Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

17.4.08

Comentário na entrada do Jardim

 

Queridos leitores e leitoras,

Na última semana fiz um exercício folhetinesco aqui no blog, O Jardim das Delícias. Escrito em pequenos capítulos, o texto ganhou corpo. Faltava dar uma revisada e organizar de modo que a leitura ficasse mais fácil - e não um lance meio mangá, como estava. Agora, em 4 partes (pra caber no blog), você tem o texto daqui pra baixo, na versão atual. Vale comparar as mudanças e seus sabores. Obrigado por chegar até aqui! Depois tem mais.

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Jardim das Delícias (começo)

Jardim das Delícias

Quadro

A jovem artista plástica passava horas extática na frente do quadro de Bosch no Museu do Prado e já tinha analisado cada detalhe do tríptico, tanto do ponto de vista estético, quanto sob a ótica histórica, ou mesmo semiótica, ou ainda psicológica e mítica. Mas nenhum estudo refreava a balbúrdia dos sentidos, o êxtase que a arrancava do tempo e do espaço, ali, na frente do quadro, num dos museus mais importantes do mundo. Fez um grande esforço para chegar ao seu amado quadro. Economizou meses do salário do estágio, comprou uma passagem promocional da Ibéria, rezou para que a imigração não a barrasse, alugou quarto mínimo em hotel do centro de Madri e, desde que chegara, pouco se afastara do Prado. Passou os olhos na profusão de obras primas para entrar no seu jardim. Ignorava os turistas afoitos e executava lentíssimos movimentos, pequenas vibrações nas pernas, pelos eriçados nos braços, frêmitos breves nos lábios, como personagem de uma longa peça de Bob Wilson ou Pinna Baush, outros dois mestres que faziam pintura no teatro, assim como Bosch fazia teatro na pintura. Quando a mulher mais velha esbarrou em seu ombro, deslocando a alça da bolsa onde ela carregava passaporte e caderno de desenhos e notas, nem notou. Só quando ouviu o pedido de desculpas, em sua língua natal, virou, sempre lentamente, o rosto e sorriu. Foi como um raio. Ou não estava, naquele segundo, diante de um outro jardim, que como uma dádiva, presente de um deus descuidado, que semeia prazeres e milagres ao acaso, iluminava seus olhos como o quadro de Bosch?

Alla Prima

Se alguém perguntasse, diria que já se apaixonou muitas vezes. Na verdade, foram três suas paixões, incluindo aí o garoto banguela do primeiro ano, que ela achava lindo, mas que preferia jogar bola com os os colegas e acabou virando um pitboy asqueroso. As outras duas bateram forte, uma na adolescência, se alguém perguntasse poderia afirmar, com segurança, que aquele foi seu primeiro amor. Outra nos tempos da faculdade, um amor que durou anos, com direito a casa conjunta, muitas brigas e a resolução definitiva de realizar esta viagem, buscando de uma vez seu Jardim das Delícias. Se alguém perguntasse até segundos atrás, provavelmente ela diria isso tudo ou coisa parecida, agora, fulminada, não encontra palavra, as frases espirituosas desaparecem, mal consegue esconder sua cara de besta no sorriso tosco que lança. Bosch herdou de Van Eyck o uso da tinta óleo, técnica que permitia precisão e detalhismo impressionantes, e que Bosch usava de um modo ousado, Alla Prima. Primeiro preparava a tela, umedecendo-a de modo apropriado. Aí, pegava seus pincéis com cerdas minuciosamente aparadas e lançava-se na obra. A tinta secava logo e não permitia grandes retoques. As coisas aconteciam de primeira. Eram ou não eram. A técnica exigia muito do artista, em troca, perpetuava a espontaneidade de seu gesto. Do primeiro gesto. A mulher mais velha esbarrou em sua bolsa, virou-se para ela, sorriu e pediu desculpas em português. Tudo simples e banal. Antes que se desse conta, antes que registrasse o gesto, a voz, o conteúdo da fala, antes que esboçasse resposta, estava fisgada.

