Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

21.4.08

Eu não saberia

 

… a esta altura do campeonato eu não saberia explicar quase nada, embora por puro vício eu confesso que seria incapaz de não tentar, e passaria horas enrolando, comparando histórias, compartilhando detalhes, recorrendo a teorias, Freud e Jung, Marx e São Francisco, mesmo sabendo que no fundo eu sempre soube que explicação nenhuma daria conta do recado e que talvez tivesse sido melhor ir direto ao ponto muito antes, embora esse ponto pareça (e seja) tão ridículo, tão improvável, tão besta, talvez ainda tão inadmissível, inadmissível pra você, evidentemente, pra mim nem se fale, eu que fiz de tudo e mais um pouco pra mudar de vizinhança, quer saber, pra mudar de universo, de padre a terapia, de ginástica a orgia, e que nesse tempo todo, e bota tempo na parada, fui perdendo muitas outras coisas, incluindo aí as fotos, os recados, os e-mails e os arquivos que não eram mais compatíveis, e os que eu perdi com disquetes que nenhum computador mais lê ou bicharam, sendo assim eu já convivo faz tempo com o grande oco, não tem segredo, é um oco mesmo, um buraco, como se além dessa casca grossa de tanta esfolada, não houvesse mais nada, como um ovo de páscoa barato e sem recheio, por isso mesmo é meio bobo recorrer a métáforas, embora não deixe de ser um recurso, um modo de evitar as tais explicações, sem perder a linha ou a compostura, um modo de sustentar a retórica, sem dúvida nenhuma, pois dizer eu te amo, repito, nesta altura do campeonato - e levando em conta o tal oco - seria inócuo e, certamente, pífio, usemos, pois, adjetivos pra adornar a coisa, o ato de fé, a obsessão que vence o exorcismo, a doença, a depressão, o pecado, o diagnóstico sem prognóstico, as frases magras, sujeito, verbo, predicado, os substantivos, os pronomes que vêm fáceis pra boca, a frase nua que o tempo limou e sobre a qual escorrego e caio estatelado como um dos três patetas, e além do mais mesmo que eu me contivesse e dissesse só aquilo, o fato é que eu nem mesmo sei mais o que é que aquilo diz ou quer dizer, muito menos suas consequências, e longe de mim querer perturbar qualquer um de nós ou de todos os outros com um drinque amargo e fora de moda que ninguém na mesa pediu, sendo  assim peço desculpas (mais  uma vez, retóricas) e

 

criado por ciadaobesidade    23:30 — Arquivado em: Sem categoria

Agenda

 

Minha agenda telefônica envelheceu. A maior parte dos nomes ali escritos nem me reconhece mais. A letra que anotou tantos números há muito perdeu seu dono. Quantos prefixos mudaram. Um algarismo acrescentado aos antigos 7 números cria imensidão de ligações possíveis, sem falar que ainda vejo ali alguns telefones com seis números… Acrescentar outros dois ao conjuntos obrigaria quem desejasse ligar a ficar pendurado ao telefone mais do que uma vida. Se bem que no tempo que é dado a uma simples vida terrena, muitas vidas afetivas nascem e morrem, o que tornaria a comunicação ainda mais improvável, ligando infinitas dimensões paralelas. E o que dizer dos celulares, já que nascem e morrem operadoras a todo momento, sem falar que as pessoas hoje mudam de celular mais do que calcinhas ou cuecas. Sei que do outro lado daquelas linhas mortas talvez ainda existam ecos de amigos que também passaram e amores que nunca se foram, o que prova inapelavelmente que minha agenda telefônica envelheceu. Ela perdeu a capa. Tem folhas desbeiçadas. Números anotados pelos cantos. Pedacinhos de papel rasgados enfiados pelos cantos, com números anotados sem identificação que os acompanhe. São nacos de jornal, guardanapos, folhas de sulfite e até mesmo um pedaço de caderno com pauta musical. Hieróglifos amontoados numa ruína. A tal agenda. Ao lado dos poucos nomes que ainda reconheço, vejo números riscados em série, gente que mudou de casa, de estado, de estado civil, de sexo e de religião. Ao menos reconheço uma ou outra garatuja que, sim, com certeza, fui eu quem fez, provavelmente enquanto esperava que alguém atendesse do outro lado. Há páginas com muitas garatujas, o que talvez indique que alguém nunca atendeu. É. Verdade. Você. Enquanto eu inundava páginas centrais da minha agenda de desenhos desesperados. Mas isso já faz um tempo boçal, a agenda envelheceu, tudo está esmaecido, nessa página específica uma grande mancha de café borra os desenhos e destrói, inexoravelmente, os dois últimos números do que, imaginava eu, ainda pudesse ser seu telefone.

criado por ciadaobesidade    11:48 — Arquivado em: Sem categoria

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