de jogo. Agora André ia ver o que é bom pra tosse, com o botão-bolinha de Xisto, vindo diretamente da coisas de costura de sua mãe. E não deu outra. Xisto deu a saída, passou a bola pro camisa 9 que, no improviso, driblou três beques perna-de-pau da Alemanha e quase entrou com bola e tudo. Um pouco antes da área, Xisto pediu “pro gol”. O artilheiro estava encostado na bola. Com a velha palheta preta que viera em timeco que sua mãe comprara no Pegue-pague, Xisto deslocou levemente o botão, pra ganhar distância. O goleirão crescia entre as traves. Aí Xisto disparou um petardo, um bicudão, com toda força, a bola entrou no canto direito do gol. Inapelável. Xisto nem comemorou, mantendo o sangue frio. A partida ficava cada vez mais tensa. Nos próximos minutos, um pouco de tudo aconteceu. Xisto logo virou o jogo. Nos minutos finais da partida, rigorosamente marcados pelo relógio do avô de André, o dono da casa esboçou reação e, na base da pressão, acabou conquistando o empate. Minutos finais. Grandes defesas, performances inesquecíveis daqueles dois esquadrões. Os meninos, absorvidos pelo jogo, mal sentiam os segundos finais passarem. Aquela peleja poderia durar para sempre, com intervalos regulares pro Toddynho e as bolachas, que eles seriam imensamente felizes.


criado por ciadaobesidade
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