As Tentações de Santo Antão

Deitada sobre a tela branca e úmida, olhava o teto, outra tela branca, e acompanhava ranhuras na tinta, pontos descascados, enquanto a mulher mais velha lambuzava seu corpo nu com cores primárias, primeiro amarelo, e ao mesmo tempo estendia língua rombuda que passeou por sua axila direita, um arrepio, cócegas, depois vermelho, com um mordisco direto no mamilo, num gesto rápido de cabeça, depois azul, formando poça em sua barriga e então a boca mergulhou em sua boca, o primeiro beijo, salgado, suor do dia, verão em Madri, um quê das tintas, que de resto invadiam suas narinas, fechou os olhos e curtiu a língua zanzando em sua boca e tocando a sua língua, as duas deslizando, bater de dentes. Então a outra, a mulher mais velha, numa manobra rápida começou a massagear seus pés de unhas bem feitas, esmalte incolor, o dedão e o indicador afundando entre seus artelhos, nos metatarsos, sentiu dores fundas e foi relaxando, depois a borda interna e a externa e os tornozelos, cansados de horas de pé naquele puta museu, e veio com a língua, em cada reentrância, veio uma aflição e se retraiu, para depois se entregar novamente e depois as tintas, mais uma vez lambuzando seu corpo, subiu pelas coxas, usando as mãos coloridas, a mulher mais velha apalpou as pernas, uma mão enérgica, esperta, de massagista cega em termas da infância, carinhou as rótulas e subiu pelo arco interno das coxas, primeiro a direita, a esquerda a seguir, e ela pensou, feliz, que bom que tinha depilado ontem mesmo, no chuveiro de casa, com um barbeador barato e sorriu e então o dedo médio da outra, a mulher mais velha, arranhou seu púbis, roçando seu sexo como quem não quer nada, e vieram outros dedos, e a mão inteira, artista na argila, num suspiro ela afastou as pernas, um tico, não muito, tintas se misturando e aí um dedo penetrou-a, soltou um gemido, largada, e ganhou mais um beijo, azul escorria no vão de suas coxas, sentia as gotas traçando desenhos nas dobras das nádegas, e um segundo dedo alcançou seu cuzinho, enquanto a língua lixava com fé seu clitóris e mirando o teto lembrou lá da infância, a primeira vez que seu pai a levou num museu, no Masp, em São Paulo, e seu prazer imenso ao descobrir tantas telas, em especial aquela do mestre Bosch, As Tentações de Santo Antão, com detalhes e delícias e foi ali mesmo, na tarde paulistana, que decidiu que seria artista, algum dia.

Obra

Bosch nunca saiu de sua cidade. Bosch não precisou ver o mundo. Bosch sonhou o mundo. Bosch pintou o mundo. As mãos da mulher mais velha agora seguravam suas nádegas e ela beijava, lambia, mordia seu sexo com a lentidão de monja em ritual antigo de religião secreta num templo esquecido no canto mais remoto do mundo. Pensou em Bosch, no ateliê de pintura, no fundo da igreja, na cidade da Holanda, já faz alguns séculos, na agonia e no êxtase, na criação uma obra-prima, como um dia disse sua professor de História da Arte 1, na faculdade pública em que se formara.

 

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Jardim das Delícias (meio)

 

Éden

Dar um talho com a boca na ponta da manga enorme e com a ponta dos dentes puxar um naco da casca e dar uma bela bocada na polpa amarela suculenta e doce e repetir, repetir, repetir, lambuzando a cara toda até roer o caroço, como cachorro bravo com osso, cascas sobre o prato e o rosto pintado, como palhaço dos circos mambembes da infância que faziam você sonhar com mundos paralelos, o alto dos trapézios e os globos da morte, respirações suspensas, suspiros, o jato de palmas sem fim e a vênia generosa para a imensa platéia. Foi assim. Deitada sobre a tela. Matéria. Que a mulher mais velha transformou em obra-prima.

Sonhos

Ou não. Talvez jamais tenha saído de São Paulo. Talvez nunca tenha ido ao MASP e, se foi, passou batida pela obra de Bosch. Quem sabe seu pai não se interessasse por museus. Pode ser que tenha passado a infância dançando o Tchan na boquinha da garrafa e tenha se inscrito três vezes no Big Brother. Talvez tenha casado cedo e parou de estudar para cuidar dos filhos. Quem sabe hoje more na edícula da sogra e, eventualmente, receba telefonemas do marido, que fugiu com outra. Talvez leia romances baratos, folhetins desses de banca, e viva sonhando em ser personagem de alguma, uminha só que seja, uminha só paixão. Vai ver, às vezes, sonhos se realizem. Como agora, nessa casa em Madri, nessa sala ampla em Madri, deitada nua sobre essa tela, com o mesmo tamanho da tela em que um dia Bosch realizou sua obra-prima.

