Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

18.4.08

Conjunto Nacional

 

Aquela história de amor começou no Viena do Conjunto Nacional, num jantar que marcaram como quem não quer nada mas onde chegaram evidentemente carregados de segundas e terceiras intenções. Não sei se foi antes ou depois do cineminha, nem lembro se assistiram a Cães de Alguel ou a Matrix (talvez Matrix), nem se foi no antigo Cinearte (1 ou 2?), hoje Cine Bombril, ou se foi no antigo Bristol, no Liberty ou Center 3, que hoje deram lugar a um multiplex furioso, num edifício bacana que recobriu as ruínas do antigo Center 3 que um incêndio detonou. Não sei. Não lembro. Lembro, isso sim, que o jantar foi no Viena, que ficaram se comendo com os olhos, comentando banalidades sobre o filme e, nas frestas, entregando suas vidas um pro outro. O amor costuma ser assim. Você pede um prato do Viena, começa a rabiscar com giz de cera a toalha de papel, aí de repente olha pra figura na sua frente, olha fingindo nem querer olhar, com medo que seu olhar grude pra sempre e aí, bem, aí, enfim, você olha, e não dá outra, queria o quê? Começa a tal história de amor. Esta história de amor, especificamente, começou lá, no Viena do Conjunto Nacional, essa esquina de conjurações paulistanas: você marca o encontro na Cultura (nessa época a Cultura não era a imensidão que é hoje e existia o Cine Astor, onde tenho certeza que não começou esta história de amor), finge que namora as gôndolas enquanto espera, aí a figura chega, beijo casto, mais passeio, você talvez compre alguma coisa, ou tome um café, talvez, talvez vocês resolvam pegar um cinema, ao menos vão ver o que é que está passando, conferir os horários, depois, bem, depois que tal jantar no Viena? Que tal tomar um lanche ou um sorvete? Quantos amores não começam assim? Quantos não terminam? Este amor que começou no Viena do Conjunto Nacional eu posso assegurar que terminou também no Viena do Conjunto Nacional. Terminou lá a primeira, a segunda, a terceira e a última vez. Alguns dos fins foram polidos como pedia o ambiente. Um ou outro, se me lembro, beiraram a baixaria. Lágrimas escancaradas no rosto sei que tiveram. Talvez alguém tenha levantado e simplesmente foi embora. Talvez os dois tenham dividido a conta e sairam pra passear pelo Conjunto Nacional, talvez tenham deixado para ir à Livraria Cultura depois da janta, não era tão tarde, tão tarde ao menos para ver ou comprar livros, talvez tenham ido à Cultura antes e depois da janta e, enquanto zanzavam pelos corredores, o amor acabou. Simplesmente alguém disse fim. Desfez o abraço, largou a mão, tirou os olhos daqueles olhos em que os tais olhos estavam grudados já faz alguns anos, tirou os olhos sem grandes dificuldades e disse fim. Mudou o curso dos passos, ao invés de caminhar em direção à livraria, virou pros lados da Loja de Discos, pra saída da Augusta, da Paulista, da Padre João, simplesmente pra sair dali, sair rápido, o quanto antes, sair daquela encruzilhada de conjurações tipicamente paulistanas, afinal você nem nasceu em São Paulo e fodam-se os paulistanos. A outra pessoa estancou. Ficou meio abobalhada. Aí acelerou o passo na sua direção. Segurou seu braço num clichê de algum filme que deve ter visto em algum daqueles cinemas. Pediu satisfações. Ou mandou a merda. Ou pediu um beijo. Ou agarrou para um beijo, como fez daquela outra vez, faz alguns anos, nos mesmos corredores ao lado do Viena, num mesmo passeio que parecia ao acaso, mas que era encenação para o beijo, só que, dessa vez, o improviso saiu pela culatra, a figura já tramara outro cenário. E aí acabou. Adeus. Você ficou só no meio do corredor. Entrou na Livraria Cultura e ficou dando voltas na primeira gôndola do caminho. Você comprou um monte de coisas no cartão. Pegou as sacolas. Se fosse fim de ano, provavelmente teria encaixado entre os livros aquele calendário trambolhão tradicional que a Cultura dá. Talvez você tenha olhado com tesão pras diversas tatuagens que linda atendente exibia no colo exuberante. Não lembro. Vai saber. Depois você pegou o Socorro ali no ponto da Paulista.

criado por ciadaobesidade    19:09 — Arquivado em: Sem categoria

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://cronicasdecelsocruz.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.