Éden
Dar um talho com a boca na ponta da manga enorme e com a ponta dos dentes puxar um naco da casca e dar uma bela bocada na polpa amarela suculenta e doce e repetir, repetir, repetir, lambuzando a cara toda até roer o caroço, como cachorro bravo com osso, cascas sobre o prato e o rosto pintado, como palhaço dos circos mambembes da infância que faziam você sonhar com mundos paralelos, o alto dos trapézios e os globos da morte, respirações suspensas, suspiros, o jato de palmas sem fim e a vênia generosa para a imensa platéia. Foi assim. Deitada sobre a tela. Matéria. Que a mulher mais velha transformou em obra-prima.
Sonhos
Ou não. Talvez jamais tenha saído de São Paulo. Talvez nunca tenha ido ao MASP e, se foi, passou batida pela obra de Bosch. Quem sabe seu pai não se interessasse por museus. Pode ser que tenha passado a infância dançando o Tchan na boquinha da garrafa e tenha se inscrito três vezes no Big Brother. Talvez tenha casado cedo e parou de estudar para cuidar dos filhos. Quem sabe hoje more na edícula da sogra e, eventualmente, receba telefonemas do marido, que fugiu com outra. Talvez leia romances baratos, folhetins desses de banca, e viva sonhando em ser personagem de alguma, uminha só que seja, uminha só paixão. Vai ver, às vezes, sonhos se realizem. Como agora, nessa casa em Madri, nessa sala ampla em Madri, deitada nua sobre essa tela, com o mesmo tamanho da tela em que um dia Bosch realizou sua obra-prima.
Versões
Há duas versões das Tentações de Santo Antão. Uma está em São Paulo, no MASP, a outra em Lisboa. Talvez outras variações tenham se perdido para sempre. Talvez, agora, em Lisboa, num quarto da baixa, outros amantes se friccionem como personagens do Bosco, ou como telas de Picasso, Dali ou Ingres, após um encontro casual num dos museus da vida. Talvez esse tipo de encontro seja clichê, um ritual similar ao dos solitários nos bares e boates em São Paulo, Madri ou Lisboa. Provavelmente há viciados nesse tipo de encontro. Há michês. Um ou outro psicopata. Quem sabe agora um corpo morto, abandonado sobre tela, com incisão profunda do externo até o púbis, eviscerado como em tela de Bacon, que aliás realizava trípticos terríveis, equações mortais reelaborando as grandes questões morais, estéticas e amorosas do mundo, quem sabe agora esse corpo morto seja devorado por um monstro desses que vemos em filmes trash americanos, releituras de grandes películas orientais, encarnações de nossos fantasmas secretos, como no quadro de Bosch, onde o demônio do qual esqueci o nome devora e caga pecadores.
Gênese
Deus disse comam de tudo, divirtam-se, só não provem do fruto daquela árvore ali. Estávamos no sexto dia, o mundo já estava pronto, com luz, céu, mar, animais, homem e mulher, feitos à semelhança do dito cujo, nus e inocentes, amigos das bestas e das feras, prontos para o amor mas não para o discernimento, que aliás era o sabor metafórico daquele fruto proibido, que os artistas a partir da Idade Média e do Renascimento relacionaram com a maçã. Não foi o caso de Bosch, que no Jardim das Delícias pinta o fruto como morango silvestre ou, eventualmente, cereja. Mas naquele dia Deus não pensava nisso tudo, cansado que estava, após seis dias de intensa labuta. Deus deu instruções gerais e foi descansar. Dizem que foi Eva, mas há controvérsias, quem teve a idéia de comer o fruto. Alguns dizem que tudo foi história da serpente, que naquele tempo não se arrastava pelo chão, devia andar, sabe-se lá como. Vai ver Adão era um banana ou armou as coisas de um jeito que não restassem provas de seus atos. O fato, ou o mito, é que a dupla acabou comendo o tal fruto e foi aquela celeuma. Deus também tinha outra árvore noutro canto do parque, a árvore da vida e da morte, e antes que a dupla também descobrisse o mais proibido dos frutos, e aí vencesse as vicissitudes da morte, se igualando de vez ao seu Deus, a Ele mesmo, Ele com E maiúsculo, Deus tratou de fazer uma limpeza, botou o casal pra fora do Jardim, fez a cobra se arrastar para todo sempre, ordenou que Eva sangrasse todo mês e exigiu que Adão batalhasse seu dia-a-dia, ganhando o sustento com suor. Dali pra cá a coisa foi foda.