Versões

Há duas versões das Tentações de Santo Antão. Uma está em São Paulo, no MASP, a outra em Lisboa. Talvez outras variações tenham se perdido para sempre. Talvez, agora, em Lisboa, num quarto da baixa, outros amantes se friccionem como personagens do Bosco, ou como telas de Picasso, Dali ou Ingres, após um encontro casual num dos museus da vida. Talvez esse tipo de encontro seja clichê, um ritual similar ao dos solitários nos bares e boates em São Paulo, Madri ou Lisboa. Provavelmente há viciados nesse tipo de encontro. Há michês. Um ou outro psicopata. Quem sabe agora um corpo morto, abandonado sobre tela, com incisão profunda do externo até o púbis, eviscerado como em tela de Bacon, que aliás realizava trípticos terríveis, equações mortais reelaborando as grandes questões morais, estéticas e amorosas do mundo, quem sabe agora esse corpo morto seja devorado por um monstro desses que vemos em filmes trash americanos, releituras de grandes películas orientais, encarnações de nossos fantasmas secretos, como no quadro de Bosch, onde o demônio do qual esqueci o nome devora e caga pecadores.

Gênese

Deus disse comam de tudo, divirtam-se, só não provem do fruto daquela árvore ali. Estávamos no sexto dia, o mundo já estava pronto, com luz, céu, mar, animais, homem e mulher, feitos à semelhança do dito cujo, nus e inocentes, amigos das bestas e das feras, prontos para o amor mas não para o discernimento, que aliás era o sabor metafórico daquele fruto proibido, que os artistas a partir da Idade Média e do Renascimento relacionaram com a maçã. Não foi o caso de Bosch, que no Jardim das Delícias pinta o fruto como morango silvestre ou, eventualmente, cereja. Mas naquele dia Deus não pensava nisso tudo, cansado que estava, após seis dias de intensa labuta. Deus deu instruções gerais e foi descansar. Dizem que foi Eva, mas há controvérsias, quem teve a idéia de comer o fruto. Alguns dizem que tudo foi história da serpente, que naquele tempo não se arrastava pelo chão, devia andar, sabe-se lá como. Vai ver Adão era um banana ou armou as coisas de um jeito que não restassem provas de seus atos. O fato, ou o mito, é que a dupla acabou comendo o tal fruto e foi aquela celeuma. Deus também tinha outra árvore noutro canto do parque, a árvore da vida e da morte, e antes que a dupla também descobrisse o mais proibido dos frutos, e aí vencesse as vicissitudes da morte, se igualando de vez ao seu Deus, a Ele mesmo, Ele com E maiúsculo, Deus tratou de fazer uma limpeza, botou o casal pra fora do Jardim, fez a cobra se arrastar para todo sempre, ordenou que Eva sangrasse todo mês e exigiu que Adão batalhasse seu dia-a-dia, ganhando o sustento com suor. Dali pra cá a coisa foi foda.

Esferas

Aberto, o tríptico tem 2,20 m x 3 m. As duas telas laterais fecham-se como portas sobre a tela central. A narrativa do quadro começa com a obra fechada. No Prado é possível circular o Jardim e enxergá-lo como um tipo de História em Quadrinhos. Fechado, o que vemos em primeiro lugar é uma imensa bolha, uma esfera de vidro que, em seu interior, guarda o mundo plano sobre o qual se estende o firmamento. Sob o mundo, escuridão. Ao abrir a obra, entraremos no Jardim das Delícias terrenas, descobrindo que o que um dia foi Paraíso, graças à ação do desejo humano, se transformará em inferno. Inferno, terra, paraíso, sobrepostos como camada de um sanduíche embalado na esfera divina, como lanche do McDonald’s ou como esfera nos quadros de Magritte ou ainda como as bolas transparentes que, há alguns anos, Antunes Filho, amante de Pina Bausch e Bob Wison, usava. Na escala cósmica, todos descartáveis, rotundas fantasias de Deus.

Ordens

"Ele mesmo ordenou e tudo foi criado" é a frase escrita sobre a esfera que abriga o mundo. A legenda é clara e também serve como moldura, enquadrando nossa leitura. Acontece que, depois de Deus, que adora dar ordens, realizar sua obra, os homens e mulheres criados não param de se rebelar e é essa rebeldia que trai as melhores intenções, como a obra de Bosch comprova, e inaugura as incomensuráveis paixões humanas. Não pensou em nada disso enquanto resfolegava depois do gozo. Sua cabeça era um imenso vazio, do qual haviam sido varridos quaisquer vestígios de inferno, terra ou paraíso. Então olhou para ela, a mulher mais velha, aninhou o rosto entre seus peitos, beijou seu mamilo direito, como a teta de uma mãe profunda, arcaica, e adormeceu.

Eva

Meu nome é Eva. Disse a mulher mais velha. Tenho 42 anos e vivo em Madri há 5. Nasci em São Paulo. Fiz carreira numa empresa brasileira que foi comprada por uma corporação espanhola. Vim trabalhar na matriz. Controlo um enorme orçamento e muitas pessoas. Nos poucos horários livres, gosto de passear no Prado. Já tive marido, que preferiu ficar roendo sua inveja em São Paulo. Não tenho tempo para relacionamentos. Não sinto muita falta deles. Nos fins de semana, gosto de pintar. Tento copiar os mestres. Comecei sozinha, então um dia contratei um professor, sinto que estou melhorando, sou uma aluna esforçada. Já tinha visto você vendo o Jardim. Você e o Jardim, juntos, pareciam uma tela de Picasso relendo tela de Velásquez, se é que você me entende. Meu nome é Eva, como no Paraíso, ou como a mulher de Hitler ou como no quadro de Bosch. O mundo é uma releitura. Os amores também.

Lilith

Meu nome é Lilith, respondeu a jovem artista. Sou aquela que foi extirpada das páginas do livro santo e exilada num canto do mundo, uma espécie de Sibéria divina, um tédio mortal, onde o musgo era meu companheiro. Antes, deitei com Adão e gozei gostoso, mas tão gostoso que esse filhote do barro, soprado por um Deus metido, se sentiu, digamos assim, diminuído. Meninos são muito ligados nessas coisas, precisam de muito elogio. Eu quis trepar de outro jeito, experimentar posições, incluir alguns bichos. Adão ficou apavorado, Deus tomou partido, eu embarquei para o exílio. Depois você sabe o que acontece. Deus tirou uma costela de Adão e dela fez Eva, essa sim figura submissa, pelo menos até o momento que inventou de devorar certos frutos. No fundo Eva e eu temos muito em comum e Adão podia muito bem ter um pouco das duas. Mas Adão é um tremendo dum broxa.

Gula

As duas caíram na gargalhada. Depois dividiram o chuveiro, tirando as tintas das carnes. Vestiram-se. Foram jantar. Enormes bifes e massas. Vinhos. Molho nas comissuras dos lábios. Suor nos rostos enrubescidos. Um arroto. Outro. Risinhos, risadas. Gordas sobremesas, com muito creme e chocolate. Mais vinho. Eva deixou Lilith no hotel, com um beijo saboroso. Amanhã, sussurrou uma voz rouca. No Jardim, disse a outra.

 

criado por ciadaobesidade    19:19 — Arquivado em: Sem categoria

Jardim das Delícias (mais meio)