Esferas
Aberto, o tríptico tem 2,20 m x 3 m. As duas telas laterais fecham-se como portas sobre a tela central. A narrativa do quadro começa com a obra fechada. No Prado é possível circular o Jardim e enxergá-lo como um tipo de História em Quadrinhos. Fechado, o que vemos em primeiro lugar é uma imensa bolha, uma esfera de vidro que, em seu interior, guarda o mundo plano sobre o qual se estende o firmamento. Sob o mundo, escuridão. Ao abrir a obra, entraremos no Jardim das Delícias terrenas, descobrindo que o que um dia foi Paraíso, graças à ação do desejo humano, se transformará em inferno. Inferno, terra, paraíso, sobrepostos como camada de um sanduíche embalado na esfera divina, como lanche do McDonald’s ou como esfera nos quadros de Magritte ou ainda como as bolas transparentes que, há alguns anos, Antunes Filho, amante de Pina Bausch e Bob Wison, usava. Na escala cósmica, todos descartáveis, rotundas fantasias de Deus.
Ordens
"Ele mesmo ordenou e tudo foi criado" é a frase escrita sobre a esfera que abriga o mundo. A legenda é clara e também serve como moldura, enquadrando nossa leitura. Acontece que, depois de Deus, que adora dar ordens, realizar sua obra, os homens e mulheres criados não param de se rebelar e é essa rebeldia que trai as melhores intenções, como a obra de Bosch comprova, e inaugura as incomensuráveis paixões humanas. Não pensou em nada disso enquanto resfolegava depois do gozo. Sua cabeça era um imenso vazio, do qual haviam sido varridos quaisquer vestígios de inferno, terra ou paraíso. Então olhou para ela, a mulher mais velha, aninhou o rosto entre seus peitos, beijou seu mamilo direito, como a teta de uma mãe profunda, arcaica, e adormeceu.
Eva
Meu nome é Eva. Disse a mulher mais velha. Tenho 42 anos e vivo em Madri há 5. Nasci em São Paulo. Fiz carreira numa empresa brasileira que foi comprada por uma corporação espanhola. Vim trabalhar na matriz. Controlo um enorme orçamento e muitas pessoas. Nos poucos horários livres, gosto de passear no Prado. Já tive marido, que preferiu ficar roendo sua inveja em São Paulo. Não tenho tempo para relacionamentos. Não sinto muita falta deles. Nos fins de semana, gosto de pintar. Tento copiar os mestres. Comecei sozinha, então um dia contratei um professor, sinto que estou melhorando, sou uma aluna esforçada. Já tinha visto você vendo o Jardim. Você e o Jardim, juntos, pareciam uma tela de Picasso relendo tela de Velásquez, se é que você me entende. Meu nome é Eva, como no Paraíso, ou como a mulher de Hitler ou como no quadro de Bosch. O mundo é uma releitura. Os amores também.
Lilith
Meu nome é Lilith, respondeu a jovem artista. Sou aquela que foi extirpada das páginas do livro santo e exilada num canto do mundo, uma espécie de Sibéria divina, um tédio mortal, onde o musgo era meu companheiro. Antes, deitei com Adão e gozei gostoso, mas tão gostoso que esse filhote do barro, soprado por um Deus metido, se sentiu, digamos assim, diminuído. Meninos são muito ligados nessas coisas, precisam de muito elogio. Eu quis trepar de outro jeito, experimentar posições, incluir alguns bichos. Adão ficou apavorado, Deus tomou partido, eu embarquei para o exílio. Depois você sabe o que acontece. Deus tirou uma costela de Adão e dela fez Eva, essa sim figura submissa, pelo menos até o momento que inventou de devorar certos frutos. No fundo Eva e eu temos muito em comum e Adão podia muito bem ter um pouco das duas. Mas Adão é um tremendo dum broxa.
Gula
As duas caíram na gargalhada. Depois dividiram o chuveiro, tirando as tintas das carnes. Vestiram-se. Foram jantar. Enormes bifes e massas. Vinhos. Molho nas comissuras dos lábios. Suor nos rostos enrubescidos. Um arroto. Outro. Risinhos, risadas. Gordas sobremesas, com muito creme e chocolate. Mais vinho. Eva deixou Lilith no hotel, com um beijo saboroso. Amanhã, sussurrou uma voz rouca. No Jardim, disse a outra.