Portas

Depois que Eva dormiu, Lilith zanzou pela casa. Do quarto da anfitriã, saiu na sala enorme e quase nua, com outras três portas. Escolheu uma. Deu em outro quarto, similar ao onde deitara com Eva, uma janela para a noite, a porta por onde entrara e outra bem em frente, uma cama, esta de solteiro. Ao invés de voltar, atravessou o aposento e abriu a porta em frente. Deu em outra sala interna, decorada ao modo árabe, como num conto das mil e uma noites. Agora a janela ficava à sua frente, a porta à sua direita. Testou a maçaneta, entrou em outra sala, divã, poltrona, estante com livros, na parede em frente, uma janela, lá fora, a noite, à direita, uma porta. Pensou em voltar. Lembrou-se de João e Maria e quis ter um pedaço de pão, com um miolo bem farto, em um bolso. Lilith estava nua. Pensou também em Alice, a do país das maravilhas. Foi aí que notou o espelho onde pensava haver uma porta, à sua direita. À esquerda, uma cortina, detrás da cortina, agora, sim, outra porta. Testou a maçaneta, dura, empurrou a porta, que rangeu. Foi parar num antigo estúdio, nos fundos de uma velha Igreja medieval, telas num canto, ou sobre a mesa, uma, em andamento, num cavalete. Uma pequena janela, num canto alto ao fundo, nenhuma porta, aparentemente. Entrou e fez um giro completo. A porta por por onde viera se fechara. Testou-a. Trancada. Lilith sentiu o cheiro das tintas, os pincéis prontos para o ato a tela pelo meio: um jardim.

Cozinha

Depois que Lilith dormiu, Eva foi até a cozinha, abriu a gaveta de talheres e pegou a faca de carnes, com a qual fazia cortes de primeira em grandes pedaços de boi, voltou ao quarto e, sentada na beira da cama, começou a fazer um lento talho na pele de seu peito, sobre o mamilo direito. Um “L” e um “E”. Passou o lençol sobre a ferida. Lilith ressonou e, virando-se na cama, continuou a dormir.

Tempestade

Depois que as duas dormiram, caiu uma tempestade. A água da chuva entrava pelas janelas abertas, molhando quartos, quadros, tapetes, sofás, cozinhas, facas, tintas e camas. A prata dos raios iluminava de vez em quando os corpos nus das mulheres que afundavam no sono, cada vez mais profundo, cada vez mais avesso aos rugidos dos trovões, como se as duas fossem meninas brincando de mergulho rente aos azulejos de uma piscina. As gotas que, finalmente, começaram a alfinetar as mulheres, chegavam como carícias. Mesmo com tanta chuva, a noite era morna. As duas dormiam. As duas precisavam muito dormir. Acordaram no fim da manhã, abraçadas, sem saber como ou quando começara o enlace, naquela cama encharcada em Madri.

Disney

Antes que as duas dormissem, conversaram sobre pintura. Lilith disse que gostaria de ir à Holanda, conhecer a cidade de Bosch. Eva disse que agora a cidade era uma espécie de parque de diversões, com direito a boneco de cera e cenografia no antigo ateliê do mestre, todo tipo de bonequinhos e memorabilia envolvendo a obra do Bosco, estátuas de seus monstrinhos em praça pública. Uma fonte da vida, gigantesca, põe nessa nossa realidade aquele detalhe do canto esquerdo da primeira parte do tríptico. Nem Walt Disney faria melhor. Disse também que, em matéria de fonte da vida preferia o pequeno quadro A Origem da Vida, na Galerie Dorsay, em Paris, de Courbet. Lembra? A bucetinha em tamanho natural, o extremo realismo, o naturalismo do retrato daquela bucetinha, discretamente colocado num canto, e que joga na cara de quem passa a verdadeira fonte da vida. Joga na cara. Eva gosta mesmo da fonte da vida. Onde, aliás, acabara de beber longos goles.

Nomes

Buça, buceta, boceta, busca, busquela, busquelinha, xoxotinha, xavasca, xota, xana, xereca, xibiu, pupuca, perseguida, coisinha, gracinha, pombinha… Buscavam apelidos num duelo. A fonte. A origem. Rindo, rindo. Pegando no sono.

Edições

Lilith quis contar para a outra sobre Morpheus, o Sandman de Neil Gaiman, aquela obra-prima dos quadrinhos, o herói, ou anti-herói, sei lá, que viajou tempos e espaços em setenta edições, acho que foram setenta, assinadas pelo maior roteirista de quadrinhos do mundo moderno, o maior, depois de Einer, mas Einer não conta, Eisner é Deus, mas o Sandman/ Morpheus com certeza esteve com Bosch, soprando seus sonhos, mas Lilith não teve tempo de dizer mais nada, a frase saiu pelo meio, cortada por um último nome para o sexo que carregava entre as pernas e que dava tanto prazer quando tocado por Eva, Eva parecia um personagem de Gaiman, como Lady Death, a irmã gostosinha de Morpheus, que ajuda a gente a fazer outras passagens.

Costura

Eva lembrou de como o pai a colocava na cama, puxava a coberta, se deitava ao seu lado e esperava que a menina pedisse: pai, me conta uma história. Ele sugeria títulos de um amplo repertório, contos de fadas, memórias da família, musicais com Gene Kelly ou Fred Astaire. Mas Eva exigia sempre as mesmas narrativas, titulares da sua seleção das mais amadas. Caso seu pai colocasse um detalhe a mais ou outra entonação, Eva cobrava fidelidade ao original, que recitava em minúcias, como a reza baixa do terço que sua avó católica desfiava. O pai costurava histórias até Eva dormir.

 

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Jardim das delícias (Fim)

Carrossel

Admirando Bosch, parece que a vida é uma roleta viciada, um carrossel luminoso em que giramos sem parar, apenas mudando de banco, estrebuchando de prazer sem saber que dividimos espaço com os demônios Lúcifer, Leviatã, Satã, Belphegor, Mammom, Belzebu e Asmodeu que, assim que tocar a campainha decretando o final da rodada, vão simplesmente foder com a gente?

Lá

Admirando Bosch é difícil não quedar paralisado de fascinação. Mas a saída está lá, na nossa cara. É preciso plantar um jardim.

Pra quê mentir?

Pra quê mentir? Inventar nomes, cargos, poses, histórias, lendas, figurinos, cenários, gestos… Pra quê? São apenas duas mulheres que se encontram na puta que o pariu, que viveram na mesma cidade quase a vida toda, podiam ter se cruzado na Avenida Paulista, vai ver pararam juntas diante de um mesmo quadro, no MASP, ou comeram pedaços de abacaxi na mesma banquinha, atravessaram no mesmo tempo de farol. Uma era quase menina quando a outra já era muito mulher, mas até aí tudo bem, há tantos amores precoces. E às vezes a gente dá um giro justamente pra isso, encontrar um amor ou amores. Os aviões estão cheios de gente em busca de aventura. Ou de vida nova. Oportunidades. Empregos. E, mais uma vez, amores. Gente que era travada e que, duas horas depois do desembarque, está trepando que nem louca. Gente que vai cruzar tantas pessoas e que sempre, no fundo de cada gozo, lá num cantinho do baú da memória, vai dar de cara com o mesmo rosto, um amor que deixou, um amor que nem levava em conta, nem pensava que era amor. Ou que mentia pra si mesma que não era, não era, não podia ser, não devia, jamais, não tem a menor condição, não é, definitivamente não é. Amor. Mas acontece. Como acontece que quem era vizinho aqui só vai se cruzar lá fora, graças a um quadro, um poema, uma esquina, que você devia virar pra direita e que, sem notar, acabou dobrando pra esquerda, indo parar no Jardim das Delícias. É uma delícia passear por cidades que têm muitos jardins, que a cada não sei quantas quadras te apresentam um parque novo, com árvores centenárias, laguinhos, às vezes animais, pipocas e bancos. Sem falar nas cidades dos sonhos, que deformam lugares vistos, cartões postais, filmes e memórias, principalmente as dos outros, contadas, largadas na superfície do grande lago coletivo, à deriva, e que de repente vêm parar na margem, aos teus pés. E é bom mentir, mentir mil vezes, mentir amores, amores mentem o tempo todo, amores são pura mentira, puro teatro, onde duas moças de respeito bailam de rosto colado e depois mergulham entre as pernas uma da outra, no devaneio dos cheiros e toques musicais. Madri é uma bela cidade. Boa para segredos e mentiras. Perfeita para paixões almodovarianas, duplicandos as imagens, como carimbos de brinquedo que na infância Lilith (ou Eva?) coloria. O amor dura pouco. É melhor mentir, mentir, mentir, enquanto é tempo.

Sobre o nosso jogo

Caríssima Eva, agradeço por você chegar até aqui. As mensagens mais recentes são as peças do nosso jogo, como, tenho certeza, você percebeu. São, também, as últimas. Da sua, Lilith.

criado por ciadaobesidade    19:11 — Arquivado em: Sem categoria

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